Caminho de Integração

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A caminho da Celebração da Páscoa, a grande manifestação da Vida, os Evangelhos apresentam-nos  situações de fragilidade humana extrema que em contacto com Jesus Cristo são transformadas e ultrapassadas. No passado Domingo, o texto deu-nos a conhecer a figura daquela mulher, de coração ‘perdido’, à  busca de “companheiros” ou “maridos” que, afinal,  só lhe trazem desilusão e vazio. Este Domingo, o Quarto da Quaresma, traz-nos, desta feita, a experiência de um homem, cego de nascença, mendigo, totalmente dependente dos outros, deixado à porta do templo. No próximo Domingo somos convidados a meditar Lázaro que morre. Perante tais casos, o Senhor Jesus é sinal de Esperança.

O que mais chama a atenção em todos estes episódios é que todas as pessoas intervenientes,  homem ou mulher,  são levados a encarar e reconstituir , antes de mais, todos os diversos elementos que compõem a sua própria personalidade. Feito este trabalho,  tornam-se seres humanos muito mais integrados, equilibrados e abertos aos outros, para, em seguida, serem capazes de se tornarem  radicais nas suas atitudes, criativos e originais no seu pensamento e audazes  e corajosos  nas suas iniciativas. E mesmo darem a vida por um ideal.

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Tomemos o caso do cego de nascença, o homem do Evangelho do 4º Domingo desta Quaresma de 2017. A sua situação é deplorável. É cego e de nascença. Não vê, nem entende. Como se a cegueira física fosse como que o embotamento da sua inteligência, incapaz de compreender tantas coisas ou chegar a razões mais profundas.

O coração ao ver-se, durante tantos anos cronicamente limitado, não admira que esteja inundado de tristeza e resignado a ser todos os dias levado para certos lugares estratégicos e aí lançar as  suas  lamentações à procura de uns tostões

Mendigar é a única coisa que pode ou aprendeu a fazer.  Pedir ou pedinchar é a sua profissão. Onde está o seu poder criador? Como contribuir para o bem da comunidade ?

Sempre dependente dos outros, por mais esforços que faça. Sem nenhuma autonomia, mesmo das funções mais básicas. Subjugado a ser submisso ao sentir, ao pensar e ao agir dos outros. E o dom preciosíssimo da liberdade?

A transformação que se processa neste homem, cego, dependente e pedinte, é um exemplo de excelência da pedagogia de Deus perante o ser humano que se apresenta diante d’Ele. Jesus Cristo é a Revelação e a Encarnação desse caminho de libertação, de integração e de realização pessoal.

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O Senhor Jesus e Mestre, com o acto de recuperar a vista àquele homem, traz consigo uma inteligência arguta, de lógica cerrada e de dialéctica exuberante, corajosa e convincente. Vejamos a força da argumentação dele, o pobre mendigo, perante os sábios, os intelectuais e os políticos da cidade!  Deixa-os sem palavras. A eles apenas resta o insulto : «Tu nasceste inteiramente em pecado».

Aquele coração que, outrora, era frágil, sensível e subserviente a todos,  muda de maneira espectacular. Torna-se forte. Por isso é  que não nos surpreende ouvir os pais dele a afirmar: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Ele  já não precisa nem do paizinho, nem da mãezinha para se defender ou, ao contrário, para afirmar-se.  Livre, finalmente, dos outros, daquelas dependências afectivas infantis ou pouco consistentes.

Por fim, aquele, considerado fraco, assume-se de modo desassombrado, perante os outros, particularmente, perante aqueles em autoridade. Faz o que tem que fazer. Diz o que tem a dizer, mesmo com perigo de vida!

Inteligência fina, coração destemido e cheio de gratidão e vontade firme, mostram um homem transformado.

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Contudo, neste processo de transformação, chama-nos ainda a atenção certos aspectos muito particulares que confirmam a profundidade de integração que teve lugar naquele que, pouco tempo atrás, não passava de um ‘pobre entre os mais pobres’.

É notável o sentido de humor do cego que Jesus curou. No meio do intenso debate, com tantas questões e tantas repetições, ele salta, com uma ironia devastadora, dizendo: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?». Claro, ficaram furiosos.

Algo ainda mais extraordinário deste ignorante, cego e pedinte, é a sua capacidade de discernimento da presença e da acção de Deus. Eis as suas palavras tão repletas do espírito divino: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele (Jesus) é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade». Quando Deus transforma alguém fá-lo ‘ à imagem e semelhança de Deus’.

Por fim, voltemos a Jesus, Senhor nosso Deus. Ele nunca abandona  os seus, principalmente, quando são fiéis  nos  tempos de perseguição : «Jesus soube que o tinham expulsado e  foi ao seu encontro».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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