O Sopro de Pak Tai: Mercado “Merca” e o “Amália”

 

Arte Namban

Com os portugueses de Macau a instalarem-se nas últimas décadas do século XVI na zona portuária e nas colinas circundantes, a cidade de Nagasáqui tornar-se-ia bem depressa no centro de comércio por excelência de todo o Japão. E de centro de comércio passou a epicentro de divulgação religiosa. Actualmente, por mais estranho que pareça, os únicos sinais marcantes desse histórico encontro limitam-se a um discretíssimo monumento à fundação da cidade junto à actual Câmara Municipal, e a um obelisco acompanhado de uma pequena placa informativa situado à entrada de uma esquadra da polícia mesmo em frente do que resta da antiga muralha. Ao cima dessa rua, outra placa fala-nos de um outro marco que nos interessa: o exacto local onde funcionou o primeiro colégio jesuíta, ocupado agora por um edifício da administração pública.

Nas imediações, um espírito mais curioso deparará porventura com outros troços da muralha. E também com algumas calçadas de paralelipípedos de granito que estranhamente não têm direito a qualquer referência nos panfletos turísticos. Tão pouco é aconselhado ao visitante uma olhadela ao “Merca”, pequeno e simpático centro comercial ao estilo de um mercado europeu. Todo o exterior do “Merca” se inspira em motivos lusos. Apesar dos azulejos, das bandeirinhas promocionais verdes-rubras, das pinturas de caravelas e de pescadores, do galo de Barcelos e do granito a ombrear as janelas, no seu interior – se exceptuarmos uma ou outra garrafa de Dão e de Mateus Rosé…vazias! –, não se avista qualquer produto português. Mas descansem que a coisa fica pelo Mediterrâneo. A padaria é francesa, o restaurante é italiano, a música ambiente espanhola.

Outro senão: a agência de viagens albergada no “Merca” não oferece um único pacote turístico com destino a Portugal (ou a Macau, já agora, a cidade que esteve na origem da fundação de Nagasáqui) muito embora prometa mundos e fundos para Torremolinos e Ibiza.

A mais conhecida rua feita de lajes pelos portugueses – só para citar um dos exemplos mais gritantes – é hoje estrela do cartaz turístico sob a designação de “Dutch slope”. Ironia das ironias: baptizar uma calçada íngreme com o nome de um país mais plano que uma panqueca.

A acção de Luís de Almeida, a quem se deve a construção, em Omura, do primeiro estabelecimento hospitalar do Japão, foi fundamental e pioneira. Não obstante, os louros vão inteirinhos para Sienbold, médico alemão do século XIX. Não só tem direito a nome de rua, como ainda a casa memorial, a zona comercial e até a título de comboio rápido: o “Sienbold Express”.

Parece-nos notoriamente pouco que uma cidade turística como Nagasáqui “homenageie” o jesuíta português com uma simples placa – afixada no remoto ano de 1968 e num remoto canto da cidade – onde se lê: “Luís de Almeida. O primeiro português a chegar a Nagasáqui”. Apenas isso.

Do outro lado do canal – e quanto a canais Nagasáqui é seguramente holandesa – existe um hotel bem ao jeito português. Pena é que o restaurante “Amália” instalado no rés-do-chão só sirva comida italiana. Se bem que o basalto e o calcário da calçada junto à entrada e no pátio interior, assim como os azulejos e a esfera armilar por cima da porta sejam bem lusitanos.

Não muito longe do “Amália” situa-se o “bairro dos estrangeiros”, centro da vida económica e social da Nagasáqui dos séculos XVII e XIX. A memória deste espaço perdura nas lápides dos vários cemitérios espalhados pelas colinas da cidade. Também por lá pontuam Gonsalves e Sousas, miscigenados com Omuras e Nakanos. Mas por essa altura, Portugal era já uma sombra da sua própria memória. E apesar do nosso país ter mantido aí uma representação consular, a predominância é hoje decididamente norte-europeia. No topo das atracções turísticas do bairro diplomático temos então a tal “Dutch slope”, que conduz à parte da cidade que os caprichos geográficos pouparam da devastadora onda de choque que se seguiu ao deflagrar da bomba atómica.

De origem portuguesa são também os vitrais, uma presença constante nos mais variados espaços, sejam eles restaurantes ou lavabos públicos. E ainda os azulejos utilizados com profusão nos mapas indicativos das zonas de interesse turístico e nas placas que designam as residências e villas particulares. Também neste caso não existe qualquer referência que indique a proveniência.

É na culinária, porém, que no Japão, podemos encontrar as nossas raízes de forma mais vincada. E logo nos pratos mais populares: no namban zuché (escabeche), na tempura (peixinhos da horta) e no sukiyaki. Não obstante, são as réplicas do barco “Lidfe” e imagens de holandeses sentados à mesa com gente local que nos mostram os quadros pendurados nas paredes de muitos dos restaurantes da cidade. Ressalvo uma honrosa excepção: o restaurante “Sagres”, que ostenta na ombreira da porta de entrada uma réplica do navio-escola que lhe deu nome, e faz questão de presentear talheres (leia-se pauzinhos) com as cores da bandeira das quinas.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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