Os Pequenos e Simples

1.Criançãs
No desejo de compreender a relação do Homem com Deus e, particularmente a atitude do ser humano, homem ou mulher, de não sentir necessidade d’Ele ou de se afastar d’Ele ou até de negar a Sua existência, o texto do Evangelho deste décimo quarto Domingo do Ano Litúrgico parece ser capaz de oferecer pontos de reflexão que nos permitem perceber certos aspectos, nem sempre considerados, sobre essa experiência do crer ou não crer em Deus.
Antes de mais, parto do pressuposto que as questões sobre Deus nascem do coração humano e não da deficiência ou insuficiência de Deus, o que seria uma contradição em si mesmo, pois Deus é a Perfeição. E não só: Deus é Amor. Portanto, Ele também não evita nem exclui ninguém do Seu conhecimento ou da Sua intimidade.
Há que descer ao mais profundo da natureza humana e entrar no mais íntimo do coração e aí tentar descobrir a razão do afastamento ou da incredulidade no ‘mistério’ da presença de Deus na Humanidade e no Universo.
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Voltando ao texto evangélico, escutamos a oração de Jesus : «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos».
A simplicidade de pensamento dos pequenos, assim como a confiança amorosa das crianças é condição fundamental para todos aqueles que se aproximam de Deus. Fala-se, aqui, das atitudes genuínas, transparentes e próprias dos mais pequenos que tanto enobrecem uma pessoa quando praticadas sendo adultos. Não se trata de imitar infantilismos, ingenuidades ou manipulações de meninos mimados. Não, para homens e mulheres que se prezam, isso são imaturidades! Do que aqui se se esforça por entender é a disposição correcta na procura de Deus que, à semelhança da criança, consiste um abandonar-se a Deus confiante que Ele lhe será sempre fiel na Verdade, no Amor e na Perfeição.
Segundo as palavras do Senhor Jesus, o Mestre, todo aquele que quer conhecer a Deus e, muito mais, entrar na Sua intimidade tem que se apresentar com um coração simples e cheio de confiança. Todavia, se nos aproximamos como «sábios e inteligente» ou, por outras palavras, convencidos da nossa própria inteligência ou, pior ainda, que a razão e racionalidade humanas são capazes de explicar tudo na Vida, até o próprio Deus, estamos a caminho duma enorme desilusão e a dar passos para nos precipitarmos num enorme vazio interior.
Contudo, que fique bem claro. A inteligência humana, a exemplo de vida do genial Tomás de Aquino, tal como o coração humano, na experiência pessoal do tão igualmente genial Agostinho de Hipona, intrinsecamente, ambos procuram e só podem descansar quando encontram a Deus.
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Jesus Cristo, no Evangelho deste Domingo, aponta-nos ainda para uma situação que nos revela um outro aspecto ou uma outra faceta da dificuldade do ser humano de chegar a Deus : «Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve.»
Neste caso é o peso das dificuldades, das dores e das angústias da vida. Elas são como um «jugo» que nos cansa, oprime e esmaga. São capazes, na realiddade, de nos fazerem perder a esperança em nós mesmos, na humanidade e em Deus. Na verdade, «tomar a Cruz de cada dia» é uma situação que não só provoca, tão frequentemente, um bloqueio na relação com Deus mas também, e muito infelizmente, leva a tantos a afastarem-se do caminho para o encontro com Deus.
Cristo na Cruz, morto e ressuscitado, constitui a encarnação de todo o sofrimento humano, levado até ao extremo, à morte, como é também a encarnação da vitória sobre a morte e o mal . Por isso é que Ele pode afirmar com vigor, compreensão e bondade : «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve.»
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Assim, na primeira situação, pela racionalidade, pela razão, os seres humanos fazem-se de fortes e, consciente ou inconscientemente, tornam-se arrogantes e como diz o próprio Senhor Jesus, pretendem ser reconhecidos como «sábios e inteligentes» e acabam por declarar que Deus não faz sentido, não responde a todas as questões da existência da Humanidade e do Cosmos e terminam, dizendo. Ele não existe. E aí temos o Racionalismo, o Agnosticismo, o Cientismo, o Tecnocratismo, o Materialismo, o Ateísmo, uma panóplia multiforme de ideologias e correntes de pensamente em que se conclui que o contacto com Deus não é possivel, não é necessário ou Ele, simplesmente, não existe. Com Cristo Jesus exclamo: «Deus Pai, escondestes estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos».
Na segunda situação, as pessoas chegam a essa mesma atitude de pôr de parte Deus ou a negar qualquer sentido da Sua presença nas suas vidas por outra via, a da sensibilidade e da afectividade. Pelas emoções, sentimentos e afectos, enfim, pela «Angústia de Morte» em que «a Cruz de cada dia» faz passar, regular e infalivelmente a todos, mais parece, então, ser o abandono de Deus o único caminho do coração humano. Ilusão e engano!
Ao contrário, eis que ouvimos a voz de Jesus, o Bom Pastor: «Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei».
Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

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