Cabral no topo do mundo

Tibetexpedition, M鰊che mit Blasinstrumenten

Saído das nuvens, o Boeing 757 aproximava-se primeiro dos picos verdes, depois dos nevados, dos verdes de novo, e, finalmente, apenas rectângulos de água acastanhada. O vale de Yarlung, contornado pelo rio Tsangpo – que no subcontinente indiano muda de nome e passa a designar-se Bramaputra – surgia por debaixo de nós, a poucas centenas de metros. O avião estava a menos de dois minutos da pista de Gongbar, o único aeroporto do Tibete, a 70 quilómetros de Lhasa.

Dois dos passageiros, soldados do Exército Popular de Libertação, colocaram-se à minha frente, junto a uma das saídas de emergência, abriram a bagageira, retiraram as suas réplicas de Samsonites fabricadas na China e, muito descontraidamente, começaram a trocar de roupa.

Lhasa, tong ma! Em Lhasa está frio – alertou um deles, ao constatar a minha estupefacção. As hospedeiras há muito que estavam sentadas, uma vez recolhidos os tabuleiros das “refeições” frias e adocicadas a que as companhias aéreas chinesas nos habituaram nos seus voos domésticos.

Não era todos os dias que se sobrevoava o Tecto do Mundo, e assim aproveitei os últimos minutos da viagem para tirar foto atrás de foto, tal como alguns elementos de uma equipa de televisão de Pequim, sentados no banco detrás, acompanhados pelas mulheres e filhos. Às 8:30, duas horas depois de termos deixado o céu cinzento de Chengdu, as rodas do 757, repleto de passageiros, tocavam finalmente no macadame da pista de aterragem. Nessa manhã, seguir-se-iam ainda outros dois voos, procedentes da capital da província de Sichuan. No Verão era assim: três voos matinais, espaçados trinta minutos entre si, duas vezes por semana, provenientes de Chengdu, Xian, Chongqing e Pequim. Lhasa não era mais uma remota cidade perdida no reino dos Himalaias.

Transitar de uma altitude a escassos metros acima do nível do mar para os 3600 metros registados na cidade dos lamas em pouco mais de vinte e quatro horas, é um factor a ter em conta e, certamente, a não desprezar. No entanto, antes da náusea, das fortes dores de cabeça e da dificuldade em respirar, sintomas inevitáveis quando não há aclimatização, vivem-se momentos de euforia, uma vez transposta a portinhola da aeronave. Soube-me bem respirar o ar fresco e rarefeito e ver surgir o sol rompendo as ameaçadoras nuvens de monção que vagueiam pelo planalto durante todo o Verão, responsáveis por cerca de 90 por cento da precipitação anual registada no Tibete.

Era a terceira vez que visitava essa região, desta feita com o intuito de procurar saber algo mais acerca dos padres e leigos jesuítas,  que após o baptismo oriental em Goa, passavam, muitos deles, longos períodos em Macau antes de rumarem a diferentes paragens do Extremo Oriente.

O nome mais sonante é o do padre João Cabral, um dos mais destacados evangelizadores do Tibete. Este religioso chegou a Macau depois de uma breve passagem por Cochim. Aqui viveu entre 1645-46 e 1649-53, chegando mesmo a ser reitor do Colégio da Madre de Deus. Foi  Visitador da China e Japão durante o ano de 1650 tendo morrido em Goa, a 4 de Julho de 1669. O relato das suas aventuras no Tibete compiladas na “Relaçam copiosa dos trabalhos grandes que padeceo na Missão do Tibeth” anda perdido num qualquer arquivo de Portugal.

Estabelecida a missão no Tibete Oriental, o padre António de Andrade propôs a penetração no Tibete central através do reino de Bengala, actual Bangladesh, que era o caminho mais próximo e pertencia à província missionária do Malabar.

Tendo como ponto de partida a cidade de Hugli, uma expedição de dois missionários – Estevão Cacela e João Cabral – encetou caminho, a 5 de Setembro de 1626, rumo ao planalto tibetano, também eles na esperança de encontrarem o mítico Cataio, identificado desta vez como o Shambala dos relatos dos lamas.

Seriam eles os primeiros europeus a pisar quatro das mais inacessíveis regiões do planeta: o reino do Butão, o protectorado indiano do Sikkim, o reino do Nepal e a região central do Tibete conhecida como U Tsang.

Ao longo do trajecto foram muitos os imprevistos e os perigos. O padre Cabral esteve mesmo entre a vida e a morte atacado por fortes febres. No Butão, Cabral e Cacela ergueram uma capela e traduziram para butanês as orações e os preceitos religiosos mais relevantes. As informações que forneceram, embora distorcidas, deram a conhecer ao mundo ocidental o budismo lamaísta. O nome de Chescamoni (Sakyamuni) surgiu pela primeira vez, em 1617, pela pena de Estevão Cacela.

Saíndo do Butão a 28 de Dezembro de 1627, Cabral chegaria a Xigatsé a 20 de Janeiro do ano seguinte. Aguardava-o lá Cacela, que partira anteriormente. Apesar das hostilidades dos lamas, os religiosos tiveram algum, reduzido, sucesso junto do monarca local e estabeleceram em Xigatsé uma missão. Com o objectivo de encontrar uma rota alternativa, Cabral deixou Xigatsé em finais de Janeiro de 1628, rumo ao Nepal e daí regressou a Bengala. Chegado a Hugli concluiu que essa era melhor rota que a do Butão. Dois anos mais tarde, na companhia do padre Manuel Dias Sénior, João Cabral rumou ao U Tsang utilizando uma terceira rota: o reino do Sikkim. A missão de Xigatsé, contudo, não teria grande futuro. Terá encerrado antes de 1635, altura em que Cabral, em Carta Ânua, admitia o malogro. Por três razões: as dificuldades da viagem, a incerteza do êxito da missionação e o facto da curiosidade do rei tibetano se sustentar apenas no valor dos presentes que lhe levavam os missionários.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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