MAIS ALÉM E… MAIS FUNDO

 O Evangelho do Domingo passado, neste caso o Vigésimo Sétimo do Ano Litúrgico, lança-nos para horizontes de vida que estão para além dos critérios imediatos, habituais e comuns de encarar a nossa vivência diária. Primeiro, quando apresenta Jesus Cristo a proclamar: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca- te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia.» Segundo, quando, pouco depois, o mesmo Jesus aconselha a todos, quando acabada uma obra, a dizer:  «Somos servos inúteis: ‘fizemos o que devíamos fazer.’» Tais frases correspondem, na verdade, a duas posturas possíveis do ser humano, homem ou mulher, perante si mesmo. Aparentemente, muito diferentes e parecendo até quase  antagónicas, elas, porém, complementam-se à perfeição. 

 A postura inicial afirma que o homem ou a mulher de fé podem realizar coisas extraordinárias, inconcebíveis e inimagináveis. Ela parece dizer que a capacidade criativa do ser humano quase não tem limites. As suas aspirações contêm algo de divino. Assim se podem entender as palavras do Senhor Jesus quando afirma que aqueles que têm fé são capazes não só de transplantar árvores para o mar como também de mover montanhas. O homem ou a mulher de fé, humana e espiritualmente falando, podem fazer maravilhas.

A segunda, ao invés, faz um apelo radical à atitude de humildade que toda e qualquer pessoa deve manter sempre nas as suas realizações, por mais originais e portentosas  que sejam. Na nossa actuação há que ter um cuidado particular e atento para não cair na inclinação sempre muito forte da natureza humana à vaidade, ao orgulho e à dependência do louvor e elogio dos outros. A visão narcisística de nós mesmos leva-nos a perder o sentido do Outro, e o dito ‘Serviço aos Outros’ acaba por não passar de uma ‘máscara’ que camufla ou esconde um coração dominado pelo egoísmo.

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O Evangelho deste próximo Domingo, o Vigésimo Oitavo, parece continuar a análise do ser humano, abordando concretamente a questão da necessidade dele  caminhar constantemente para uma maior consciência de si mesmo e vir a alcançar um conhecimento bem mais objectivo da sua pessoa, por outras palavras, conhecer-se a si mesmo. Diz o texto da Escritura: «Vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se à distância, disseram em alta voz: ’Jesus Mestre, tem compaixão de nós’… Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jessus, para lhe agradecer.»

Assim, através dum «Samaritano» agradecido, em flagrante contraste com a atitude daqueles que nem sequer apareceram a manifestar a sua gratidão a Jesus pela cura, podemos entender quanto é importante na vida ter consciência e conhecimento de tudo quanto sucede na nossa existência, o bem e o mal, o positivo e o negativo, o perfeito e o imperfeito, a qualidade e o defeito, o dom e a insuficiência, o limite… Caso contrário, quanto alheios da realidade podemos andar! Não captamos nem o que sucede no interior de nós mesmos nem à nossa volta, nos Outros e no Mundo. Perdemos até, e dramaticamente, o sentido Deus. 

Aqui chegados, triste e penoso, é ainda verificar que não conseguir  reconhecer devidamente mesmo os próprios dons, graças ou favores recebidos, tal como aconteceu com os nove leprosos da narração evangélica, se torna deveras frequente entre as pessoas na Sociedade actual. Tantos não sabem saborear as coisas boas da vida! Sempre prontos a recitar, de preferência, a ladainha dos seus infortúnios e o rosário das suas lamentações. Não são capazes de tomar esses momentos de profunda alegria e ‘consolação’ como situações previlegiadas para confortar e fortalecer nos momentos de ‘desolação’ vindouros, que, dentro de pouco tempo, lhes baterão à porta. 

Ou, então, também acontece. Inebriados pela satisfação imediata do bem sucedido, embalam nas sensações agradáveis imediatas, mas superficiais, em vez de ‘ponderar nos seus corações’ o acontecido, de modo a encontrar aí a energia revigorante para enfrentar, com coragem e criatividade, o momento difícil que, em breve, se apresentará.

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A Humanidade, que entrou já no Terceiro Milénio, carece urgentemente de Homens e Mulheres cheios de Fé, Coragem e Confiança no Futuro, para aceitar os imensos desafios que se lhe apresenta. 

A Sociedade Contemporânea precisa de Homens e Mulheres capazes de escolher o Caminho de Humildade para encontrar soluções que respondam à Angústia Existencial do Ser Humano e da Natureza.

O Ser Humano geme e clama na profundidade do seu íntimo por Homens e Mulheres capazes de o conduzir ao conhecimento da sua Existência e da sua Essência e a discernir os sinais de um Mundo Melhor.

O Ser Humano procura Homens e  Mulheres com o dom de o conduzir ao Conhecimento, ao Encontro e à Intimidade de Deus, na consciência e na certeza de ter sido verdadeiramente criado por Deus, por Ele chamado a viver com os Outros e estar aberto à realidade que o circunda, o Cosmos.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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