Matar em nome de Deus

1.Manchester Arena

Mais um ataque terrorista, desta vez em Manchester. O alvo: a audiência de um espectáculo musical de uma das estrelas do público juvenil. O resultado: 22 mortos, mais de 120 feridos. O país apanhado de surpresa por mais um ataque cuja origem islamista é indisfarçável, menos de um ano depois do atropelamento criminoso nas Houses of the Parliament.

O perpetrador, Salman Abedi, 22 anos, era estudante da Universidade de Salford, próxima de Manchester, onde cursava gestão. Segundo indicações da polícia poderá trata-se de uma acção de uma célula terrorista e  não de um indivíduo isolado. Seguidores do Estado Islâmico reivindicaram a paternidade do atentado com um vídeo na Internet “Isto é apenas o princípio. Os leões do Estado Islâmico do Iraque e do Sham começaram o ataque contra os cruzados do Ocidente”.

O nível de alerta em Inglaterra passou a “crítico”, o que quer dizer que é esperado um novo ataque terrorista, a todo o momento. O exército britânico foi destacado pela  primeira-ministra Theresa May para patrulhar as cidades, de forma a ajudar a missão de patrulhamento da polícia. É quase o estado de sítio.

O véu sombrio do terrorismo abate-se mais uma vez sobre a Europa. O propósito é inequívoco: espalhar o terror, amedrontar, perturbar a maneira de viver, condicionar, restringir.

Londres, Madrid, Paris, Nice, Bruxelas, Berlim, Londres outra vez, Manchester. Ninguém está incólume, o problema já não é daquela cidade distante. Mora aqui ao lado. Manchester agora, amanhã Madrid, Lisboa, Barcelona, Hong Kong, Manila, não se sabe. Os cordeiros sacrificiais, jovens recrutados pelas centrais do terrorismo para praticar actos de terror avulso. Insignificantes, facilmente substituíveis, não entram nas estatísticas.

Surgem na comunicação social as primeiras imagens e relatos sobre o jovem terrorista, Salman Abedi, um jovem de pequena estatura, cabelo curto, magro, pequeno bigode. Um jovem igual a tantos outros que assistiam ao concerto de Ariana Grande. Natural Manchester, Salman nasceu no seio de uma família oriunda da Líbia, donde terá fugido do regime do Coronel Kadhafi. Terá sido “radicalizado” recentemente, dizem algumas fontes. Frequentava a mesquita de Didsbury Street, em Manchester. Era o segundo de quatro filhos. Era vigiado pela polícia. O irmão é monitor na escola corânica que funciona na dependência da mesquita. Foi detido pela polícia. Revistada a casa de Salman, encontrados explosivos e um manual que explica como se fazem bombas.

Como foi possível acontecer? O mais fácil é dizer-se que o problema é, uma vez mais, dos muçulmanos, das comunidades muçulmanas, do Islão. Não tardará muito para que o apelo à segregação, à “guetização” dessas comunidades que seguem uma outra religião que não a cristã se faça ouvir. Trata-se de uma resposta simplista, hipócrita, fratricida.

As nossas sociedades são multirraciais, multiétnicas, multiculturais. Coexistem nelas grupos étnicos diversos. Têm costumes diferentes, praticam religiões diversas, falam línguas que não entendemos. Fazem o “melting pot” que nos singulariza, que nos enriquece. São a imagem do Ocidente, o que nos torna mais abertos à modernidade.

Existem dois milhões e oitocentos mil muçulmanos na Grã-Bretanha, segundo o censos de 2011. Representam cerca de quatro por cento da população do país. A maior parte vive em Inglaterra. A sua origem é sobretudo paquistanesa e cingalesa. Emigraram para o Reino Unido para a indústria naval, foram a mão-de-obra dos caminhos de ferro, criaram família e ficaram. A comunidade cresceu entre 2001 e 2009 com uma nova onda de emigrantes. São sunitas na maioria.

É um problema de polícia, dizem outros. Nunca a cooperação entre serviços de “intelligence” e as polícias foi tão grande como é agora. Nunca os meios financeiros e tecnológicos postos ao dispor foram tão avultados. É uma resposta irrealista. Criar um supra-sistema de vigilância permanente que acompanhe os movimentos das pessoas nas ruas, nos centros comerciais, nos transportes públicos, nas escolas, nos concertos musicais? Seria uma sociedade tipo “Big Brother” limitativa das nossas liberdades individuais. Uma sociedade desumanizada de pura paranóia.

Segregar as populações muçulmanas, fechá-las em guetos, encerrar as mesquitas, dizem outros. Seria intolerável, uma tendência fascizante da nossa vida colectiva, da nossa cultura democrática, na nossa prática de tolerância. Depois o quê? Milícias fascistas nas ruas a mandar parar os árabes, os negros, os asiáticos, os hindus? Seria dar a vitória de bandeja aos terroristas, ajoelhar perante eles, renunciar a continuarmos sociedades abertas.

A resposta tem de ser inteligente e contra a apetência do autoritarismo. Continuar a aprofundar a cooperação entre polícias e serviços de segurança, monitorizar os indivíduos suspeitos, reforçar os meios. Assistir as organizações muçulmanas no esclarecimento dos crentes sobre o radicalismo jihadista, na educação dos jovens em conjugação com a educação oficial. Sobretudo evitar que as comunidades se dividam e se antagonizem.

O Centro Inglês para a Preservação da Herança Muçulmana (BHMC) lançou entretanto uma campanha de recolha de fundos – “Muslims for Manchester” – para prestar assistência às famílias afectadas pelo atentado. Na sua página de Internet, o BHMC diz “os nossos corações estão com as todas as vítimas e as suas famílias, ninguém deve morrer desta forma horrenda. Queremos responder ao mal com o bem, como a nossa fé nos ensina, e enviar uma mensagem poderosa de compaixão pela acção.” É este o caminho.  Ou como diz o Alcorão “Na verdade, os não-crentes são teus Irmãos. Mantém a paz entre os teus Irmãos e teme a Deus, por forma a que mostres misericórdia” (Alcorão 49:10).

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

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