O tigre da Malásia

 

 

1.Sandokan

Emilio Salgari nunca foi à Malásia. Não precisou. A sua impetuosa imaginação, num tempo em que as viagens demoravam meses e poucos conheciam a diversidade do mundo, fez com que criasse um herói sem destino. Sandokan, o tigre da Malásia, foi um dos meus primeiros contactos com o Oriente e com os seus mistérios e maravilhas. As aventuras contra os Thugs, os temíveis seguidores da deusa Kali, eram suficientes para preencher os sonhos de qualquer jovem ocidental nos idos das décadas de 1960 e 1970. Vi a série televisiva com Kabir Bedi e deliciei-me com os livros de Salgari. Só mais tarde descobri Joseph Conrad, contemporâneo de Salgari, de “O coração das Trevas” e, sobretudo, de “Vitória”. Não custa perceber porque Sandokan surge nas últimas duas décadas do século XIX e luta contra o Império Britânico e a Companhia das Índias, esta símbolo maior do imperialismo marítimo (e capitalista) de Londres. Por essa altura dividia-se África e, no Oriente, a China e o Japão eram transformados em portos francos. E, nos círculos culturais e mesmo populares da Europa, o exotismo oriental preenchia os sonhos. Na península italiana, Salgari criou, com Sandokan, um lutador destemido contra o poder e um herói do misticismo e do exotismo.

É a vingança que move o tigre da Malásia. Filho do último dos príncipes do Bornéu, massacrados pelos ingleses para ocuparem o trono e o território, Sandokan luta contra a hegemonia militar e comercial da Coroa britânica. Torna-se um pirata, ou seja, o outro lado da lei e da ordem definidas pelo poder. Não tem pátria: apenas inimigos e o instinto de sobrevivência. Tem uma paixão, como não poderia deixar de ser, porque só o amor pode curar algumas das velhas feridas. E um amigo forte que é português de Goa, Yanez de Gomera (que virá a ser o Rajá de Assam). Derrotado pelos ingleses, regressa para libertar os seus homens e deixa a pirataria para reencontrar o amor nos braços de Mariana. Mas a sua saga não termina. Os inimigos sucedem-se e ele, para encontrar o seu destino, tem de os derrotar a todos. Os heróis só desaparecem quando se cansam.

Sandokan é distinto. Veste roupas orientais de boa qualidade e bom gosto. É galante, num mundo onde isso era algo anormal. Rude com os inimigos, é fiel aos amigos. Yanez surge sempre como o contraponto de sensatez e pragmatismo (atitude tão portuguesa no Oriente) à sua natureza impulsiva. O mais fascinante é que Salgari escreveu as aventuras de Sandokan sem alguma vez ter ido ao Oriente. De resto convém lembrar que o escritor italiano também foi o autor de outros livros de aventuras passados em lugares tão díspares como as Antilhas, a África, o Árctico ou a América do Sul. Sem sair de Itália, num tempo em que não havia imagens do mundo, Salgari criou um poderoso imaginário que prendeu adolescentes do seu país e dos países à volta. Excepção feita a Inglaterra: os ingleses traduziram muito pouco Salgari talvez porque surgiam como “os maus da fita”. Para Salgari era mais importante escrever que navegar. O oposto, talvez, do que escreveu Fernando Pessoa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Mas esse talvez seja a forma de encontrarmos o que une Sandokan ao português Yanez. Sem viajar, Salgari fez-nos percorrer um mundo de aventuras que não se esgotaram no tigre da Malásia. E que continuam, bem mais de um século depois, a ser um tesouro para quem gosta de soltar a imaginação. E a pensar que a curiosidade é o grande valor da vida.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”, escreve neste espaço uma vez por mês.

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