O aroma da flor de lótus

O Jardim Lou Lim Iok tem, para mim, um encanto muito especial. São muitos os factores que levam a este deslumbramento mas, o primeiro de todos, assenta na sua serenidade. É um lugar situado no meio do turbilhão da cidade de Macau, onde reina a paz. 

Outrora campesina, arrebalde da cidade cristã, afastada do mundo dos homens, viu aproximar-se-lhe os cogumelos de cimento. Cercou-se de muros altos para preservar a  intimidade pessoal.

Quem nele entra, encontra caminhos dedáleos, ora orlados de vegetação vigorosa e verde ora ladeados de robustas e inamovíveis rochas de aspecto grotesco, animalesco e humanóide, num emaranhado de luz e sombra, em constante transmutação entre o Yin e o Yang. São as áleas labirínticas da vida cercadas dos parceiros que acompanham o ser vivo, nesta caminhada terrena. Não faltam as encruzilhadas, onde a decisão de seguir em frente ou virar à direita ou à esquerda, ou mesmo retroceder, é tomada consoante o objectivo da visita ou o atractivo de sedução irresistível, a menos de dois palmos do nariz. Há ainda recantos, esconderijos e pavilhões que convidam à reflexão, quiçá um encontro com os filósofos da China Antiga… e porque não os da China moderna e contemporânea, e porque não os ocidentais,  mesmo os vivos, em carne e osso?

Depois, há o pavilhão no meio do Grande Lago, que surge escondido entre as ramagens dissimulantes das árvores e do colmo perfilado das poáceas que refrescam à beira da água. É o paraíso prometido, no firmamento divino, ocultado pelas nuvens rosadas de um crepúsculo veranil? Não, no seu solo não nascem escadas dirigidas ao céu mas as suas paredes albergaram figuras ilustres da história de Macau, com destaque para um espírito iluminado pela ânsia da liberdade – o médico Sun Yat-sen, o pai da República Chinesa. Suponho que ele tenha aí residido, em contemplação harmoniosa consigo e com a Natureza valorizando a essência humana, por influência da acalmia espirituosa das águas que serviram e ainda servem de alimento à flor de lótus que, uma vez por ano, surge magnânima, exuberante, irrompendo do lodo sujo do leito lacustre.

Na Natureza, segundo Antoine Lavoisier, nada se perde tudo se transforma. De igual modo, a lei da impermanência, no budismo, possibilita a renovação do Universo e a transformação do mal pelo bem ou, melhor ainda, o arrependimento do danado na progressão de benemerência. Este foi o pensamento que me ocorreu ao fotografar esta mística flor, da Ponte de Ziguezague que atravessa o Lago dos Nenúfares, mais correctamente o Lago das Flores de Lótus. Há-os em grande abundância, tanto aqui como por toda a Macau península e insular. Na cidade decorre o 18º Festival da Flor de Lótus de Macau, promovido pelo Instituto para os Assuntos Municipais de Macau . O slogan é: O Aroma de Lótus Perfuma a Cidade. 

Macau está a transformar-se, passou de simplesmente Macau a RAEM e depressa integrará a Grande Baía Guangdong – Hong Kong – Macau. Já existe uma ponte que une estas três parcelas do território chinês. Uma ponte física definida como construção que liga pontos separados por um curso de água ou depressão de terreno. Além disso, pretende-se que a união seja estabelecida também nas áreas cultural, intelectual, moral, nas dimensões que integram a totalidade do espírito humano. As manifestações, em Hong Kong, contra uma proposta de lei de extradição, mostram que há um longo caminho a percorrer para a completa harmonização das gentes do delta do Rio das Pérolas. Pudesse o aroma de lótus que perfuma a cidade de Macau e transformou a inóspita Praça do Tap Seac numa florida China e tornou a urbe num Paraíso da Flor de Lótus, espalhar-se pela Grande Baía e miraculosamente beneditar o mal… Utopia? 

Nenhuma oração é utópica. Um desejo ganha força pela comunhão das partes. A união faz a força. Se o elo for o perfume de lótus, há por aí alguém que me diga como cheira a flor de lótus? Ela é flor que se cheire?

A minha mulher diz: “Todas as flores têm cheiro”. É possível que o perfume da flor de lótus seja tão subtil que não estimule as papilas olfactivas do homem. Há raios ultra-violetas e um espectro infra-vermelho de luz que são invisíveis aos olhos humanos. Há ultra-sons imperceptíveis aos nossos ouvidos. Por que razão não poderá haver cheiros, bons ou maus, insensíveis ao olfacto do homem? Vês as abelhas a labutarem à volta destas flores? Elas sentem o que nós não cheiramos.

Palavra puxa palavra e as ideias sucedem-se. Os escanções aprendem a reconhecer o gosto e os aromas dos vinhos, os perfumistas especializam o nariz para a detecção de aromas e combinam as diferentes fragrâncias para criar sensações emotivas com promessas libidinosas. Haverá no mundo alguma coisa que não se aprenda? Alguém me ensinará a cheirar o que presentemente não detecto e in extremis, a apreciar o que hoje abomino. O primeiro passo é ter a mente receptiva, capaz e aberta para estabelecer conexões. Venha a mim o aroma da flor de lótus.

 

Shee Va

Médico e escritor

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