Coração perdido e encontrado

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«A Samaritana» é a figura central do episódio narrado no Evangelho deste Terceiro Domingo da Quaresma. Profundamente humano,  profundamente divino! A fragilidade humana da mulher de Samaria, tocada pela poderosa acção transformadora do divino, manifestado em Jesus Cristo.  Uma mulher com um coração completamente destroçado que reencontra,  por fim e de modo impensável,  a sua grandeza, bondade  e beleza original. Com Jesus, é mais um caso a confirmar de que toda a transformação da realidade humana, desde o mais pessoal e íntimo ao mais social e público, passa,  imprescindivelmente, pela consciência não só da importância do coração e do seu mundo afectivo  no processo  como também da necessidade duma conversão radical do mesmo coração.

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A importância do conhecer-se a si mesmo ou de conhecer o seu coração, hoje, diria, é uma questão civilizacional. Os homens e as mulheres do começo deste Terceiro milénio  evitam cada vez mais fazer ‘o caminho interior’ até ao fundo de si mesmos, tal como, na mesma ordem de ideias,  temem o silêncio, o recolhimento e a soledade. Em contrapartida, deixam-se dominar, quase como por epidemia avassaladora,  pela  racionalidade fria e dura, pela tecnocracia tirana e manipuladora e pelo consumismo degenerador.

Insisto neste ponto, particularmente, entre adultos. Todos, muito fácil e airosamente, se dizem conhecedores ‘de si mesmos’. Porém, um olhar mais atento e penetrante e a experiência de acompanhar pessoas de todas as culturas e raças,  revelam que uma coisa é ‘o conhecimento racional’ de si mesmo,  outra é ‘o conhecimento afectivo’, existêncial  e íntimo. Já Santo Inácio de Loiola dizia: ‘Não é o muito conhecimento (e informação) que satisfaz a alma, mas sim o conhecimento íntimo (do coração) da realidade. Uma questão é, por exemplo, conhecer e descrever ‘intelectualmente’ a experiência da Angústia, outra é  ter ‘conhecimento afectivo e existencial’ da Angústia. Até os profissinais, quando chegam a esses momentos, dão consultas de cinco minutos e, depois …   fármacos.

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«Jesus cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água». Ir ao poço, ao meio dia, significa já que ela estava com dificuldade de se encontrar com as  outras mulheres da pequena cidade de Sicar. Era necessário passar despercebida, pois já ía no sexto ‘companheiro’. Vergonha! Complexo de culpa! Talvez! Mas, aqui o facto mais importante é, tal como Jesus, o Senhor e Mestre,  conseguir perceber, por todos elementos ou sinais externos,  que a pessoa está em profunda dor e com necessidade de ser ajudada.

A propósito, eu  não acredito que uma mulher que ande com ‘companheiros’ ou viva em certa roda livre nas suas relações afectivas, que, sinceramente, possa gabar- se de ser ‘madura e moderna’, ‘ser livre’, e afirmar, sem peias que  ‘o corpo é meu’ como se não sentisse algo mais dentro de si. De igual modo é uma perfeita e rotunda ilusão, os homens pensarem que são mais homens porque conhecem mais mulheres. Psicologicamente, são miúdos à procura da mãezinha. A Verdade incomoda e faz doer.

A consciência moral permanece sempre consciência. Reafirmo que, sejam quais forem as experiências humanas, ditas ‘naturais’, ao sabor apenas do instinto da sensibilidade e da sexualidade, sem o sentido profundo do Amor, o ’Espírito de Deus’ não deixará jamais de dar sinal no mais íntimo do coração. O ser humano é, estrutural e intrinsecamente, chamado à Verdade, ao Amor e à Perfeição

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Juntamente com essa percepção objectiva da situação do outro e, sobretudo, do seu coração,  há que ter, em seguida, a pedagogia própria para entrar nos lugares mais recônditos da alma humana, ter ‘a pedagogia do coração’.

O Senhor Jesus, primeiramente, toma iniciativa e pede um copo de água: «Dá-Me de beber». Apesar da Samaritana ser ríspida na resposta, o Senhor não se desconcerta e continua, respeitosamente, a  conversar com ela.  Aos poucos, quando Cristo  sente que a paz e a confiança aumentam  na relação entre os dois, Ele lança-lhe uma pergunta  mais íntima e deveras muito pessoal : «Vai chamar o teu marido e volta aqui».  Pouco tempo  decorrido, ouvimos  já  ela que exclama : «Senhor, vejo que és profeta».

Por fim, diz o texto evangélico : «A mulher deixou a bilha, correu à  cidade e falou a todos :’Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias ?’»

Em conclusão, para ajudar seja quem for a mudar de vida, temos que entrar corajosamente nos segredos do coração e tocar, com verdade, respeito e delicadeza, as dores e as angústias que, constituem, tantas e inúmeras vezes, a raiz ou  a razão de ser das nossas  inclinações desordenadas, menos próprias, torpes, indignas e maldosas.

Toda a mudança, na pessoa de cada um de nós,  na sociedade onde vivemos e na humanidade e no cosmos  a que pertencemos, só é possível, para bem de todos, quando o coração está  livre

A Sagrada Escritura, no Antigo Testamento, é cristalina : «O coração é o que há de mais astucioso e incorrigível. Quem o pode entender ?»

             O Senhor Jesus remata, dizendo : «É do coração humano donde sai todo o bem e todo o mal».

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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