O mundo da manga

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A manga japonesa, tal como a Banda Desenhada franco-belga ou os “comics” norte-americanos, abriu novas janelas para a imaginação e para a arte. Nos últimos anos tem-se assistido a uma nem sempre feliz transposição destas artes para o cinema. Nalguns casos, como no que Hollywood fez a muitas sagas de super-heróis, o resultado é mesmo deprimente, reforçando a ideia de que há um constrangedor défice criativo em Los Angeles. O que se ganha em hipnotismo técnico perde-se em densidade intelectual. Quando, há dias, fui ver a adaptação de “Ghost in the Shell”, com a diva dos tempos modernos, Scarlett Johansson, senti esse fosso. Nada tem a ver com as duas obras que Mamoru Oshii fez da manga original de Masamume Shirow, onde as potencialidades filosóficas desta não se diluíam num caleidoscópio muito frugal de técnica e velocidade. Oshii criou uma obra de culto para a espiritualidade pós-humana, onde parece que recuperamos parte do idílio original do movimento “cyberpunk” (Bruce Sterling, Wiilliam Gibson) com a tecnologia do futuro. A história da crise existencial de um ser que é quase sintético (e que nos abre os olhos para o futuro robotizado que está aí a bater à nossa parte, apesar da distracção de muita elite política e económica), num mundo onde estão a tornar-se muito ténues as fronteiras entre o humano e o artificial, é tentadora. Mas o filme perde o imaginário do que Shirow nos queria transmitir. Película à parte, tudo nos remete para este universo em que a densidade humana começa a ser minoritária na voragem tecnológica. Ou seja, a humanidade está a tornar-se obsoleta nesta folha de Excel de resultados e de rapidez, onde o tempo para contemplar e compreender deixou de ser rentável.

Se os “comics” americanos foram, no início do século XX, uma língua franca de divertimento para emigrantes de todas as nacionalidades que chegavam aos EUA, com o tempo definiram-se como arte (basta lembrar Alex Raymond, Milton Caniff, Hal Foster, com os seus X-9, Steve Canyon ou Príncipe Valente, entre outros). Foram, com o cinema, uma frente cultural global durante décadas, tornando hegemónica a cultura americana no mundo. Isso também aconteceu com a manga japonesa a partir de finais da década de 1980, quando se tornou a mais poderosa exportação cultural japonesa. Mas tem de ser compreendida no contexto da grande crise económica do Japão dos anos 80, que colocaram os mais jovens num mundo de trabalho precário e de poucos horizontes de futuro. O universo mágico da manga (tal como sucedeu com os Super-heróis americanos da década de 1930, durante a Grande Depressão) foi um escape perfeito: todos poderiam ser heróis, num mundo mais ou menos virtual, já que o real poucas opções oferecia. No Japão estes “anos perdidos” coincidiram com a emigração dos mais jovens para o universo da manga, dos jogos virtuais e do “anime”.

Fruto da lendária arte sequencial japonesa, a manga ganhou estatuto próprio com um dos grandes artistas do século XIX, Katsushika Hokusai. A produção de novelas gráficas baratas, a par da grande tradição de ilustração erótica japonesa, contribuíram para o modelo que se disseminou nas últimas décadas. Na imprensa isso foi notório desde o início do século XX, onde a popularização da manga encontrou um veículo poderoso. Já na década de 1940 os trabalhos de Osamu Tezuka para os adultos tornaram-no no “avô” da manga. E essa cultura tornou-se transversal à sociedade, conquistando gerações muito diferentes. De um nicho de mercado passou a ser influência decisiva noutros universos como os jogos de vídeo. A globalização tecnológica tornou a manga uma paixão sem fronteiras. Cheia de referências e repleta de ideias e contradições. Tal como toda a Banda Desenhada.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”, escreve neste espaço uma vez por mês.

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