Do Local ao Global: Contextos do trabalho na RAEM

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Macau (ou a RAEM) circunscreve-se hoje como um dos destinos de emigração na busca de melhores condições de trabalho, quer a nível interno da República Popular da China, quer a nível internacional, colocando-a como um exemplo das modernas metrópoles na lógica das Cidades Contemporâneas. Ou seja, não é apenas o Turismo que vivifica os movimentos populacionais; uma boa parte desses fluxos vai para ficar e trabalhar em Macau.

Neste contexto Macau (RAEM) oferece aos indivíduos que a procuram a possibilidade de encontrar um espaço que se pauta pela integração num mundo do trabalho valorado pelos princípios da modernização organizativa e enquadrada num sistema económico que, por sua vez, sustenta determinadas relações sociais de convivência pacificada e de tolerância, num mundo onde cada vez mais estes valores se vão perdendo.

A génese destes valores enquadra-se efectivamente no percurso histórico de Macau na qual a presença portuguesa, ao longo de quase quinhentos anos, foi também determinante com o consentimento do poder político chinês. Os factos dessa herança secular tornaram Macau como exemplo de um espaço de tolerância e de convivência pacífica de referência.

Na actualidade são as organizações de trabalho (vulgo Empresas e Administração Publica) que permitem a materialização desta lógica, quer produtiva quer social. As organizações são, actualmente, o principal contexto a que os indivíduos recorrem para garantir os seus meios de subsistência e desenvolverem os seus modos de vida.

As empresas/organizações contemporâneas, integram relações sociais de produção que têm por base a economia de mercado. Este por sua vez já provou que pode ser um modelo económico maleável e flexível, não se cingindo a uma única formula, conseguindo adaptar-se a todas as culturas e sociedades com mais ou menos liberdade de escolha, às vezes defensores firmes dos valores democráticos, outras tantas associado a princípios autocráticos. A economia de mercado prossegue assim a sua eterna expansão assimilando e adaptando as culturas locais aos seus padrões de desenvolvimento.

A particularidade destas dinâmicas assenta no facto de que as populações e as culturas locais não são meros agentes receptores do modo de organização global. Elas reinterpretam as directivas e adaptam-nas reproduzindo ou reformulando o seu estilo de integração, resistindo de alguma forma ao modelo de uniformização.

Surgem assim novos hibridismos culturais e novas formas de representação e experimentação da vida no trabalho. As relações sociais de produção são estruturadas pelo sistema global mas, ao mesmo tempo, permitem que os modelos organizacionais sejam moldados por sistemas culturais específicos.

Este contraste entre as tendências globais homogeneizantes e as culturas locais heterogéneas, não exclui, de algum modo, a possibilidade de sucesso da emergência de um modelo ou estilo organizacional local num contexto global. Aliás, como muitos diriam, há que pensar local e agir global.

A dicotomia entre o universalismo e o relativismo interage com as culturas e os contextos sociais locais. Isto é, reforça a reprodução de uma identidade comunitária que as identifica. A força de trabalho experiencia os mesmos antagonismos de formas distintas, consoante o contexto cultural e a interpretação subjectiva que cada um constrói e o projecta no seu repertório particular, isto é, cada trabalhador vai desenvolvendo e adquirindo as suas competências interpessoais.

Este panorama tem sido mais fácil de encontrar nas cidades contemporâneas emergentes do continente asiático do que no Ocidente ou Europa. É daí que nos chegam as principais tendências sobre modelos de produção, de organização e de gestão do trabalho. O “just-in-time” e o “lean production” oriundos do Japão são disso um exemplo. Existem, no entanto, outras variações significativas entre países de culturas asiáticas, principalmente da Coreia do Sul e Singapura, ou mesmo numa China renovada que procura afirmar-se com um modelo de organização chinês assente em princípios autocráticos mas admitindo uma adaptação à confluência das culturas locais.

O caso de Macau apresenta assim um interesse epistemológico interessante nesta linha de pesquisa. A identidade de Macau reclama para si uma legitimidade cultural única, diferenciada dos padrões culturais chineses e portugueses, pontuando-se no panorama internacional como uma realidade de influências ocidentais e orientais incorporadas no sistema global da economia de mercado e produzindo um modelo local especifico.

Considerado, actualmente, como um dos centros mundiais do turismo e do lazer, industria que proporciona uma vasta oferta de trabalho, associado às medidas governamentais na criação de infra-estruturas, recriam-se espaços onde convivem patrimónios culturais com o cosmopolitismo dos circuitos do lazer e do jogo, conseguindo em simultâneo conjugar a sua herança multiétnica da diversidade e da pluralidade. Neste ponto de vista Macau oferece uma vasta panóplia de modelos organizativos que poderão estar no centro das transformações de uma realidade no mundo das organizações e do trabalho em termos da sua reinvenção,

Todos sabemos que Macau não deixa obviamente de estar sob a influência do padrão de desenvolvimento económico chinês, mas introduz uma nova variante que resulta de um “ethos” especifico de particularidade, isto é, uma simbiose de dois modelos distintos que emerge como singularidade própria. Talvez por isso haja tanta gente a procurar Macau como destino de trabalho, quem sabe!

 

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Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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