Quando Lisboa arder

1.Crónica

Como é que um país que é tido como tão sagazmente exemplar na resposta que dá à toxicodependência e à reabilitação de toxicodependentes se revela tão inepto no combate ao flagelo dos incêndios? Será por se tratar, um, de um fenómeno essencialmente de natureza urbana e, o outro, de uma manifestação essencialmente rural? Excepção feita ao incêndio que em Agosto do ano passado levou o medo e a angústia às ruas do Funchal e às labaredas que há quase trinta anos destruíram os Armazéns do Chiado, falar de incêndios em Portugal é falar de tragédias essencialmente rurais: num país que vende uma imagem impante de modernidade para consumo externo, Verão após Verão repetem-se as imagens de aflição, os mesmos recursos estilísticos gastos na boca de jornalistas mal preparados e as mesmas palavras brandamente condescendentes na dos políticos. Invocam, qualquer que seja o espectro partidário em que se movimentam (ou até o cargo institucional que ocupam) falsa surpresa perante uma realidade que, desconhecendo, não iludem: a de que Portugal é cada vez mais um país assimétrico, que vota os seus cidadãos a direitos e sortes distintas consoante o local onde vivem.

A estratégia do Estado português para as zonas rurais – ou a completa ausência dela – envergonha Governos, autarquias e sociedade civil, mas também nos deslustra a nós, o colectivo disforme e tantas vezes autista que se apropria do esforço individual dos seus e os transforma em triunfos do todo, mas que se revela incapaz de uma catarse conjunta, de um mecanismo de expugnação dos vícios e das faltas que o fragilizam e o desonram. Quando o Verão acabar, ainda com tições a fumegar entre barrancos e valados, uma única certeza restará: a de que Portugal vai voltar a arder, a de que os Telejornais vão voltar a abrir com imagens dantescas, de pinhais e montes transformados nas portas do Inferno e a única incógnita – porventura a mais trágica – prende-se com o número de vidas que inevitavelmente serão ceifadas e destruídas pelo fogo e pela incúria de quem tem responsabilidade para agir.

Mesmo a mais de dez mil quilómetros de distância, escrevo sobre uma realidade dolorosa e que conheço bem. Em Agosto de 2005, menos de dois meses depois de colocar pé em Macau pela primeira vez, vi pela RTP Internacional o pânico transformado em lágrimas no rosto dos meus vizinhos à medida que as chamas avançavam, indiferentes, sobre matas e campos de cultivo, numa marcha devastadora apenas refreada por uma decisão providencial, tomada ao nível local, por autarquia e bombeiros: a de rasgar, onde quer que fosse possível, corta-fogos improvisados para retardar a cavalgada do fogo.

Há um ano, na noite de 7 para 8 de Agosto, o Inferno voltou a tomar conta do horizonte, numa catástrofe amplamente anunciada: em onze anos, num interior onde só sobram idosos e onde durante anos se multiplicaram os incentivos apadrinhados por Bruxelas aos cortes na produção, a vegetação voltou a cerrar fileiras sobre os montes e a tornar velhos caminhos intransitáveis.

Às primeiras horas da madrugada soou o alarme: um tsunami de chamas ameaçava engolir a aldeia. O canto que entoavam, jamais o esquecerei: um assobio lânguido e estridente, como se o vento tórrido cuspisse fúrias e maldições e as árvores chorassem enquanto se desfaziam em cinzas. Do meio do lugarejo chegava a notícia de um campo em chamas. No extremo da aldeia, as labaredas lambuzavam os beirais de uma vivenda. Do céu laranja vivo choviam faúlhas incandescentes, pirilampos irregulares empurrados pela ventania por entre um espesso lençol de fumo. Meios de socorro? Chegaram pelas 18 horas do dia 8, dezasseis horas depois do alarme ter sido dado, quando pouco ou nada restava para arder.

O tratamento não apanhou, de resto, de surpresa os menos incautos. Horas antes, tinha sido dado a um grupo de três centenas de comensais, num restaurante situado a alguns quilómetros, uma amostra do que aí vinha: o grupo teve de deixar a refeição a meio depois das chamas se terem abeirado perigosamente do local onde almoçavam. Com o centro de coordenação operacional deslocado para Aveiro, onde o incêndio não seria mais do que um negro borrão coroando o horizonte, a ordem era para “deixar queimar até estarem habitações em risco”, ouvi-o eu da boca de um estupefacto bombeiro.

Dez meses depois, a Natureza fez o seu trabalho (os montes, indiferentes, reverdecem), mas o mesmo não se pode dizer do Homem. Não se discutem estratégias de reflorestação, não há planos para a valorização ambiental e turística das áreas ardidas e cada um curou como pode as cicatrizes abertas por uma noite de Inferno que se repetiu vezes sem conta durante quase um mês na mancha de serra que vai de Arouca a Vouzela e de Vale de Cambra a São Pedro do Sul.

Nem sequer um ano se passou e a agónica retórica do fado dos incêndios volta a abrir Telejornais, com a mesma fórmula submissa e desumana. Que não haja condescendência de qualquer tipo: na noite de sábado, o que aconteceu no concelho de Pedrogão Grande foi – é –  a maior tragédia da história recente de Portugal. Uma tragédia exponenciada por um incompreensível véu de inevitabilidade, dada a solidão e o abandono a que o interior do país está votado. Mas que não restem, também, ilusões: os incêndios vão continuar a abrir noticiários enquanto o descuido e o desinteresse foram as únicas respostas que Lisboa dá ao depauperado e eucaliptado mundo rural.  Honrar as vítimas do Pedrogão é garantir que quando o Outono chegar, não serão choradas apenas por quem sente a dor da sua ausência. É, sobretudo, evitar novas e tão trágicas mortes. Ou será que um tal desígnio só se tornará tangível quando Lisboa voltar a arder?

 

Marco Carvalho, Director do Ponto Final

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