O Sopro de Pak Tai: De arraial Mata Cavalos a Mariana

 

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Trago hoje à liça a cidade histórica brasileira de Mariana, mediatizada em finais de 2015 pelos piores motivos, pois foi atingida por cheias que provocaram várias vítimas e avultados prejuízos no seu riquíssimo património natural e histórico.

Pode dizer-se que o estado de Minas Gerais nasceu mesmo ali, nas margens de um córrego onde decidiram instalar acampamento os paulistas Salvador Fernandes Furtado de Mendonça e Miguel Garcia, líderes da bandeira que em 1696 chegou a esta região em busca dos apetecíveis metais preciosos.

O acampamento inicial, próximo do local onde a mineração era feita (tinha o curioso nome de Mata Cavalos), alargar-se-ia a um arraial que cedo seria baptizado com nome de santo, pois os garimpeiros eram crentes e supersticiosos. Assim, Mariana foi inicialmente Arraial do Ribeirão do Carmo, em honra da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Carmo, que tem a 16 de Julho o dia consagrado.

Os primeiros anos de exploração foram calamitosos. A fome e a doença grassavam e muitos morreram antes de verem acumulada alguma riqueza. As dificuldades levaram a um abandono colectivo. Só em 1703, agora formalmente organizado, o Arraial do Ribeirão do Carmo se começa a desenvolver. Um arraial que teria a função estratégica no jogo de poder estabelecido pelo ouro.

Surgia assim, nesta montanhosa e inóspita região, o primeiro estado do Brasil com características modernas, num contraste com a estrutura inerte das fazendas dos engenhos do litoral norte. Talvez seja por isso que em Minas Gerais, e também na vizinha província de Goiás, se sente mais o peso da tradição portuguesa, seja na miscigenação de raças, na culinária, seja nos hábitos culturais e na própria maneira de ser dos seus habitantes.

Para este Oeste pioneiro convergiu gente das mais diversas origens e ofícios em busca de sucesso e, por isso, durante muito tempo nem reinou rei nem roque. Aqui se instalaram escultores, carpinteiros, ferreiros e, desde logo, os inevitáveis conflitos, sendo o mais conhecido a Guerra dos Emboabas, que opunha os paulistas a todos restantes prospectores vindos das diferentes partes do Brasil, designados pejorativamente de “emboabas”.

Para pôr ordem neste caos, a Coroa portuguesa nomeou António Albuquerque Coelho de Carvalho como governador do estado de Minas, cargo que se seguiu aos de governador do Maranhão, Pará e Rio de Janeiro. A primeira missão que lhe incumbiu o rei foi a de escolher um povoado e fazer dele uma vila. Assim nascia, em 1711, a primeira vila de Minas e também a primeira capital.

Ora, António de Albuquerque Coelho de Carvalho tivera, por volta de 1682, um filho ilegítimo, quase seu homónimo, de uma certa Angela Barros, ou Angela de Azevedo, natural do Gurupá e moradora da vila de Santa Cruz de Camutá. Angela era filha de pernambucanos – Manuel da Mata e Barros, de pai branco e mãe escrava de Angola; e Maria de Azevedo, filha de um mulato e de uma “índia da terra” – e este seu filho, António de Albuquerque Coelho, viria a ser figura grada em Macau, onde ocuparia o cargo de governador, sendo, porventura, o mais mestiçado de todos os dirigentes que se sentaram nas cadeiras do poder na Cidade do Santo Nome de Deus.

A respeito dele escreveu João Tavares de Velez Guerreiro o já clássico relato “Jornada que Antonio de Albuquerque Coelho, Governador e Capitão General da cidade de Macau na China fez de Goa até chegar à dita cidade no ano de 1718”, cuja riqueza de conteúdos merece que nos debrucemos sobre o personagem e sua saga com mais pormenor numa futura prosa que desde já fica prometida. Deixemo-nos ficar, por agora, em Mariana, palco de outras tantas venturas e desventuras.

A mineração começou por acontecer junto aos riachos. Quando o ouro deixava de aparecer nas peneiras, os homens concentravam-se nas pequenas galerias escavadas nas proximidades e, finalmente, esgotado o filão, passavam a explorar as minas propriamente ditas.

O primeiro bispo de Mariana, D. Manuel da Cruz, tem uma história muito curiosa associada à sua personagem. Durante catorze meses viajou de cavalo de São Luís do Maranhão, no Norte do Brasil, até Minas Gerais. Passou por imensas dificuldades, entre as quais “dois naufrágios” (na travessia de rios) e “seis sangrias”. Para o receber, a cidade engalanou-se e organizou a festa do Áureo Trono Episcopal, a segunda maior festa realizada em Minas Gerais durante o período colonial. Nesse mesmo dia, a vila foi elevada à categoria de cidade e adoptou o nome de Mariana, por decisão de D. João V, que assim homenageava a sua mulher, D. Maria Ana de Áustria.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quarta-feiras.

 

 

 

 

 

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