Esboçando um sorriso num tom de desabafo

 

Marco Polo's Route On Silk Road To China

Por vezes sabe bem sair do politicamente correcto, ou da cordialidade ajustada, para tecer algumas considerações, em tom de desabafo, aliciado, provavelmente, por um cansaço que se vai acumulando ao longo de um ano lectivo e que se reflecte nalguma falta de “paciência” para discursos demasiadamente consensuais.

A esse respeito, ao longo destes últimos meses a quantidade de opiniões e explicações que têm sido difundidas nos meios académicos, e não só, sobre a China e o seu modelo estratégico ganha uma exuberância de autores e conhecedores da “mente” oriental (ou chinesa) como nunca se viu.

Para tal, basta verificar o crescimento em exponencial da quantidade de especialistas no Ocidente – e em particular em Portugal – que se pronunciam e escrevem sobre a realidade chinesa, incluindo Macau, reclamando o vasto conhecimento que têm sobre a China e o espaço da RAEM em particular, bastando-lhes para tal aceder à vasta informação que veicula cada vez mais nas redes cibernéticas em quantidade e intensidade, para formularem “doutas” opiniões sobre como “lidar” com os chineses.

À medida que o tempo vai passando, numa dinâmica daquilo que achámos por bem apelidar de pós transição aí em Macau, ficamos cada vez mais com a sensação que a percepção que por cá se vive sobre o que é Macau (ou a RAEM) não corresponde, em boa medida, ao impulso temporal e estrutural que vai decorrendo aí no território.

As mudanças no espaço da RAEM são sem dúvidas bem significativas no decurso destes últimos anos que norteiam o postulado da pós transição, quer do ponto de vista estrutural e físico, quer do ponto de vista social e politico, sendo que as primeiras são bem mais visíveis do que as segundas. Qualquer transeunte que tenha por referência a Macau do período da governação portuguesa ao chegar ao território após estes anos passados, fica por certo desorientado e estupefacto com as mudanças que se processaram em termos do seu enquadramento paisagístico, arquitectónico e de modernidade que Macau vai esboçando a quem transita o seu espaço fronteiriço.

Também do ponto de vista social e político as mudanças vão se processando – estas talvez menos perceptíveis porque as dinâmicas são também elas mais lentas, ou mesmo ocultas –  por forma a produzir um efeito de harmonização e pacificação para quem aí habita e faz a sua vida quotidiana. O segredo provavelmente está em fazer, sem que disso se dê conta, a pouco e pouco o poder em Macau vai-se reformulando com as substituições nos cargos estratégicos e quase sem nos apercebermos a autonomia vai-se diluindo de braço dado com o poder central.

Porém, para quem observa daqui de Portugal, dá a sensação que ainda não nos mentalizamos nem interiorizamos que Macau é já um espaço tutelado pela China (se é que alguma vez deixou de o ser) e continuamos a fazer interpretações como se ainda estivéssemos ligados por um cordão umbilical, tentando recuperar um pouco a tradição pós colonial do legado europeu.

Chegamos mesmo ao ponto de pensarmos que somos capazes de traduzir a estratégia que a China vai tecendo e qual a melhor forma para Macau se posicionar, como se a nossa interpretação fosse a mais legítima, esquecendo-nos que a mentalidade e o pensamento oriental são forjados por matrizes culturais, cognitivas e psicossociais a que somos completamente alheios.

A facilidade com que nos pronunciamos sobre os destinos de Macau e a forma como damos os contornos necessários para a realização desses propósitos, deixam-me um pouco perplexo, suscitando-me dúvidas sobre a minha incapacidade para os entender.

Sendo este espaço, um espaço de “crónica de autor”, o mesmo sugere-nos a possibilidade de podermos pensar em “voz alta” sobre o que vemos, ouvimos e sentimos para partilhar com os leitores. É, pois, nessa linha que teço estes comentários, apropriando-me também eu de uma leitura meramente individual do que se vai passando aqui (em Portugal) sobre o que vai acontecendo em Macau.

Posto isto, pouco me resta acrescentar. Apenas registo o meu desabafo e esboço um pequeno sorriso por saber que por detrás das palavras que por aqui se vão tecendo, existe algo de mais profundo na forma como poder chinês vai moldando o seu percurso. O tempo se encarregará de demonstrar as diferentes perspectivas.

 

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(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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