O DESCONFORTO DA VERDADE

Quase escandalizam as palavras de Jesus Cristo, quando O ouvimos proclamar no Evangelho deste Domingo, o Vigésimo do Ano Litúrgico: «Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

Mas ouve-se comentar que sempre se pregou que a Salvação que Cristo veio trazer à Terra é um anúncio de Paz, de Amor e de Harmonia entre os Homens e Mulheres de Boa Vontade! 

Este paradoxo, para não dizer mesmo esta contradição, é simplesmente uma aparência. Muito ao contrário dessa primeira possível conclusão,  a afirmação do Senhor revela, antes, algo bastante mais profundo da conduta humana. Dizer a Verdade, por vezes e incrivelmente, mais parece que se está a ir contra a Amizade, o Amor, porque provoca um enorme desconforto tanto naquele que nos escuta, o dito amigo ou amiga, como naquele que a afirma. Ao mesmo tempo e olhando as coisas de um modo complementar, há que ser bem claro. O Amor também nunca se concretizará escondendo, excluindo ou deixando de fora a Verdade. O Amor genuíno exige indubitavelmente a presença da Verdade. A Verdade, por seu lado e por si só, sem Compreensão e Amor, com muita frequência e muito facilmente,  perde aspectos da visão global da Verdade e redunda numa Injustiça. Eis a dinâmica intrínseca da relação entre Amor e Verdade

A Humanidade contemporânea geme dolorosamente à procura da supremacia da Verdade no Mundo. De facto, a realidade que estamos a viver nos tempos que correm apresenta-se  como uma verdadeira batalha campal entre Verdade e Mentira. Consequentemente, porque a ‘Gente da Mentira’, como apelidava Scott Peck, cresce em número e continua a dominar a geopolítica mundial,  não admira nada que não se consiga estancar o sangue que está a ser derramado por causa de tanta violência entre as nações. A falsidade perverte os corações. A maldade humana destrói a Harmonia e a Esperança dos Povos.     

 

                       **************

 

Voltando ao texto do Evangelho. 

A Verdade a que Jesus Cristo se refere aqui é a Verdade que nos convida a acreditar, em primeiro lugar, na existência de Deus Criador e Pai  e, em seguida, nEle próprio como o Filho de Deus encarnado na História Humana. Ele verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Mais ainda. Torna-se exigência inquestionável de todo aquele ou aquela que acredita, colocar a Deus como centro da sua  orientação de vida e ser Cristo Jesus, o Caminho, Verdade e Vida da sua existência neste Mundo. Ele que é o Primeiro e o Último de toda a Criação. Ele, o divino, tornado modelo de toda a criatura humana.

O texto do Evangelho de São Lucas lança-nos para além do dizer ou não dizer a Verdade. As palavras do Mestre são mais exigentes. Chama-nos, acima de tudo, a que se viva essa a Verdade na Fé, com radicalidade e coerência. Porém, é o próprio Jesus Cristo que nos alerta para as dificuldades dessa mesma vivência, digamos agora cristã, quando nos encontramos  perante os outros.

O Senhor Jesus limita-se a dar um só exemplo de pessoas das nossas relações que podem tornar-se um obstáculo à nossa vida fé. Para espanto de muitos, talvez, Ele inúmera em primeiro lugar os nossos familiares mais chegados.  O Senhor declara, peremptoriamente, quem diria, os familiares mais íntimos. Pai, mãe filho, filha, sogra, nora, sogro, genro… e assim por diante irmãos, irmãs, tios, primos… 

Lembremos apenas. Quantos consagrados, padres ou madres, em que os seus pais faleceram sem nunca terem aceitado a opção dos filhos!  Alguns houve que tiveram de deixar as suas casas, diga-se fugir, sem a autorização dos pais ! Só um exemplo. Santo Estanislau Kostka,  polaco, que para entrar no Noviciado da Companhia de Jesus, , deixou, contra a vontade do pai, a casa, a família e o país. Partiu a pé… e a pé chegou a Roma.

Podemos dar muitas outras situações em que as pessoas são levadas a testemunhar a Verdade da sua Fé, mas aqueles que os acompanham deixam-nos envergonhados e temerosos e não se assumem. Umas vezes, são amigos da família, do bairro ou do desporto. Outras,  os companheiros do liceu, instituto, residência ou universidade. Outros ainda, são camaradas de trabalho ou serviço…

Surpreendentemente, casos acontecem em que aqueles que nos inibem na prática da nossa fé são os próprios membros da Comunidade Cristã. Há que reconhecer, com Verdade e Humildade, que existe muita inveja, competição e maledicência entre nós que vamos à Igreja, o Templo de Deus.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s