Inéditos, divulgadores e plagiadores

 

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Para desespero dos nossos investigadores, grande parte dos escritos elaborados durante a época dos Descobrimentos manter-se-iam inéditos durante centenas de anos e só seriam publicados nas últimas décadas do século XX.

Entretanto, inúmeros foram os manuscritos que se perderam, foram roubados ou continuam ainda por publicar, arquivados em estantes poeirentas e de difícil alcance.

Dessas cartas, diários, relatos e relações, a maioria foi redigida, não em português, mas em latim, italiano, espanhol, francês, ou mesmo em línguas bem mais divorciadas da nossa, como o alemão ou até o flamengo.

Mesmo durante o apogeu da nossa história, sacrificámos o idioma nacional por deferência a Roma — no caso dos relatos dos jesuítas e religiosos de outras ordens —, ou à coroa espanhola, durante a ocupação dos Filipes. Vem de longe, como se vê, a subalternização do português em favor de outras línguas, sobretudo as latinas. O que não deixa de ser estranho, dado o protagonismo de Portugal na época, embora se saiba que o eixo do desenvolvimento científico, na Renascença, transitou para o seio da Europa e ali ficou. Pois era aí — em Nuremberga, Lovaina, etc… — que estavam os centros de impressão.

Inúmeras seriam as obras produzidas por portugueses que tiveram várias edições, nas mais variadas línguas europeias, antes de serem lidas, em português, pelos compatriotas de quem as escrevera. Portugal foi sempre, nesse aspecto, um país periférico. Muito por culpa nossa. Pois se nos tivéssemos apressado a publicar esses trabalhos, se os tivéssemos divulgado junto da população, quiçá o conhecimento sobre nós próprios fosse hoje uma realidade bem diferente. Exemplos são muitos, daí que tenhamos de localizar o assunto.

Reportemo-nos ao trabalho de jesuítas, no que esta parte do mundo diz respeito. Macau teria um importantíssimo papel divulgador. Na pessoa, por exemplo, do macaense Luís Gonzaga Gomes. Graças a ele seriam publicadas pela editora “Notícias de Macau”, em meados da década de 1950, trezentos anos depois de redigidos, dois testemunhos fundamentais para a compreensão das coisas do Império do Meio do século XVII. Eram eles a “Relação da Grande Monarquia da China”, do padre Álvaro Semedo, escrita em 1638-39, e a “Nova Relação da China” do padre Gabriel de Magalhães, datada de 1668. Esta última obra, curiosamente, tinha sido publicada em Paris em 1688, onze anos após o falecimento do autor, em Pequim. Oportuno, o padre belga Phillipe Couplet viajou de Macau para Europa, depois de ter estado preso em Pequim. Na sua bagagem levava os manuscritos do jesuíta português. Em Roma, o texto acabaria por ser traduzido do português para o francês pelo abade Bernou. Seria tão grande o sucesso da obra que nos anos seguintes conheceria uma segunda e terceira edições, e uma tradução para inglês sob o título “New History of China”, também em 1688.

Em Lisboa, ironicamente, seria publicada, em 1679, não a obra de Gabriel de Magalhães, mas um plágio do seu trabalho intitulado “Vergel de Plantas e Flores”, da autoria do franciscano macaense Fr. Jacinto de Deus, que copiou, frase por frase, partes fundamentais da obra do jesuíta. A fraude só viria a ser descoberta passados mais de dois séculos, em 1911, por Sousa Viterbo, que o denunciou na sua obra “O Oriente Portuguez”. Já nessa altura havia quem vivesse dos créditos alheios…

Quanto ao manuscrito de Álvaro Semedo, concluído em 1637, conheceu a primeira edição em castelhano (1642), várias edições em italiano (1643, 1653, 1667 e 1678) em inglês, (1655), em francês (1645,1667) e em holandês (1670). Provavelmente existirão edições noutras línguas. Em português, só em 1956, e por iniciativa de Luis Gonzaga Gomes. Porém, em 1731, dera ao prelo, em jeito de descargo de consciência, uma edição sintética da obra da responsabilidade de Manoel de Faria e Sousa. Registe-se aquilo que os ingleses sublinham logo após o título da obra de Semedo: «História da Grande e Reputada Monarquia da China… escrita em italiano por F. Alvarez Semedo, um português…. traduzida agora para inglês, por pessoa competente,…. com o objectivo de satisfazer os curiosos e engrandecer o comércio da Grã Bretanha». Sempre presente, o conhecido pragmatismo britânico.

Documento valiosíssimo para o estudo das relações diplomáticas, comerciais e ideológicas entre a Rússia e a China nos finais do século XVII, também o diário do jesuíta Tomás Pereira, redigido em 1689, ficou inédito durante quatro séculos. Até hoje, os estudiosos recorriam ao diário elaborado pelo seu companheiro de jornada, o francês Francis Gerbillon. Esse sim, veria a sua prosa publicada em França ainda no século XVII. Quanto às minuciosas observações do português, teriam de aguardar que o jesuíta norte-americano Joseph Sebbes as ressuscitasse, em 1961, com a publicação do excelente livro “O Diário do Padre Tomás Pereira” que em boa hora o Instituto Cultural deu à estampa.

 

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

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