A ruptura nos modelos de organização do trabalho na dinâmica identitária de Macau

O trabalho configura-se como uma das principais dimensões da vida do homem. Influencia a sua inserção na sociedade, configura os espaços de mobilidade social e consolida-se com um dos factores constitutivos da identidade e identificação dos indivíduos, interferindo tanto no sentido da sua valorização e inserção na sociedade quanto, no sentido de sua desvalorização, podendo até potencialmente contribuir para a sua exclusão social.

Ora os modelos organizativos do trabalho na actual dinâmica que a sociedade macaense vai impondo, vão cada vez mais sendo absorvidos pelos “tiques” da modernização e consequentemente pela vaga da modernidade, apelo este que está a ser reforçado cada vez mais pela conjuntura de uma China moderna que se reflecte em Macau nos discursos inerentes à grande missão da Grande Baía.

O reflexo a médio e longo prazo será, porventura, da ruptura do trabalho como elemento social dos “modos de vida” para o inserir como actividade integrada num modelo organizativo que proporcione um “salário” (rendimento) que nos permita optar por um determinado “estilo de vida” proporcional aos ganhos auferidos.

Este paradigma está, como é óbvio, alicerçado numa conjuntura dos modelos do capitalismo e enraizado num padrão cultural que deu e dá sentido à civilização Ocidental reforçado por um processo de globalização que se diz universal.

O resgate histórico do significado do trabalho na sociedade apresenta duas visões ou perspectivas aparentemente contraditórias e que me merecem destaque. Na primeira acepção, a palavra trabalho deriva etimologicamente do termo “tripalium” (instrumento de tortura), que remete para a sua associação a fardo ou sacrifício. Contudo, trabalho também pode ser entendido como “labor” ou “laborare”, remetendo-o para as tarefas inerentes às actividades agrícolas enquanto única actividade económica conhecida até ao surgimento da revolução industrial, portanto, com o sentido de obter os bens necessários para o nosso sustento, cultivar para se realizar. Na primeira, a concepção está relacionada à punição e castigo, na segunda como ocupação e realização.

Assim sendo, a organização do trabalho integrada no contexto social, pode configurar quer um sacrifício, quer uma realização, apontando até a possibilidade de possíveis nexos entre os distúrbios causados pelo exercício de certas actividades profissionais específicas daí decorrentes.

No contexto actual da dinâmica da sociedade macaense a conjuntura aponta cada vez mais para o trabalho como actividade desassociada dos “modos de vida”, oferecendo, em alternativa, a inserção em modelos organizativos que fraccionam os elementos constitutivos de pertencer a uma comunidade de trabalho para catalisar a afirmação do individual nas fórmulas que vai oferecendo, ou seja, nesta acepção o trabalho desloca-se do sentido de vida que o mesmo preenche na estrutura social para edificar o trabalho como fonte de rendimento.

Tal concepção anula a ideia primordial de que o trabalho configurava uma das principais dimensões da vida do homem, interferindo na sua inserção na sociedade e destacando-se como um dos factores constitutivos da identidade dos indivíduos.

Nessa concepção, o trabalho significava mais do que uma ocupação ou um acto de produzir, traduzia também o desenvolvimento e o preenchimento da vida das pessoas. O trabalho é por si só uma actividade intencional, ou seja, tem como finalidade a produção de valores por meio do uso e da apropriação de elementos da natureza. O indivíduo produz para se reproduzir, reproduzindo tanto as suas relações com a comunidade como a própria comunidade em si, ou seja, o trabalho é também simbólico, produzindo significados sociais que fazem parte do modelo cultural onde nos inserimos.

A ruptura a que vamos assistindo na sociedade macaense, como advento da modernização e da modernidade, irá por certo acentuar as reformulações identitárias dos seus protagonistas, que passarão também a assumir novos valores e novas ambições num quadro que enfatiza o individualismo em prol do colectivo ou do comunitário. Como lidar com esta mudança de paradigma será, porventura, um dos maiores desafios com que a China vai ter de se confrontar, já que o processo económico está imparável.

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

 

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