A experiência de Deus

trigo-final

Neste Décimo  Sexto  Domingo do Ano Litúrgico, o Evangelho apresenta-nos Jesus Cristo a falar do «Reino de Deus» que eu adaptaria um pouco, dizendo por outras palavras, que Ele, o Senhor Jesus, nos expõe e explica certos aspectos da realidade da ‘experiência de Deus’ no interior do ser humano  e,  mais concretamente – ouso dizer –  no seu próprio ‘coração’.  Fá-lo apresentando três parábolas:  «O Joio e o Trigo»«A Mostarda» e, por fim,  «O Fermento». Cada uma tem a sua mensagem particular e todas juntas oferecem uma compreensão mais global dessa mesma ‘experiência de Deus’.

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«O Joio e o Trigo». As cearas de trigo são, sem dúvida alguma, a paisagem  mais comum  e típica em Israel. Além do mais, não podemos esquecer quanto o Antigo e o Novo  Testamentos estão repletos de vivências e histórias onde o trigo faz  parte do enredo. Toda a narrativa,  por exemplo,  do José do Egipto e da ida do povo hebreu para o país dos faraós está centrada no haver ou não trigo para comer.  Segue-se, depois, a grande epopeia de regresso do povo escolhido à Terra Prometida.

Na multiplicação dos pães, o pão de trigo é o instrumento do milagre realizado por Jesus Cristo. É com o pão de trigo que o Senhor Jesus igualmente nos convida a acreditar que Ele o transformou em Sua ‘carne’.  A Primitiva Igreja reúne-se à volta do ‘partir do pão’.

Na pregação de Jesus, várias são as parábolas onde o trigo é a metáfora usada.  Na primeira parábola do Evangelho deste Domingo  «O Joio e o Trigo» temos, como em muitas outras criadas por Jesus Cristo, o coração a ser comparado com a terra ou o terreno de um campo de agricultura, enquanto que a semente é expressão da presença e acção de Deus.

Aprendemos,  no entanto, com as palavras de Jesus, que no terreno do coração humano,  para além do Espírito Santo de Deus,  trabalha e maquina, sempre pela calada da noite,  o Espírito do Mal.  Na nossa caminhada ao encontro de Deus, não podemos esquecer que somos imperfeitos, defeituosos e nem sempre inclinados a fazer ou a procurar o melhor. A nossa natureza de homem ou de mulher, o nosso ‘eu’ mais profundo ou essa ‘carne’ que é a nossa e que dá ‘corpo’ à nossa  personalidade tem inclinações desordenadas e incorrectas. É esta realidade que Cristo quer chamar a  nossa atenção. Não para nos fazer desanimar. Antes, pelo contrário. A procura de Deus, o encontro com Deus, ‘a experiência de Deus’ – clarifica o Mestre – dá-se só e sempre na consciência de que a imperfeição caminhará connoco.  A ‘experiência de Deus’, por si mesma,  purifica e transforma para melhor a nossa natureza, mas,  neste mundo, nunca chegará à perfeição. Isso, acontecerá só no momento do encontro ‘face a face’ com  Deus.

«A Mostarda». Esta parábola  torna claro um outro elemento que é necessário para todo aquele que caminha ao encontro de Deus e quer fazer uma ‘experiência de Deus’. Sem humildade, sem a consciência da sua ‘pequenez’ nas coisas de Deus ninguém vai longe na intimidade com Deus. Assim, diz o Mestre : «O Reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda… Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore , de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos.» A grandeza das nossas vidas  e da nossa relação com Deus torna-se facto real, quando enveredamos pelo caminho da humildade, da simplicidade e da transparência, honestidade e coerência do nosso coração. Os convencidos intelectualmente e se julgam diferentes e superiores aos outros, paradoxalmente, não entendem as coisas de Deus.

«O Fermento». Eis aqui, o terceiro elemento do discurso de Jesus Cristo para melhor compreendermos ‘a experiência de Deus’ em nós. Disse-lhes Ele: «O Reino dos céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Normalmente e, sobretudo, nos princípios de uma caminhada  para Deus,  a acção da graça divina  no coração ou na alma ou no ser mais íntimo de uma pessoa realiza-se no mais profundo silêncio e quietude da natureza humana. Nunca no turbilhão das emoções e sentimentos, nem na convulsão dos acontecimentos nem na fúria compulsiva e titânica dos pensamentos.

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É verdade. Preocupa-me o constatar que são muitos e muitos, e muito boas pessoas,  aqueles que abandonam  os caminhos de Deus. Como que,  nas suas vidas, se pudesse escutar e ouvir dizer : “Deus já não tem sentido. Deus está ’morto’…

Será?  Será que é Deus que está ‘morto’? Ou sou eu que estou ‘morto’ para Deus? Creio, cada vez mais fortemente, que a questão se encontra radicada no ‘coração’ do próprio ser humano, homem ou mulher. É uma ‘crise existencial’, em que ele se mostra incapaz de enfrentar.

Pergunto-me, exactamente, se as parábolas deste Domingo nos dão algumas luzes na compreeensão desta problemática  tão fundamental no existir da humanidade e  civilização actual.

O Ser Humano é, intrinsicamente, imperfeito e limitado, porque o Mal e o pecado entraram neste mundo. A Sociedade actual tem dificuldade em aceitar esta verdade.  De muitas e  variadas  maneiras, o homem e a mulher actuais mais parecem ser dominados pela ideia de ser perfeito e poderoso como Deus.

O orgulho intelectual, científico  e tecnológico, em que estamos a cair é um tremendo obstáculo à‘ humildade e simplicidade de coração´ que exige o encontro com Deus.

Por fim, o encontro e a experiência de Deus exigem siêncio, recolhimento e quietude. Bombardeados por toda uma tecnologia sonora de consumo obsessivo, rodeados  por uma publicidade que se torna cada vez mais paranóica e um sistema informativo tantas vezes manipulado, ‘fake’ e corrupto, como poderemos ouvir « a voz de Deus»?

 

Luís Sequeira, Sacerdote e Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

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