Rex Tillerson na Ásia

Key Speakers At Ceraweek 2012

A visita oficial do Secretário de Estado norte-americano à Ásia ocorre num momento de particular significado político, quer pela delicada situação de segurança que se vive nesta região do mundo, quer pela opacidade com que a política externa da administração Trump é olhada por aliados e adversários.

Não passaram ainda três meses sobre o juramento de Donald Trump como Presidente e apenas um mês e meio passou sobre o início de funções de Rex Tillerson. A primeira impressão com que se ficou foi de uma absoluta falta de coordenação entre o gabinete do Presidente e do Secretário de Estado. Os dois não terão conversado aquando do depoimento de Tillerson no Senado, sendo notório o desfasamento entre as posições do secretário indigitado e as anunciadas por Donald Trump na campanha eleitoral.

Rex Tillerson remeteu-se ao silêncio, evitando um contacto frequente com os jornalistas e sopesando as suas declarações públicas. Isto representa um rompimento com o estilo efusivo e palavroso de Hillary Clinton e John Kerry à frente do departamento de estado. Rapidamente se instalou a ideia que Tillerson estaria apagado (ou silenciado) pela equipa do Presidente e pouco contará na definição da política externa.

Trata-se, contudo, de uma leitura precipitada. Rex Tillerson é um gestor internacional habituado a duras e prolongadas negociações e a medir as posições que veicula. É o que se chama um político “laid- back”, na antiga tradição conservadora que a mediatização da vida política por alguma forma fez esquecer. Como dizia Henry Kissinger quando perguntado sobre o novo secretário de Estado norte-americano, Tillerson é alguém que se gosta de informar por si próprio de todas as nuances e só depois tomar posição.

Neste caso, os contactos que está a ter com os líderes do Japão, da Coreia do Sul e da China são fundamentais para a consolidação de uma visão estratégica para os principais problemas que afligem a região e para a passagem de dois tipos de mensagens. Para os aliados –  Japão e Coreia do Sul – o reafirmar dos compromissos estratégicos dos Estados Unidos na defesa destes países que decorre dos tratados de defesa e assistência assinados à saída da Segunda Guerra Mundial. Uma reafirmação que irá exigir como contrapartida um maior envolvimento destes dois países na sua própria defesa e assim o crescimento dos seus orçamentos de defesa. Quanto à China, o aquietamento dos receios despertados pela retórica inflamada de Donald Trump durante a campanha eleitoral e mesmo depois da sua eleição, mas sobretudo a transmissão da ideia que os Estados Unidos estão dispostos a trabalhar com os líderes chineses no aprofundamento da relação bilateral.

Relação bilateral que é composta de três vertentes: a relação bilateral stricto sensu, na sua tripla valência de comércio, participação no sistema financeiro internacional, movimento de pessoas; a avaliação da ameaça colocada pela corrida nuclear norte-coreana em termos de desestabilização da península coreana e insegurança no Mar do Leste da China; o encontrar de novas áreas e modos de cooperação na luta anti-terrorista dada a nova sensibilidade americana em razão dos fluxos emigrantes e os receios da China com o Islão, o crescer da influência do Irão e a radicalização da minoria muçulmana em Xinjiang.

Destas três vertentes, a que parece mais acessível é a cooperação na luta anti-terrorista. Os dois lados têm uma visão que se pode dizer “realista” em termos da doutrina das relações internacionais, vendo na contenção do poder dos adversários e no reforço da sua projecção de força a forma de duplicar as suas valências internas e reequilibrar as balanças de poder em que participam. Xi Jinping apercebeu-se, há algum tempo, que a aposta no “soft-power” feita por Hu Jintao e antes dele por Jiang Zemin, não trouxe à República Popular da China os ganhos estratégicos que se previam. Sem que o diga expressamente, Xi Jinping não acredita na valência das Nações Unidas e na sua capacidade rebalanceadora. Tanto ele como Donald Trump acreditam que devem ser os “Grandes Poderes” a tratarem dos problemas internacionais, usando as nações mais pequenas como “carruagens”.

Os problemas de insegurança nos Mares do Leste e do Sul da China resultam da truculência chinesa através da construção de ilhas artificiais que visam consolidar a posição de Pequim nas disputas marítimas que opõem a RPC a outros estados asiáticos. É bom, contudo, lembrar que existem outras disputas territoriais entre o Japão e a Coreia do Sul (Takeshima) e entre a Rússia e o Japão (os Territórios do Norte ocupados pela Rússia a seguir à Segunda Guerra), o que quer dizer que as rivalidades e as disputas territoriais fazem parte da tessitura geopolítica desta região e apresentam várias nuances que importa ver em conjunto.

Também as relações comerciais China-Estados Unidos têm trazido vantagens aos dois lados e não é concebível que uma política mercantilista de imposição de direitos aduaneiros para ‘punir’ as importações chinesas resolva o “nó górdio” da perda de competitividade das empresas americanas, da deslocalização do processo industrial e dos custos elevados da mão-de-obra norte americana. As empresas funcionam pela maior optimização dos custos dos factores de produção e os apelos ao patriotismo são retoricamente interessantes, mas pouco virtuosos.

No essencial, caberá a Rex Tillerson preparar a visita de estado do Presidente Trump que poderá ter lugar no princípio de 2018, segundo especula a imprensa norte-americana. Depois de receber Xi Jinping na Casa Branca.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

 

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