O Pavilhão Chinês e a proposta de Arriaga

FOTO Pak tai (17)

A destruição do centro histórico do Rio de Janeiro teve lugar no início do século XX. Começou pela descaracterização do Morro do Castelo, onde existia o “bairro chinês”, sedimentado ao longo do século XIX no antigo Beco dos Ferreiros, e o derrube da igreja onde está agora a estação Central Brasil (que é título de filme muito premiado). O processo teve o seu momento mais sombrio com o abate de 540 edifícios históricos para dar lugar à Avenida Presidente Vargas. Num mapa da cidade ela surge-nos como uma verdadeira cicatriz cortando cerce ruas e ruelas de traçado irregular, grande parte delas inspiradas nas artérias da velha Lisboa: Rua da Alfândega, Rua da Conceição, Rua do Carmo, Rua do Ouvidor, Rua da Glória, Rua da Lapa, Rua do Teatro, Rua da Misericórdia, Rua de São Bento, Rua Luís de Camões. É toda uma Lisboa aqui exposta. Não fosse essa régua colocada na perpendicular da capital carioca, a gigantesca Presidente Vargas.

Apesar dos estragos muito se mantém preservado. Se nos limitarmos ao jardim do Campo de Santana e à zona ribeirinha em frente à Ilha das Cobras, podemos enunciar os seguintes locais de interesse: Arcos da Lapa, Arquivo Nacional, Casa da Moeda, Real Gabinete Português de Leitura, Paço Imperial, Palácio Tiradentes, casarões vários que albergam importantes museus, e, claro, muitas igrejas. As igrejas de São Francisco de Paula, da Candelária, da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, de Santo António, da Nossa Senhora do Carmo e a antiga Sé. Curiosamente, no Brasil as igrejas mais importantes, independentemente da sua situação geográfica, têm similar designação. Quase sempre são dedicadas a São Francisco da Penitência, à Nossa Senhora do Carmo, a Santo António ou então a São Bento. Neste país, os jesuítas, que chegaram tardiamente, não edificaram muitas igrejas dedicadas a São Paulo, como acontece no Oriente.

Claro que se sairmos do perímetro atrás definido e seguirmos ao longo da Avenida Infante Dom Henrique, que se esconde por detrás da Praia do Flamengo, e continuarmos rumo à praia do Botafogo, seguindo pela reentrância que parece querer voltar a fechar a Baía de Guanabara (e fecha mesmo), culminando nesse marco de referência que é o Pão de Açúcar, estaremos a percorrer as origens da cidade, presentes ainda hoje no bairro de Urca, à guarda da pouco acessível Praia de Fora e do Forte de São João.

Não há melhor local para apreciar o Pão de Açúcar que a zona envolvente ao monumento a Estácio de Sá, fundador da cidade, e ao museu dedicado a Carmen Miranda, a portuguesa que os brasileiros, com toda a propriedade, consideram deles.

Flamengo, Botafogo, Vermelha, Fora. Nomes de praias que encerram em si um período conturbado de lutas pela posse desta cidade tão abundantemente cantada, filmada, descrita, poetizada, sonhada. Como se vê, não falta história ao Rio de Janeiro.

Outra das vistas privilegiadas da icónica cidade, e que, no caso, relevante se torna para a prosa desta semana, é o denominado Pavilhão Chinês, porventura o mais representativo sinal da presença de povos orientais nesse país sul americano.

Miguel de Arriaga Brum da Silveira, mais conhecido como Ouvidor Arriaga, é o grande incentivador de uma vaga imigratória que tem origem no dealbar do século XIX, como, de resto, o comprova uma carta do seu punho enviada ao Príncipe Regente, a 6 de Março de 1809, ou seja pouco tempo após a chegada da corte ao Brasil. Ciente da endémica falta de mão-de-obra braçal, agora que urgia estabelecer uma Nova Capital, Arriaga, alegando a vantagem de serem os chineses “activos e industriosos”, e, por isso mesmo, de todas as classes operárias, “sem dúvida alguma a mais útil e proveitosa”, dispôs-se a enviar para o Rio o necessário número de trabalhadores de tal casta, que mais tarde saldariam com o seu suor os gastos de tão longa e sofrida viagem, ficando na debilitada situação de assalariados “por conta da Real Fazenda até preencherem os seus débitos”, sob o olhar de atentos e exigentes capatazes. Adivinha-se aqui, porventura, um prenúncio do futuro tráfico de cules. Porém, há na proposta de Arriaga uma contrapartida, digamos, humanitária, já que apela à tolerância pelos costumes chineses, isto é, “tenham certas fraquezas em alguns dos seus usos que não podem deixar de respeitar”.

Pelos vistos – e segundo admite o próprio Arriaga –  a prática não era nova, pois usual se tornara nos domínios ingleses, “com enormes vantagens para essa nação”, aproveitando o ensejo para alertar para a esperada relutância dos chineses, que bem sabiam que muitas das cláusulas dos contratos não eram cumpridos, pois, embora lhes prometessem acesso aos portos do Brasil livres de taxas, obrigavam-nos, os angariadores, a pagá-las, uma vez atingido o destino.

Essa decisão seria, no entender do Ouvidor, de mútuo interesse  para o Brasil e para Macau.

O plano, pelos vistos, foi de imediato posto em prática, pois a 22 de Março de 1809 dá-nos conta Arriaga, em carta endereçada ao Secretário da Marinha e Domínios Ultramarinos, D. João de Almeida Melo e Castro, da partida para o Brasil de residentes de Macau acompanhados por trabalhadores agrícolas chineses, missiva essa que trazia anexa a carta por ele enviada ao Princípe Regente dezasseis dias antes.

Miguel de Arriaga Brum da Silveira seria ainda o responsável pelo envio das primeiras plantas e sementes do chá para o Brasil, mas essa é matéria que, pelos curiosos episódios que acarreta, dará com certeza pano para futuras mangas.

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s