Os braços da “gente de ofício”

FOTO Pak Tai desta semana (14)

Aquando da minha primeira visita a Moçambique, desde logo me desencorajaram de percorrer o país utilizando a via a que habitualmente recorro: a via terrestre. “Nem pense”. “Está louco”. “Só em sonhos”. Eram estes os tipos de comentários. Assegurava quem por lá vivia que seriam muitos os engulhos pelo caminho e que em vez dos dois ou três dias agendados para chegar à Ilha de Moçambique, primeira etapa da programada viagem pela costa leste africana, poderia levar quatro ou cinco. Ou até uma semana, como garantia, com uma boa dose de exagero, António Pereira, ex-residente de Lourenço Marques e sócio do antigo seleccionador nacional Carlos Queirós numa empresa do sector metalúrgico.

Pereira regressara a Moçambique após longos anos na África do Sul: “Os camiões que enviamos para o norte, para Tete, chegam a demorar oito dias, pois a travessia do rio Zambeze é sempre uma incógnita”, dizia ele.

Travei conhecimento com o senhor Pereira no átrio do edifício da embaixada portuguesa. O que deveria ser uma simples resposta a um pedido de informação para resolver o usual problema de câmbio que se impõe sempre que chegamos a um novo país, acabou por se transformar na oferta de uma agradável, embora breve, visita à cidade que ele tão bem conhecia, para que eu ficasse “apenas com uma ideia”.

Na sua carrinha de caixa aberta percorremos a avenida Julius Nyerere – onde se situam o mítico hotel Polana, o palácio presidencial e algumas das embaixadas – e a Marginal, até chegarmos a um café gerido por um grego, ao fundo da Costa do Sol, que era então “o ponto de encontro dos portugueses”. Ao largo avistava-se a ilha onde funcionava o presídio do antigo regime: “Só escapou de lá um prisioneiro”, comentava Pereira. Chamava-se Zeca Russo e era uma espécie de Zé do Telhado da província ultramarina que acabaria por morrer em circunstâncias estranhas na Tanzânia.

 

O empresário – acompanhado pela esposa, recém chegada de Portugal – decidiu adiar mais umas dezenas de minutos o que tinha a fazer para me mostrar a baixa da cidade, proferindo o seguinte comentário no momento em que passamos em frente ao recinto onde anualmente se realiza a Feira Internacional de Maputo: “A última edição do FACIM foi uma vergonha. Os portugueses aqui representados, em vez de abrirem os quiosques, ficaram nos respectivos hotéis a beber copos. E o facto foi muito comentado por cá, o que não abona nada em nosso favor”.

 

Remonta de longe as achegas à falta de “sentido de oportunidade” (seja lá o que isso signifique) por parte da lusitana gente.

 

Num relatório enviado ao reino, a 15 de Março de 1883, o cônsul inglês em Lourenço Marques, Henry E. O’Neill, começando por ressalvar que “Moçambique não está na posição daquelas colónias mais adiantadas”, alertava para a endémica “falta de braços”, motivada pelo fracasso de tentar “subordinar o indígena a um trabalho regular.” Lacuna que, segundo ele, tinha sido compensada, nas colónias inglesas, pelo tráfico de cules, sugerindo que Portugal seguisse o exemplo, já que, “tanto na Índia como na China”, possuía colónias de onde podiam vir trabalhadores nessas condições. O’Neill prossegue, afirmando que por duas ocasiões se tentara introduzir na província trabalhadores chineses, mas não passaram de meras tentativas. Em 1858, foram transportados de Macau para Moçambique trinta chineses, “pela maior parte gente de ofício”. Todavia, parece que a escolha do pessoal foi infeliz, “porque não ouvimos senão queixumes acerca da incapacidade e indolência desta gente”, tendo a experiência ficado por ali. Em 1881, e por iniciativa do último governador-geral, o visconde de Paço de Arcos, repetiu-se a experiência com “a importação de uns cinquenta chins, oficiais de ofício, todos procedentes do porto de Macau”. Dessa vez a coisa resultou pois, como admite o diplomata britânico, “acham-se estes actualmente empregados no serviço de obras públicas, e tenho ouvido dizer que têm agradado”.  Sem embargo, “e apesar do sucesso, “ainda até agora se não pensou em continuar sistematicamente a prover de trabalhadores esta colónia.”

Inspirado pelo “rei dos belgas” que utilizava em África a força de tracção do elefante, Henry E. O’Neill, admite que a utilização desse animal na colónia portuguesa seria grandíssima vantagem ,embora manifeste bastantes dúvidas quanto à possibilidade de sujeitar o elefante africano. Lembra, a propósito, o tratado que cartagineses foram obrigados a assinar com os romanos para que não se subjugasse “nem mais um elefante”, citando uma passagem que a esse respeito escrevera David Livingstone.

Pelos vistos, a primeira das vantagens era a imunidade do paquiderme em relação à mosca tsé-tsé; depois, o facto de sustentar-se de plantas que não necessitam de cultivo; finalmente, a possibilidade que têm de caminhar em todo o tipo de terreno, seja ele “brando, pedregoso, ariento ou apaulado”.

O’Neill traz também à baila os camelos, recordando que “alguns deles foram transportados de Aden para Inhambane”, mas a tentativa de os empregar como bestas de carga não se mostrara satisfatória. O burro, “no fim do tudo, e segundo o que eu pude ajuizar” – conclui – “parece ser o animal que mais barato sai e o mais conveniente para substituir o carregador, pelo que vai sendo, aos poucos, introduzido em vários pontos da província.”

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

 

 

 

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