Um mundo desorientado

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Vivemos tempos conturbados. Não há quase semana que passe sem que notícias de um novo atentado terrorista irrompam pelos media e revelem quanto a nossa existência é “frágil”. Lembrava-o Sting, no concerto que deu a semana passada em Hong Kong, quando tocou o tema homónimo que dedicou às vítimas de Manchester e às suas famílias. Não se sabia, então, que outro atentado tivera lugar em Londres.

Todos os argumentos sobre as causas da actual vaga de terrorismo foram ditos e reditos. Não vale a pena repisá-los; faltam é as soluções. O que é importante é dizer que não devemos e podemos alterar a nossa maneira de viver porque há uma pequena minoria que a quer pôr em causa. Não faz sentido; seria fazer o jogo dos terroristas, colocar-nos numa intranquilidade permanente. O alvoroço é sempre mau conselheiro e o actual ocupante da Casa Branca presta um mau serviço ao seu país e ao Ocidente em insistir no alvoroço e no alarido permanente. Ninguém lhe diz “basta”?

O terrorismo combate-se com calma, de forma planeada, recolhendo informações, reflectindo e tomando as acções necessárias. Não insultando quem parece hesitar por medo. O que não precisamos agora é de uma guerra religiosa, de uma “kristallnacht”, que eleja bodes expiatórios para os nossos insucessos como civilização e cultura.

Temos de ter muito cuidado com os populistas. Têm o pé ligeiro e o discurso fácil e não cuidam das consequências da sua retórica exaltada e dos ódios que espalham como fogo em campina seca. São naturalmente irresponsáveis. Ao mesmo tempo, temos de ser críticos das nossas instituições democráticas quando se deixam tomar pelo laxismo e pela impotência. Precisávamos de uma liderança forte e afirmativa e ela não existe.

Receio ainda mais os homens providenciais. Não foi inocente a minha referência à “noite dos cristais”. Parece-me por vezes que estamos a reviver os tempos conturbados dos anos 1920 e que pela calada da noite se organizem os “camisas negras” que avancem sobre quem pensa diferente, veste de outra forma ou ora a um deus a que dá outro nome.

Temo que se isso acontecer nos iremos virar uns contra os outros. E os que ameaçam o nosso modelo de sociedade ganharão, ipso facto.

Gostaria que nesta conjuntura se afirmasse uma lúcida e inovadora liderança europeia. Donald Trump terá feito um favor à Europa quando afirmou que os Estados Unidos irão agora tratar dos seus próprios interesses e que é tempo da Europa tratar dos seus. Digo isso, por outras palavras, há vinte anos. Perdemos, neste interim, a oportunidade de avançarmos para um processo de integração mais avançado. Deixámo-nos dividir pelos nossos nacionalismos grosseiros, pelos ódios e rivalidades. O fracasso da Constituição Europeia revelou-o; os recuos da construção europeia confirmam-no.  Criámos uma Torre de Babel de burocracia europeia que não serve para nada; os problemas continuam.

Não creio que o modelo de sociedade autoritária que vemos a Oriente seja uma alternativa serena ao modelo de sociedade liberal e democrática cujas fragilidades apontei. Desde logo, porque as gerações que viveram sob ditadura ou sob ocupação nazi, na Europa, não estão disponíveis para repetir a experiência com novos tutores e novas regras espartanas. O anúncio da felicidade na terra por graça de amanhãs cantantes revelou-se uma farsa miserável. E já nem as notícias de mais uma detenção por corrupção e abuso de poder, no círculo mais exclusivo do poder comunista, nos surpreende. Porque é o carácter tirânico da máquina do poder que o favorece e multiplica. Até ao dia em que o poder monolítico irá rebentar com estrondo. Não tenho qualquer dúvida que isso acontecerá mais tarde ou mais cedo. Porventura no tempo dos meus filhos e netos.

Deixo um nota positiva final lembrando as palavras avisadas de Karl Popper na última parte do seu “A sociedade aberta e os seus inimigos”: “A democracia oferece campo de maior valia para qualquer reforma razoável, dado que permite reformas sem violência. Se porém a preservação da democracia não se tornar a preocupação principal de qualquer batalha travada neste campo, então as tendências anti-democráticas latentes, que estão sempre presentes, podem conduzir ao derrube da democracia”.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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