A NOSSA HUMANIDADE

No Evangelho, ouvimos Jesus Cristo proclamar que Deus «não  é um Deus de mortos, mas de vivos…». Esta afirmação é feita quando se discute certa situação no Matrimónio. 

Por associação de ideias, sou levado a pensar, mais uma vez, quando a experiência de Deus está intimamente ligada à nossa humanidade, a homens e a  mulheres de carne e osso, com uma personalidade, com uma história, sempre muito particular e original. Homens e mulheres que fazem parte de um povo e se formam existindo dentro de um contexto cultural. A própria natureza que os circunda influencia o seu modo de ser. 

Extrapolando um pouco e aplicando esse mesmo modo de pensar, isto é, a intrínseca união do divino com o humano, à realidade muito específica do casamento, como o texto evangélico de alguma maneira apresenta, sou levado a determinadas considerações que não parecem ser fáceis de expor perante a mentalidade de muitos na Sociedade actual. Se a Sagrada Escritura, e Cristo Jesus muito concretamente, declara que «não separe o Homem o que Deus uniu » e acrescenta ainda, «…e eles deixarão a casa dos pais para se unirem numa só carne…», então, como explicar aquilo que se torna atrozmente tão frequente nos tempos que correm, o assistir ao desfalecer da união dos casais e das famílias?!

Fundamentalmente, a estrutura intrínseca da nossa natureza humana confirma aquilo que a Palavra de Deus nos expõe e, pela nossa fé, somos convidados  a acreditar e a expressar no nosso viver.                        

Deus não engana. De igual modo,  a natureza humana nas suas dimensões mais profundas, na essência do seu próprio ser como pessoa também não nos ludibria. 

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Então, como entender, tanto ‘divórcio civil’ ou ‘separação definitiva’? Deixando as muitas outras questões sobre o valor e a validade dessas decisões, concentro-me mais e apenas na procura da razão última que, quase infalivelmente, leva tantas pessoas, homens e mulheres, ao tão praticado ‘divórcio civil’ ou à ‘separação definitiva’. Podemos nós, na verdade, entender o movimento interno daqueles que se sentem tão inclinados ao afastamento um do outro? A questão está, portanto, em descobrir o motivo que impele as pessoas à separação, e não tanto na forma, mais legal ou menos legal, como se efectua essa separação.

A experiência mostra, de maneira quase inacreditável, que, afinal, o porquê da dita ‘crise do matrimónio’ e consequentes ‘divórcio civil’ ou ‘separação definitiva’ se encontra na falta da tão necessária maturidade psicoafectiva de ambos, para que, assim,  possam decidir em liberdade o companheiro ou companheira e se, ele ou ela, é verdadeiramente o escolhido ou a escolhida para concretizar a união.

Sendo mais directo. Muitos e muitos são aqueles que possuem um corpo de adulto, são inteligentes, estudaram e até possuem uma boa formação académica e se revelam também gente de notável capacidade de acção e de iniciativa, e de chefia. Contudo e surpreendentemente, ao nível afectivo, são como crianças, imaturas. Acreditem ou não, mas isto é uma constante… e atinge uma multidão, para além da nossa consciência e imaginação.

Mais ainda. Embora, seja uma evidência quase, para não dizer, verdadeiramente científica, essa blocagem afectiva, com altíssima frequência, tem a sua raiz, espantosamente, ao apego muito subtil, profundamente delicado, mas extremamente possessivo aos nossos próprios pais. Tantas e inúmeras pessoas, muito convencidas, que se consideram ‘maduros’, pela via da racionalidade e da actividade e criatividade, mas que continuam a manifestar uma bem funda imaturidade a nível da afectividade. Nos seus afectos e nas suas necessidades afectivas não disseram ‘adeus aos país’. E a Escritura Sagrada continua a declarar como água cristalina e repleta de humanidade: «não separe o Homem o que Deus uniu», mas, vai mais longe e afirma com divina lucidez: «…e eles deixarão a casa dos pais para se unirem numa só carne…».

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Há que ser humilde para tocar o mundo íntimo do nosso coração, como dizem os autores de língua inglesa ‘my in most self’.

Há que ter a coragem de repensar o que é ser Homem, o que é ser Mulher.

Há que aprofundar o conhecimento da Psicologia de Profundidade, dom do século XX, e sabê-la integrar na Formação dos Homens e Mulheres do século XXI.

Há que ir mais longe na compreensão integral da Sexualidade, do Amor e da Família. 

Há que ter a audácia de abrir a nossa Humanidade à Transcendência e a Deus. 

  

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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