Sopro de Pak Tai:As peças de Bocarro

EPSON DSC Picture

Em Larantuca, na ilha indonésia das Flores, a residência do bispo, a San Dominggo, é conhecida por alguns pelo nome de Peça de Penha. Ali se assinala o local onde foi erguida a igreja de São Domingos. Sabe-se que foram achados vestígios arqueológicos, embora deles não haja qualquer registo.

Segundo a tradição local, existia aí uma pia seiscentista que terá sido trazida de Malaca. Ninguém me sabe dizer quando e quem a trouxe mas o certo é que a dita pia foi transportada do jardim do bispo para o interior da catedral onde seria cimentada ao chão. Como se não bastasse, poliram-na para que parecesse nova! E parece de facto nova. O granulado e as saliências do granito ancestral desapareceram. Eu já a tinha visto ali anteriormente, julgando-a de fabrico recente, longe de imaginar que fosse a pia de Malaca de que tanto ouvira falar. Como foi possível que um bispo, suposta pessoa de cultura e sensibilidade, autorizasse tal barbaridade?

A residência episcopal de San Dominggo situa-se à entrada de Larantuca, no número 1 da rua Miguel Rangel, assim denominada em honra do frade dominicano que em 1630 decidiu recuperar a fortaleza da ilha vizinha de Solor, abandonada pelos holandeses que a tinham conquistado aos portugueses em 1613. Tendo em vista o reforço da sua defesa, Rangel efectuou uma viagem a Macau, de onde trouxe inúmeras peças de artilharia. A respeito dessas peças, na descrição que faz da fortaleza, redigida e impressa em Malaca em 1635, nota que “as duas maiores dessas peças, que são fermosas, estão na couraça, uma das quais foi uma das primeiras peças que na China se fundiu, o qual o fundidor Manuel Tavares (Bocarro) ofereceu a Nossa Senhora de Solor, tornando-a por advogada daquela nova fundição de ferro tão necessária ao Estado e à religião de São Domingos.”

Após o abandono definitivo da fortaleza de Solor pelos portugueses em 1636 esses canhões, num total de quinze, foram levados para Larantuca e alguns deles encontram-se ainda hoje espalhados pela cidade.

Um desses canhões, com dois manípulos na parte superior, foi pintado de preto e prateado e cimentado, mesmo junto à entrada da capela de Tuan Ma. Encontrei nele algumas semelhanças com o famoso meriah si djagur, canhão com 3,90 metros de comprimento fabricado em Macau na década de 30 do século XVI, também por Manuel Tavares Bocarro, o qual se encontra actualmente exposto no Museu Histórico de Jacarta, depois de ter estado durante séculos virado para o mar no cimo das muralhas da fortaleza holandesa de Batávia. Os habitantes locais ainda hoje acreditam que esse canhão tem poderes para favorecer a fecundidade nas mulheres, devido à figa que contém.

Cimentado foi ainda outro canhão, bem mais pequeno, desta feita à entrada da capela Tuan Ana. Também ele recebeu um banho de tinta prateada, “para o embelezar”, assim o entendem os habitantes locais na sua ingenuidade e ignorância.

Encontrei um terceiro canhão no chão do pequeno jardim que rodeia a estátua de Herman Fernandes, herói da luta contra o invasor japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse jardim uns quantos veados esfomeados sobrevivem à custa de uns ramos frescos que alguém para lá vai atirando. Para grande surpresa minha, esse canhão, de comprimento superior aos restantes, roído pela ferrugem e marcado com tinta branca, desapareceria do jardim passados alguns dias sem que ninguém me soubesse indicar o seu paradeiro.

Na rua principal, junto à capela de Santo Antonius de Padua (até nas Flores alteram a nacionalidade do nosso Santo António), há um edifício em cujo piso superior estão inscritos a tinta o apelido Da Costa e a data 1930. Ali perto vive Hilarius Benediktu Cesar Da Silva que descende directamente de Alfredo Da Silva, representante dos reis de Portugal na Ilha das Flores. Ele era um dos sersan buran (sargentos brancos), militares que representavam as autoridades e protegiam os padres que lideravam a comunidade reinol residente em Macassar que viria a estabelecer-se definitivamente nas Flores.

Em Sica ainda há que se recorde que durante a estadia do padre Rangel, quatro notáveis do reino deviam seguir para Timor para estudarem e ao mesmo tempo ficarem como penhor pela segurança do religioso.

Consta que Hilarius está a escrever a história dos seus antepassados. Não mo confirma, mas tem todo o gosto em mostrar-me os retratos de família e permite que o fotografe com a sua senhora e um dos filhos. As feições de Hilarius são claramente caucasianas. Tão pouco enganam os olhos verdes do seu vizinho, Luis Da Gomes. Famílias de Larantuca como as Da Gomes, Cesar Da Silva e Monteiro – todas elas ligadas as sersan buran de outrora – são de origem portuguesa directa. E muitas delas com ligação a Macau.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e investigador da expansão portuguesa, escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s