DESCANSA… COME, BEBE… REGALA-TE…

Por mais que se queira evitar pôr em questão o nosso ‘modo de viver’ na sociedade actual, as suas consequências negativas,  porém, tornam-se cada vez mais evidentes, gritantes e catastróficas para o futuro da Humanidade e do Mundo. São aos milhões os pobres, sobretudo crianças e mães de família, que choram por um pedaço de pão e uma gota de água. Enquanto isso acontece, escandalosamente, numa outra parte do globo, há aqueles que vivem na abundância, mas de tal modo que até fazem perigar as suas próprias vidas pela obesidade dos seus corpos. Nos  países, ditos desenvolvidos, deparamos com aqueles que põem em prática o que o administrador da parábola de Jesus, quando exclamava, insensatamente, dizendo: «Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens…». Em contrapartida e em qualquer outra parte da Terra, descobrimos uns outros que, com a mão, esgravatam o solo desértico para encontrarem raízes que matem a sua fome ou enganem os seus estômagos.        

  Invertamos a focagem da questão do ‘bem estar’ das pessoas, isto é, do haver pão e água para todos.  Consideremos, antes e ao contrário, aqueles que na sociedade assumem a responsabilidade de fornecer os bens essenciais para a existência humana. Algo estranho e terrível se nos apresenta! O quanto de maquiavélico, corrupto e imoral  se descobre nos laboratórios de biogenética, na indústria agro-pecuária, na indústria alimentar, na indústria farmacêutica, na indústria hoteleira, na indústria da restauração… E tudo por causa do lucro, do ganhar mais dinheiro, e manter, ao fim e ao cabo, uma ‘sociedade de consumo’ que apenas pensa no proveito financeiro e esquece o ser humano.

Eis uma amostra, levada ao extremo.  Onde está a origem do triste espectáculo  das pobres hilariantes ‘vacas loucas’ entre os animais das nossas pastagens, supostamente, saudáveis e verdejantes?! Agora até os seres vivos podem  apresentar sintomas ou estarem infectados com a ‘febre aviária’ e a ‘febre suína’. Levando caso tão sério ao ridículo. Em Hong Kong, na altura, até encontraram uma tabuleta a anunciar a existência  do ‘Dr. Porky Chan’!

Como se esta realidade não bastasse, assiste-se ainda à destruição quase vertiginosa da fauna e da flora do nosso planeta, que dizem ter cor azulada.  Sim,. Mas. Encalham nas praias baleias mortas com 80 quilos de plástico no seu ventre. São apanhadas aves sem vida com parafusos de três a cinco centímetros de comprimento no papo. Pescam-se peixes do mar, contaminados de radiação atómica, e peixes dos rios e lagos poluídos de substâncias nocivas  à saúde do ser humano, provenientes das descargas de resíduos de fábricas, nacional e internacionalmente reconhecidas. 

Mais ainda. Se contemplamos os céus, aumentam os dias em que não conseguimos descortinar uma réstia de azul. Apesar de tanto negócio escondido nas Assembleias Gerais  a propósito das condições climáticas, acontece algo inegável tanto na América como na Europa, ambas do Norte. As florestas ardem e as pessoas sufocam ou não resistem ao calor. Que se pronunciem, em verdade, os cientistas e os astrofísicos sobre o que se passa na estratosfera!

Por fim, as palavras de Jesus Cristo, neste Décimo Oitavo Domingo do Ano Litúrgico,  chamam-nos à atenção de uma maneira, cristalina e penetrante: «Vede bem, guardai-vos de toda avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».

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Nestes tempos que decorrem a grande velocidade,  torna-se uma exigência fundamental da nossa existência neste Mundo reflectir mais seriamente do que é habitual; filosofar, no sentido mais genuíno e etimológico;  ir à procura das razões mais profundas que explicam o caminho que a Humanidade do início do Terceiro Milénio e a Sociedade contemporânea estão a seguir. Procurando ser simples e não simplista, sou levado a pensar que a nova orientação de vida de que tanto precisamos definir, com criatividade, profundidade e audácia,  está para além da tensão dialéctica entre a ideologia neoliberal e a ideologia marxista-leninista. Em ambas é dado demasiada ênfase ao material e imanente do ser humano e é posto de parte ou pouco considerado tudo o que nele existe de espiritual e transcendente.

É neste contexto que, através dos anos, fui levado a compreender, de uma maneira muito subtil, delicada e fina,  que existe, em pessoas de ambos os ambientes ideológicos, como que uma corrente intrínseca e estrutural, mais íntima dentro de si mesmos, com necessidade de se exprimir,  tocando o intelectual, o psíquico-afectivo e o espiritual. Uns chamam-lhe ‘the Spiritual Quest’, à procura do sentido espiritual. Continuo, no entanto, a estar persuadido que  o conceito e a realidade da ‘Angústia Existencial’ exprime mais perfeitamente a ‘Sede’ de Deus existente no mais secreto e escondido do coração humano. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, ao clamar, vigorosamente e em lágrimas, ‘Tenho Sede’, constitui a expressão mais sublime da ‘Sede’ do ser humano à procura de Deus. 

Terminemos com o conselho e convite do Senhor Jesus, o Mestre Divino: «a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». Que Ele, no Seu Amor e na Sua Verdade, não nos chame : «Insensato!» para denominar todo aquele que « acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus de Macau

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