O Sopro de Pak Tai: A senhora Yu Cheng

foto-pak-tai-5

Continuamos esta semana na companhia de Leonardo Veiga, aliás Wei Nai, cidadão chinês que pugna pela obtenção da nacionalidade portuguesa. (Ver crónica da semana passada).

Antes de me levar a casa para jantar, Leonardo vai buscar a mãe, a senhora Yu Cheng, a uma zona residencial da cidade: “Tenho sorte, ela mora perto”, diz. Depois de tantos anos de separação tem os entes mais queridos à mão de semear: a mulher, a mãe e ainda o seu melhor amigo, “um engenheiro inglês”.

É-me difícil acreditar que a senhora que vejo entrar para o banco de trás do automóvel de Leonardo Veiga tem mais de oitenta anos. “So, you´re a Portuguese!”, exclama, com um misto de surpresa e satisfação. Depois, enceta amigável conversa, num inglês impecável, como se me conhecesse há muitos anos.

Mei Fen, a mulher de Leonardo, é uma bonita dançarina de trinta e um anos que partilha com ele um pequeno apartamento onde coabitam também um gato, alguns peixes de aquário e um piano de parede. Distribuídas pelas quatro paredes da casa, diversas fotografias de Mei Fen, todas elas da autoria de Leonardo. Feitas as apresentações, o luso-descendente apressa-se a tirar do frigorífico uma garrafa de vinho branco Great Wall que bebemos antes do jantar enquanto o ouvimos interpretar ao piano um belo trecho de Sebastian Bach.  

Regressemos, entretanto, à nossa história.

Continuamos na década de 1950. O jornalista José Veiga e Yu Cheng mantêm-se em contacto através de profusa correspondência. Volvidos os caóticos anos, agora já com possibilidades de viajar, a chinesa prefere manter-se em Pequim junto da família em vez de regressar ao convívio do português: “É provável que ao fim desse tempo algo tinha morrido na relação entre os dois”, conclui Leonardo. “Penso que a minha mãe não voltou a Cantão porque receava enfrentar de novo a sogra”.

Entretanto, José Veiga conhece em Hong Kong outra mulher, Lo Piu Mui, e decide casar com ela. Para concretizar o seu intento (levado a cabo em 1952) recorre a uma estratégia que ainda hoje choca Leonardo: “O meu pai teve o descaramento de pedir à minha mãe que simulasse a sua própria morte”, exclama, visivelmente revoltado. “Sugeriu que uma amiga dela escrevesse uma carta dirigida ao senhor José Veiga dizendo que Yu Cheng tinha falecido”. Assim, poderia casar-se de novo sem recorrer ao divórcio, que a sua condição de católico proibia. E não é que Yu Cheng concorda! Porém, em troca do favor, exige uma contrapartida: a partir da data de redacção da falsa carta, José Veiga devia comprometer-se a enviar dinheiro até que os filhos atingissem a maior idade. Promessa que o português cumpriu. Não só enviou dinheiro, como também roupa e alimentos. Isto, até ao fim da década de 1960.

Apesar de tudo, Leonardo considera que teve uma infância feliz. A casa do avô era espaçosa e tinha um grande pátio interior com um jardim, como nas casas tradicionais de Pequim. Aos seis anos de idade a mãe quis que aprendesse piano. No início não gostava, mas a mãe forçava-o. E chegava a bater-lhe, se necessário fosse. Aos 10 anos ganha um prémio numa competição. Nessa altura sentia já “um enorme prazer em tocar”.

Na sua vida o pai não tinha lugar. Por isso mesmo, aquando do fortuito encontro em Hong Kong tudo o que sentiu foi uma certa simpatia. Afecto, não. Desconhecia que o jornalista tinha voltado a casar e não lhe dedicava muitos pensamentos.

À medida que Wei Nai (Leonardo) e a irmã Wei Mei cresciam, Yu Cheng leccionava numa escola secundária para ajudar no sustento familiar: “Por que não casou ela de novo?”, pergunto. “No fundo, acho que a minha mãe sempre amou o meu pai, e ainda hoje o ama, apesar de tudo”, responde Leonardo.

Em 1958, na sequência da purga “anti-direitista”, pouco tempo antes do desastroso “Grande Passo em Frente”, Yu Cheng foi despedida, acusada de pertencer a uma família reaccionária. Sobreveio o desprezo e o isolamento. Ninguém se aproximava dela, com receio das represálias das autoridades. Talvez tenha sido esse ostracismo a principal razão para que não voltasse a casar. Não que isso a tenha afectado grandemente. Yu Cheng continuava uma pessoa positiva, bem disposta, de sorriso no rosto, sempre pronto.

Em 1954 foi a vez do pai de Yu Cheng sofrer perseguições, pelo simples facto de ser um intelectual: “O meu avô era um estudioso do clássico “O Sonho da Mansão Vermelha”. Mao Zedong chegou a escrever-lhe uma carta acusando-o de ser capitalista e inimigo do povo”, diz Leonardo.

Continuaremos a falar da saga de Leonardo Veiga no próximo Sopro de Pak Tai.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s