Consolar os Outros  

 

JOSEPH-1

Uma das características  da actuação de Jesus Cristo após a Sua Ressurreição é consolar os Seus apóstolos e discípulos, homens e mulheres. Todos, de coração destroçado pela Sua Morte,  não entendem o que se está passar. Invade-os a tristeza,  o desânimo e o medo. Assim, tanto veremos o Senhor a consolar, muito particular e pessoalmente,  Pedro,  Maria Madalena, Tomé, como todo o grupo, quando se encontra encerrado em casa, de portas trancadas,  por medo dos judeus.

Neste  Terceiro Domingo de Páscoa, o Evangelho apresenta-nos um admirável exemplo de como consolar alguém em grande aflição. Abatidos pela angústia e dominados  pela confusão das ideias sobre  Jesus,  o Senhor Morto e Ressuscitado, dois dos Seus  discípulos escapam  à situação e fogem para o campo,  para Emaús,  povoação não muito longe de Jerusalém. O texto evangélico constitui, na verdade,  um precioso tratado  sobre a pedagogia a seguir perante uma pessoa devastada pelos acontecimentos dolorosos da vida.

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Um primeiro passo é saber escutar ‘a narração dos factos’ que atormentam a pessoa: «Conversavam entre si sobre tudo o que tinha acontecido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho». Ouvir respeitosa e atentamente a dor da pessoa é fundamental, ao princípio  Caminhar, em silêncio, pelos meandros da sua história. Não fazer como tantas vezes fazemos, começar logo a dar explicações,  conselhos e a apontar caminhos de solução. Escutemos, em primeiro lugar e com paciência amorosa, a dor que vai na sua alma, perceber o que é que as lágrimas silenciosas querem expressar no fundo do coração dilacerado.

Então, num segundo passo, temos ‘a compreensão dos factos’. Mas, mais uma vez, a pedagogia do Mestre Divino. Ele não entra, à  bruta ou sem cerimónias na conversa. Ele tem consciência que está a falar com gente perturbada e de coração muito sensibilizado com «o que lá se passou em Jerusalém». Por isso, Ele num primeiro momento, faz uma primeira pergunta, como se estivesse a pedir licença para entrar  na discussão : «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?».  Num segundo momento,  dirige-lhes uma segunda pergunta para estar seguro de que está a ser correcto e objectivo sobre o assunto que os perturba : «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;  e como  e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado».  Só num terceiro  momento, é que Ele procura, por fim, explicar o sentido da Cruz, com os seus dois aspectos de  Morte e Ressurreição: «Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito».

O terceiro passo é conseguir perceber ’o coração perante os factos’. A narração é clara ao descrever o estado de ânimo dos díscípulos. Eles apresentavam-se «com um ar muito triste». O Senhor compadece-se deles. Aqui, é notável a pedagogia do Mestre. Ele bem sabe o que se passa no coração dos seus bem-amados discípulos. Não exclamavam  eles: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Eles estão entusiasmados e agradecidos pela ajuda que o Senhor lhes deu e, consequentemente, atraídos por Ele, pelo serviço que lhes fêz. Mas, é isso verdadeiro amor? Para evitar ambiguidades, «ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante». O amor funda-se na liberdade e na gratuitidade. Assim, dentro de momentos ouvimos eles a suplicar : «Fica connosco, pois o dia está a terminar e vem caindo a noite». E, finalmente, convidaram-nO para uma refeição íntima.

O quarto passo, segundo este episódio descrito pelo Evangelista S. Lucas, é como que a afimar que a verdadeira amizade nos lança nos horizontes da presença de Deus, Pai e Senhor, revelado em Jesus Cristo,e abre-nos mesmo à experiência do Amor divino.

Ao fim deste dramático episódio, dá-se o quinto passo, o retorno à vida, aceitando a Cruz com outra compreensão e renovada coragem. Lemos no texto : «Os dois discípulos partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: ‘Na verdade, o Senhor ressuscitou’».

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Consolar os outros  é uma característica da acção do Senhor Jesus tanto no seu Ministério público, mas  também e, sobretudo, após a sua Ressurreição. Contudo, não parece ser esta a atitude que mais se procura desevolver na sociedade actual. Sociedade tão dominada pelo consumo frenético, pelo egoísmo doentio e por uma sede de ser o maior que toca já a paranóia.  A paciência amorosa de escutar o outro exige grande abnegação interior, grande desprendimento de si mesmo e das suas preferências e grande sensibilidade às necessidades dos outros.

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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