Ouvir a Voz de Deus

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Jesus Cristo, neste Quarto Domingo de Páscoa, apresenta-se como «o Pastor das ovelhas». O texto evangélico explica, em seguida,  um pouco mais esse título, dizendo : « As ovelhas conhecem a Sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz».

Não deixa de ser impressionante e até chocante ouvir estas palavras, quando, ao ao mesmo tempo, reparamos que, ao contrário, numa grande parte do mundo, mais exactamente do mundo ocidental e, sobretudo, naqueles países nascidos e formados à luz do ideal cristão, se perdeu a capacidade de «ouvir e conhecer a Sua voz», de escutar a voz de Deus dentro de si mesmos.

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Deus não se furta a ninguém, a nenhuma pessoa, mulher ou homem, criança ou idoso, rico ou  pobre. Deus não se esconde de nós em nenhuma circunstância, por mais adversa, dolorosa ou violenta que ela seja. Essa presença amorosa de Deus fica bem patente, se contemplamos,  por exemplo, os últimos momentos de Jesus no alto da Cruz:  «Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso». Assim  responde o Senhor Jesus ao criminoso e ladrão,  momentos antes de sucumbir. Deus, revelado e encarnado em Jesus, tem «sede» de amar e salvar todo o ser humano. A Sua voz deixa-se sempre perceber no mais profundo do nosso coração. Jamais se cala.

Mais ainda. Se olharmos à vida desregrada ou fútil nos primeiros tempos do percurso de tantos santos e santas, fica bem claro que «a voz » de Deus permanece sempre fiel e  perceptível,  apesar do turbilhão e dos desmandos da vida de cada um. No entanto, há que  reconhecer  que só quando o coração humano está  nas verdadeiras disposições, é que, então, ele é capaz de «ouvir» a voz de Deus.

Portanto, a questão de ouvir ou não ouvir a voz de Deus está em nós, os humanos. Deus não dorme nem se vinga em ninguém. A resposta ao problema está muito bem explícito num dos Salmos : «Se, hoje, ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações».

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Há que afirmar com coragem e antes de tudo o mais.  O ‘modelo’ de cidade ou de bairros residênciais, tipo ‘gaiolas’ como continuamos a ver construir em Macau, na Taipa e, já, em Coloane,  e  o ‘estilo de vida’ que privilegia o frenético, o compulsivo e o egocêntrico, para não dizer, egoísta e narcisista, e onde se defende o cifrão e o lucro como o valor condutor da vida da  nossa sociedade, tudo isso em  nada facilita o encontro harmonioso entre pessoas, nem o encontro connosco mesmos, nem a descoberta dos valores que levam  à verdadeira felicidade.

Na verdade, o homem ou a mulher contemporâneos estão a perder, a olhos vistos, a sensibilidade  para criarem ‘as circunstâncias’ e os ambientes propícios que lhes permitam esse ouvir-se em profundidade e o escutar atento dos outros. Pior: perdem cada vez  mais a capacidade de se ouvirem  interiormente ou de escutarem uns aos outros, com tempo e atenção. Mas mais dramático ainda é eles estarem a deixar  transparecer – e mesmo a denunciarem  –  uma certa  impossibilidade de descobrir e de pôr em prática os grandes valores da humanidade como a Verdade e Justiça, o Amor, a Solidariedade e Serviço dos Outros, Misericórdia e Perdão, Beleza, Transcendência…

Um sinal flagrante desse ‘mal da alma’ que parece dominar o homem  e a mulher  modernos é o fugirem ao silêncio, o evitarem  estar sós e o sentirem-se incapazes de apreciar e gozar intimamente os  momentos de recolhimento, de reflexão e meditação.

Se assim é, como é que poderão, ele ou ela, disporem-se a estar com Deus, a sós, entrarem  em diálogo com Ele e, finalmente, ouvirem a Sua «voz»?

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O exemplo, por excelência, do saber ouvir «a voz» de Deus encontramo-lo em Maria, Nossa Senhora. Na narrativa da infância de Jesus, é afirmado, mais de uma vez : «Maria ponderava  todas estas coisas no seu coração.»

De novo, não deixa lugar para dúvidas!  A abertura a Deus  que nos permite também entrar, aos poucos,  no diálogo e na intimidade com Ele, só é possível se crio espaços e tempos de silêncio e recolhimento e me lanço numa caminhada ao intimo de mim mesmo, no coração profundo. Aí, onde o meu muito ‘humano’ toca o meu muito ‘divino’.

 

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às quintas-feiras.

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