A Obsessão do Fazer

 

Lazarus-01

Na fé cristã, todos e cada um afirmam : «Creio na Ressurreição dos mortos e na vida do Mundo que há-de vir». Jesus Cristo Ressuscitado é a revelação divina de tal  realidade. No entanto,  já durante a sua vida pública, em terras de Israel, vários foram  os casos em que Ele, o Senhor Jesus, manifesta o seu poder sobre o Mal e a  morte, trazendo à vida aqueles que tinham morrido como o filho da viúva de Naim, a filha do desconsolado, Jairo, e outros mais. Este Quinto Domingo da Quaresma descreve-nos, talvez, o exemplo mais conhecido e mais retumbante do poder de Jesus Cristo  sobre a Vida e a Morte, quando ressuscita o seu muito amigo Lázaro, irmão das muito conhecidas irmãs, Maria e Marta.

Contudo, o texto evangélico atrai-me por um outro tipo de reflexões, exactamente ao contrário daquilo que parece ser a sua primeira mensagem, a consciência, através de Lázaro, da fragilidade humana e do poder da morte. Pois, ao inverso, chama-me a atenção, o excesso de vida e precipitação de Marta, sua irmã, com a frase tão reveladora do seu estado de espírito : «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido».

Marta era uma mulher responsável e dinâmica, mas também com sintomas de ser um pouco excessiva. Hiperactiva, diriam alguns. Pelo menos Jesus, sendo amigo íntimo da família, não se coibe, numa das suas visitas habituais, de lhe fazer, delicadamente, uma observação: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas …»

*********

A lógica do  «Senhor, se tivesses estado aqui …», embora subtilmente, denuncia algo de exagerado,  abusivo,  mais próprio de alguém que se quer impor ao outro. Parece a atitude daquela pessoa que toma a liderança de uma situação e tem, muito naturalmente, a forte tendência de assumir a responsabilidade de tudo e dela fazer depender  tudo.  Isto é, o horário, a organização,  o plano de acção,  o número, a função e as obrigações das pessoas sob a sua autoridade.  Ela é que sabe. É como se Marta, neste caso, estivesse a  dizer  « se tivesses estado aqui» nada disto aconteceria!

É esta impulsividade  de Marta no seu modo de fazer as coisas e a consequente necessidade de ela aprender  a realizar tudo em Deus, na sua’ hora’ e segundo o seu ‘plano’, que leva o Senhor Jesus, o Mestre divino, a  actuar da maneira que  actuou. Demorou quatro dias.

O tempo e a sua duração têm uma pedagogia muito própria, principalmente, quando desejamos fazer tudo, conforme a vontade de Deus. Quando os aconteimentos não sucedem segundo os nossos desejos ou dentro do nosso tempo previsto, essa demora significa, pura e simplesmente, que algo está a faltar ou nem tudo está bem preparado. Marta lamenta-se dizendo: « Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido», mas Ele, apesar de conhecer muito bem o drama que se está a passar, incrivelmente, só aparece quatro dias depois, quando «já cheira mal».

************

A pressa de Marta, não dava para entender que um conjunto de pessoas não estava preparado para compreender e receber a grande manifestação do poder de  Jesus Cristo, o Messias e o Filho de Deus. Eles precisam de tempo.

Em primeiro lugar, os Apóstolos não estavam  capazes de compreender nada sobre o mistério da Cruz e Morte de Jesus. Cheios de medo diziam:  «Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te, e voltas para lá?» Só quando Tomé, corajoso, declarou : «Vamos nós também, para morrermos com Ele», é que eles  decidiram partir. Se, assim, não fosse, corria-se o risco, ao passarem  por Jerusalém, de todos desaparecem  como, mais tarde, fizeram quando Jesus foi preso.

Parece surpreendente, mas quem também  estava com necessidade de aprofundar o seu conhecimento acerca de Cristo, Ressurreição e Vida, era a própria Marta. E o Senhor passa um tempo, a sós, com ela.

Finalmente, os próprios amigos e conhecidos de Lázaro também  precisavam de um tempo e percorrer um caminho de compreensão mais perfeita. Quando viram Jesus, o ‘Filho de Homem’, chorar, comoveram-se e acreditaram n’Ele. Mas, logo a seguir, alguns começaram a criticá-lo por não evitar que Lázaro morresse. Portanto, duvidando de Jesus, como verdadeiro ‘Filho de Deus’. Jesus reza, então, a Deus Pai para que todos o reconheçam como ‘Filho de Homem’ e ‘Filho de Deus’, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus.

**************
Actualmente, fala-se muito sobre o ‘stress’. Quando muitos afirmam que a causa está no estilo de vida da nossa sociedade e do ritmo de trabalho que nos é imposto, eu explico-o, porém, de outra maneira. Embora , esses sejam aspectos a serem seriamente considerados, contudo, estou mais convencido de que razão mais verdadeira e válida se encontra no íntimo de cada um. É, muitas vezes inconsciente, mas, de facto, há também uma compulsividade – fazer, fazer, fazer – que sai do profundo de nós mesmos, como uma resposta instintiva e tirânica à minha necessidade de ser apreciado e reconhecido, ser aceite e acarinhado e, por fim, sentir-me seguro e protegido na vida.  Movem-me motivações egocentricas e não os grandes valores ou  ideais.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s