‘Não tenhais medo …’

 

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«Não tenhais medo dos homens» são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho deste Décimo Segundo Domingo do Ano Litúrgico. Se aqui se refere mais propriamente à  proclamação da Verdade de Deus,  penso não ser incorrecto, afirmar que o mesmo se espera no que se refere à Verdade  da realidade humana.

Esta leitura da Palavra de Deus ou esta compreensão do texto sagrado ou ainda esta aplicação da exortação de Jesus, da minha parte, é motivada por algo que aconteceu durante a semana.  Refiro-me  ao  debate da noite do passado Domingo, na televisão, no programa “Contraponto”. Os comentadores, em termos simples, vincavam  a ideia da necessidade imperiosa e urgente da comunidade portuguesa ganhar maior ‘consciência de si mesma’. Consciência  inspirada num passado rico e reconhecido como ‘património mundial’. Consciência capaz de assumir a realidade presente, no quadro da vivência do princípio ‘um país, dois sistemas’. Consciência de um futuro em que China se vai tornando, paulatinamente, particicipante real da geo-política mundial  e Macau chamado a continuar a ser Lugar de Encontro de Povos, Culturas e Religiões,  plataforma de Encontro dos Povos de Língua Portuguesa e centro de inovação e criatividade. E eu acredito veementemente, que Macau continuará também a ser ‘A Cidade do Nome de Deus’, na China.

Mas, somos nós ‘velhos do Restelo’, retrógados, sem horizontes de esperança ou descendentes dos ‘descobridores de novos  mundos’?

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Quase vinte anos se passaram depois da ‘transição’ da Administração de Macau.    Vivemos numa nova  realidade política, a ‘Região Administrativa Especial de Macau’ e uma sociedade rejuvenescida e diferente está-se a formar. O Delta do Rio das Pérolas tornar-se uma Zona de notável desenvolvimento. A China, na comunidade internacional,  assume um estatuto nunca antes imaginado. Perante tal situação, tão cheia de acontecimentos surpreendentes,  torna-se oportuno e prudente, escutar as palavras do Senhor Jesus, que nos diz : «Não tenhais medo dos homens».

Novas situações,  novas circunstâncias,  novas realidades provocam sempre, no ser humano,  momentos de perplexidade e medo. Em termos de histórias pessoais, todos nós  presenciamos experiências, algumas delas até dramáticas, neste pequeno território nas costas do Mar do Sul da China.  Porém, é  tempo de perdermos o medo, de não nos deixarmos  levar ainda por desconfianças e preconceitos, de não continuarmos  presos ao antigamente. Precisamos de homens e mulheres e, sobretudo, de jovens, de coragem e rasgo para abrir horizontes de uma nova  humanidade … e do Macau do futuro.

«Nao tenhais medo dos homens», insisto e continuo a insistir na chamada de atenção de Cristo. A Palavra de Deus proclamada todos os Domingos é sempre actual e actualizante. Diz coisas para o momento de que, tantas e inúmeras vezes, nem sequer nos apercebemos ou vislumbramos. Afirmo que, na comunidade  portuguesa,  há muito medo escondido, encoberto por exuberância de palavras e racionalização muito eloquente e de cátedra. Mas, no fundo, ainda temos medo de ser e de afirmar quem somos. Temos receio e medo do nosso passado, o mais genuíno, aquele que é expressão da nossa contribuição civilizacional. Há que reconhecer erros e disparates. Têmos um rol. Mas quase quinhentos anos de história neste pequeno recanto do Delta do Rio das Pérolas  e em que a autoridade  que o concedeu  e consentiu na sua existência, durante séculos,  pede para que este ‘historic Macau’ seja reconhecido como ‘património cultural da humanidade’, não são factos mais que suficientes para termos a honra de pertencer ao povo a que pertencemos ?

Direi também que a comunidade chinesa tem também necessidade de se libertar de tantos fantasmas e medos perante a História de Macau.  Isto assim seja, particularmente, quando um dos seus maiores líderes, Deng Xiaoping, a soube compreender sob a fórmula genial de ‘Um Pais, dois Sistemas’.

Sem me alongar, diria que igualmente na situação presente, se nota, na comunidade portuguesa e perante dificuldades concretas e reais, medo e muita lamentação. Falta de ‘consciência’ de sermos ‘a comunidade’ que somos, com um ‘designio  nacional’, tendo definido um ‘projecto’capaz de contribuir, na medida das suas capacidades,  para o desenvolvimento daquela que será uma das super-potências do mundo nos tempos que se avizinham.

O medo do futuro, ele aí está. Quem se atreve a pensar no tempo até ou para lá de 2049? O futuro é o presente da nossa Juventude .

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«Nada há encoberto que não venha a descobrir-se,  nada há oculto que não venha a conhecer-se».  Este é um outro ensinamento que o Mestre nos deixa  neste Domingo. Constitui um forte e vigoroso apelo a dizer, única  e exclusivamente a Verdade. Mais afirma, a Verdade, tarde ou cedo, virá ao de cima, à luz.

A construção da nossa comunidade portuguesa no futuro tem de ser cada vez mais baseada na Verdade e no Conhecimento. Dizer a Verdade, com coragem e até passar por vicissitudes e até humilhações, evitando toda e qualquer mentira, porque do pequeno se chega ao grande.

Que o Conhecimento seja verdadeiro, competente e professional. Sobressair por valor, não por esquemas, influências  ou canudos universitários recheados de ignorância e pedantice.

Tal nível moral das nossas atitudes transporta-nos, infalivelmente, a uma outra dimensão, a espiritual, onde as faculdades do Espírto nos abrem caminhos de compreensão da pessoa humana para além da matéria, do imanente e do imediato e nos lança nas sendas das ciências, das artes, da cultura. Este Humanismo  é constitutivo e característico do nosso ‘ser português´ e, portanto, do nosso estar em Macau.  O intrínseco universalismo  que domina o nosso ‘ser’ abre a nossa alma a todos povos e raças. Eis a razão última da existência da Comunidade Portuguesa em terras do ‘Celeste Império’.

Ainda um último ponto que me chama a atenção nas  palavras de Cristo: «Mas àquele que me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de meu Pai que está nos Céus».  Ao fim e ao cabo, por mais sofisticado que sejam os argumentos contra ou a favor, Cristo e a Sua Igreja, chamemos o Cristianismo,   foi o extraordinário ‘Dom’ que ‘a Civilização Portuguesa’ trouxe ao Império da China.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve nestes espaço todas as semanas, sempre às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

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