O trigo, o joio e os taxistas

 

1.Taxi

Não sendo eleito, o Governo pode fazer o que quer e o que bem entende, até premiar o que em Macau há de mais parecido com uma corporação de malfeitores sem que daí lhe advenha grandes dissabores. Faça-se a necessária ressalva: por detrás do volante – como por detrás do balcão, de uma mesa de jogo ou da pedra branca do açougueiro – há bons e maus profissionais e as experiências que fui recolhendo, no habitáculo dos táxis, ao longo dos anos levam-me piamente a acreditar que não só há taxistas bons, como também os bons profissionais estão em maioria.

Com os riscos que implicam todas e quaisquer generalizações, um episódio se destaca: há dois anos, numa viagem entre a Taipa e Macau tive a sorte de me cruzar com o senhor L. Nascido em Madagáscar, L. falava fluentemente francês, um inglês impecável e um português que, não sendo escorreito, não envergonhava ninguém, muito menos quem esteve uma única vez em Portugal nos idos de 80 e nem com o arriar da bandeira das Quinas na Praia Grande decidiu sepultar as vogais abertas de um idioma teimosamente nasalado sob sete palmos de esquecimento.

“Vou lendo os jornais portugueses sempre que posso. Quando ando sozinho no carro, ouço a rádio portuguesa”, explicou L., sem que se lhe notasse na voz qualquer indício de vaidade ou de falsa modéstia. Um pequeno acidente na Ponte de Amizade prolonga a corrida: L. aparenta sessenta e muitos anos, está reformado e vai trocando de língua com uma agilidade descomunal. Quando o português falha – e há um ou outro vocábulo que permanece teimosamente encravado na fundura da memória – salta para o francês e a conversa encarreira de novo com a mesma vitalidade, o mesmo ritmo, a mesma candura. Foi funcionário de uma empresa têxtil, conduziu chefias departamentais e ocasionalmente um ou outro secretário na recta final da administração portuguesa e tentou a sorte do outro lado das mesas de jogo. Agora – um agora que já lá vai há quase dois anos – conduz um táxi três ou quatro horas por dia “para se obrigar a sair de casa, ficar em casa é entristecer”.

As aldeias verticais da Areia Preta agigantam-se no horizonte, o taxímetro marca já mais de noventa patacas e em menos de dois minutos a viagem termina. Levo a mão ao bolso, estico uma nota de cem patacas na direcção do condutor. L. abre o porta-luvas, tira de lá um cartão, retira cinquenta patacas de dentro da carteira e entrega-mas: “Ninguém deve pagar pelos erros dos outros”.

Num mundo de carrancudos, de cabisbaixos e de ensimesmados, L. perfilha-se como que o antídoto ideal para um certo pessimismo que se apoderou dos mais ingénuos ou dos mais incautos face às qualidades gerais do colectivo disforme que se convencionou chamar Humanidade. Se a comparação for feita com o universo particular dos taxistas de Macau, tido na sua grisalha globalidade – olhando a floresta e esquecendo as árvores que a compõem – o contraste é ainda mais gritante: generoso e afável, L. está no antípodas do taxista que, ainda que não recorra a práticas de extorsão ou que não recuse prestar serviço a clientes, se bate pé ante pé com Edoardo Mortara pela volta mais rápida ao Circuito da Guia e alça-se a anos luz de distância dos que conduzem com uma mão e com a outra vão trocando mensagens com uma agilidade macabra numa qualquer aplicação de conversação ou de troca de mensagens rápidas.

Se no meio da floresta ainda se erguem árvores imponentes e frondosas, porque razão subsiste a percepção de que, no que aos táxis diz respeito, o que vigora em Macau é a lei da selva? Nas negociações que ontem culminaram, com o anúncio, por parte da Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego do novo preçário que a partir do fim-de-semana vai imperar nos carros de aluguer de Macau participaram treze associações de taxistas. De nenhuma delas saíu ao longo dos anos qualquer indício de disponibilidade para conduzir um processo de depuração interna, para expurgar o trigo do joio, para expulsar a má semente.

Mesmo tendo noção da animosidade que, enquanto classe, despertam junto de residentes e de visitantes, as associações representantivas do sector pouco ou nada fizeram – ou prometem fazer – para mudar uma imagem que os associa vezes demais a práticas criminosas, à falta de profissionalismo ou a uma irrazoável vitimização.

Ontem, perante a imprensa, Lam Hin Sam procurou fazer passar a ideia de que o Governo conduziu as negociações que desembocaram na actualização das tarifas com mão superior, que deitou os trunfos para a mesa como quis e bem entendeu, ao não ceder às exigências do sector, que reclamava por aumentos algo mais significativos. O Director da DSAL expressou ainda o desejo de ver o serviço prestados pelos taxistas melhorar substancialmente, agora que os aumentos estão decididos e que as expectativas dos profissionais do volante estão aparentemente serenadas. O anseio não foi, no entanto, produzido por alguém que tem – como o Governo se esforçou por dar a entender – as cartas na mão e está numa posição de força. Face à ausência de penalizações efectivas para quem faz da extorsão um método, face à falta de responsabilização do sector, o apelo de Lam Hin Sam não é mais do que isso. O tempo irá dizer se não terá sido um humilhante pedido feito de joelhos, condenado a cair em saco roto.

O aparente “laissez faire” que permeia a indústria dos transportes, e que se faz notado com particular incidência nos serviços de carros de aluguer, só se resolve com mais e melhor concorrência, com oferta que faça sacudir as àguas estagnadas do paúl em que a indústria dos táxis se tornou. No mesmo dia em que a DSAL puxou dos galões para garantir que bateu o pé às pretensões das associações de taxistas, a Uber anunciou o adeus – ao que parece, definitivo – ao território. E assim, quem pouco ou nada fez para garantir a confiança dos clientes – residentes e visitantes – garante duas vitórias de uma assentada, face à inexplicável devoção do Executivo em fazer vista grossa ao futuro. As condições parecem reunidas para que nada se altere e os taxistas, tidos na sua grisalha globalidade, continuam a constituir-se como o calcanhar de Aquiles de um território que se permite a ambição de se julgar “um centro mundial de turismo de lazer”, num processo em que o Governo, mais do que vítima, é cúmplice.

 

Marco Carvalho, Director do PONTO FINAL

 

 

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