O país de Pedrógão Grande

1.bombeiros

O país realiza um enorme exercício de consciencialização colectiva face ao que aconteceu na tragédia de Pedrógão Grande. E pede apuramento de responsabilidades, não se contentado com a invocação do caso fortuito, da acção implacável e indomável da  Natureza, como deflagradora da tragédia. É natural que o faça; é bom que o faça. É um exercício de cidadania activa sermos capazes de nos interrogarmos onde falhámos naquelas circunstâncias para a próxima vez minorarmos as consequências mais gravosas de casos idênticos. Uso a primeira pessoa do plural com alguma solenidade porque não existem neste caso – como noutros – culpas solitárias.

Devíamo-nos despir de preferências partidárias ou corporativas nesta reflexão. Bem como não cedermos à tentação de apontar a dedo ao alvo que mais se adapta à lógica de decapitação. Não precisamos de cordeiros ou de animais racionais para a pira sacrificial. Não é essa a melhor forma de sermos dignos da memória dos que morreram, dos que sofrem nos hospitais com queimaduras terríveis, das famílias que choram a partida dos seus entes queridos. Não podemos descer tão baixo; não somos assim.

Vamos permitir que os inquiridores façam o seu trabalho de investigação ao circunstancialismo da tragédia de uma forma serena, aprofundada e livre de pressões. Aliás como o Primeiro-Ministro no seu despacho de segunda-feira o exigiu. Saber se o sistema de comunicações do Estado [o chamado SIRESP] falhou, saber porque não foi encerrada a estrada nacional [EN 236-1] quando as autoridades perceberam a propagação do incêndio. Será, depois, o tempo do Parlamento procurar fazer uma leitura dos factos e das responsabilidades, caso venham a ser apuradas.

Mais importante que apontar culpas e sobrevalorizá-las é corrigir o mal, o deficiente, a omissão e isso exige calma e presença de espírito. Disse-o, por outras palavras, o Presidente da República na forma calma mas emocionada como se dirigiu ao país e procurou, in loco, acalmar as populações em sobressalto. Precisamos também de abraços, senhor deputado Helder Amaral; fazem parte da nossa cultura, daquilo que nos distingue.

Quase uma semana depois, temos de constatar que o país reagiu em uníssono, a uma só voz, ao pedido de socorro como se fosse um grito colectivo que nos impulsionasse a mexer-nos da nossa letargia e acorrermos. Fui lendo pela imprensa e pelas redes sociais esse movimento extraordinário de solidariedade. Só me lembro de algo igual no cordão de solidariedade por Timor, em Lisboa, em 1999. É um sinal que a sociedade civil que causticamos usualmente como apática se levanta e acorre quando urge.  É isso que nos faz diferentes – e a nós, portugueses que estamos na diáspora – ter orgulho na Pátria portuguesa.

Seja-me permitido ainda deixar dois alertas. Era importante que não cedêssemos à tentação das explicativas conspirativas. Como se fossemos marionetes teleguiadas por lobbies poderosos e intocáveis que se movimentam na sombra. Não digo que eles não existam. A vida humana é mais complicada do que isso. Há sempre uma margem de imponderável que agrava crises humanitárias como esta. Deus não dorme, mas às vezes passa pelas brasas.

Era importante, também, que a comunicação social desempenhasse o seu papel, de uma forma responsável e contida. Assistimos a um incidente, nada abonatório, de uma repórter de um canal televisivo a fazer um directo junto a um cadáver carbonizado, gesticulando no meio das cinzas e dos escombros. Há coisas que não se devem fazer em televisão. Violam os princípios da dignidade e da decência, da protecção da imagem, desrespeitam as famílias na sua dor e sofrimento. Henrique Monteiro chamava-lhe, na sua página numa rede social, a substituição da emoção pela lógica da notícia e da reportagem, a perda da ética em nome do espectáculo. Acho que é mais do que isso. É a perda da vergonha, o abandalhamento da comunicação social e da profissão de jornalista.

Hoje, dia 21, em que escrevo esta crónica, é dia do solstício de Verão. É o momento que no hemisfério norte marca o início do Verão. O tempo em que o Sol atinge a maior declinação em latitude, calculada a partir do equador. Era um tempo, nas culturas celtas, das celebrações e dos rituais em que se agradeciam aos deuses todas as energias do Verão, os frutos. O evento é ainda celebrado em locais sagrados como Stonehenge em rituais que datam dessa tradição milenar e pagã e que representam a adoração do Sol e das forças da natureza. Precisamos desse espírito positivo em Portugal.

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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