E… Algo Mais

Temos vindo a constatar, ao longo destas últimas semanas,  que ‘a experiência de Deus’ tem exigências que se mostram, com alguma frequência, contrárias às inclinações imediatas e instintivas da natureza humana. Umas, mais de carácter pessoal;  outras tocando mais as nossas relações com os outros. O Evangelho deste Décimo Quarto Domingo do Ano Litúrgico parece confirmar esta conclusão, quando escutamos as palavras do Mestre, ao enviar em missão, dois a dois, os seus discípulos. 

O ‘caminho espiritual’ e, muito concretamente, a ‘experiência pessoal com Deus’ não se compatibiliza  com a pessoa que só pensa em si e tudo gira à volta dela. Em pouco tempo, cai inexoravelmente num egocentrismo e narcisismo, fechando-se morbidamente em si mesma, o que a incapacita não só de se abrir a Deus como também a bloqueia na sua relação com os outros, sejam eles homens ou mulheres. O consumismo constitui uma manifestação muito polifacetada desse egoísmo obsessivo que se está a apoderar do ser humano, hoje, e que grassa perniciosamente na sociedade actual, sobretudo nos países mais abastados. Perante as suas necessidades básicas e elementares de  ser vivo neste mundo terrestre, como o comer, o beber, o vestir, o dormir e o ter um abrigo, o homem e a mulher contemporâneos perdem, aos poucos mas consistentemente, a sua liberdade interior e a sua capacidade de aspirar aos grandes valores da sua existência como a Verdade, a Paz e o Amor, a Justiça, a Solidariedade e a Harmonia, a Beleza, e, enfim, de deixar-se interpelar pela Transcendência…. e de não ter receio da questão de Deus.

O ser humano precisa urgentemente de repensar o seu modo de viver. Na prática, parece estar só e exclusivamente a pensar em si e nos bens materiais.´ Fecha-se irremediavelmente aos outros. E Deus não passa, mais uma vez,  de um ‘ilustre desconhecido’.

 

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O texto evangélico,  pelas palavras do próprio Jesus Cristo, apresenta um critério de vida imprescindível de ser vivido por todo aquele que quer ser Seu discípulo e tornar-se missionário capaz de anunciar o Reino de Deus: «Não leveis bolsa, nem alforge nem sandálias…». Eis a liberdade e o desprendimento interiores, como condição necessária.  Parece muito claro que o Caminho de Fé não está ligado ao dinheiro, nem à riqueza nem ao estatuto social. Livre perante a riqueza e o conforto. Há que reconhecer, no entanto, que, décadas atrás, em certos sectores da Sociedade, ser cristão ou católico estava fortemente identificado com a riqueza e o nome de família. A humanidade precisa de voltar, com coragem e imaginação e convicção, à simplicidade e sobriedade de vida… e abrir-se a Deus.

Um outro elemento no ‘caminho espiritual’. Seguir a Jesus Cristo não significa que, de seguida, todos nos aceitem ou admirem. Ou de que, ao anunciar a Sua Mensagem, haverá um reconhecimento espectacular da minha pessoa, uma aceitação muito carinhosa. Ao contrário, pode provocar, primeiramente, a antipatia e o desprezo e chegar até à perseguição:  «Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos», avisa-nos o Senhor. Neste momento, recordo, com profunda admiração, a jovem nigeriana Lea Sharibu que foi feita refém do grupo terrorista Boko Haram até agora, por ser cristã.  Sim, «a Cruz de cada dia» é parte integrante da ‘experiência espiritual’,  da relação com Deus.

Em seguida e complementarmente, o Senhor Jesus aborda o nosso ‘Caminho espiritual’ ou de fé em Deus na sua correlação com os outros, mas de uma perspectiva diferente: «Não vos demoreis a saudar alguém  pelo Caminho». A experiência de Deus não se constrói fundada no medo. É verdade. Porém, também não se constrói na dependência imatura de outros. Quantas saudações, quantas manifestações e quantas cenas com os outros que não passam de um extravasar de necessidades afectivas escondidas,  originadas na infância. A relação com Deus, Pai e Senhor, transporta-nos para além de todas e quaisquer insuficiências da nossa história pessoal. Ele basta. Ele tudo transforma. A intimidade de amor com Deus implica, antes de mais e sempre uma liberdade profunda perante os outros. 

Acrescentando algo mais ao apelo de Jesus Cristo «Não vos demoreis a saudar alguém  pelo Caminho». Podemos acrescentar que a relação de amor com Deus também não está relacionada nem com o sucesso das relações públicas de cada um nem com a multidão dos membros das suas redes sociais nem com o seu bem falar ou com a sua exuberância retórica. O encontro é um encontro de um a um, de coração a coração. Eu e o meu Deus…

 

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Cresce entre aqueles que chegam à idade da maturidade, pelos quarenta ou cinquenta e até um pouco mais, que se interrogam, íntima e seriamente, pelo ‘sentido da sua vida’. Com grande surpresa e espanto descobrem que a raiz da ‘falta de sentido’ está na falta de um conhecimento profundo e verdadeiro de si mesmos.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo superior da Companhia de Jesus de Macau

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