Ser Transformado

 

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«A Transfiguração» é a passagem da vida de Jesus Cristo que nos é narrada  neste Segundo Domingo da Quaresma. É um acontecimento presenciado apenas pelos apóstolos mais íntimos –  Pedro, João e Tiago – e de características tão particulares e extraordinárias que o próprio Jesus,  «ao descerem do monte, deu-lhes esta ordem:‘Não  conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos.‘» Ao mesmo tempo e pelo mesmo texto,  podemos ainda entender  que  «a Transfiguração»  é como que uma antecipação daquilo que será, mais tarde,  «a Ressurreição ».

Contudo «a Transfiguração» e «a Ressurreição», embora sendo experiências da mesma natureza e ordem, elas, no seu contexto histórico,  revelam diferenças. A primeira acontece a meio da vida pública de Jesus e, depois do sucedido, Jesus e os seus três discípulos preferidos descem  ao vale, entram  na vida normal do dia a dia, convivendo com as pessoas do seu quotidiano. A   segunda, ao contrário, tem lugar ao fim da  vida de Jesus, após a sua morte e, em pouco tempo, Ele, o Senhor, sobe aos céus.

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Somos convidados a seguir o Senhor Jesus! Ele que é «o Caminho, a Verdade e a Vida». Em termos simples, diria que «a Transfiguração»  de Jesus Cristo é, para nós, a afirmação de que há momentos na história da nossa vida  que se tornam únicos, profundamente transformadores e criativos e que nos transportam a níveis da nossa existência de qualidade superior. Algo que, modestamente, podemos afirmar que se assemelha às palavras do texto sagrado quando descreve o Senhor : «O seu rosto ficou resplandecente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz».  Mas, não foi com um «rosto resplandecente» que Moisés apareceu aos seus, depois de ter estado com Deus no monte Sinai?  Não foi Elias arrebatado «em luz e fogo»? Vindo à História da Igreja, quantos santos e santas ou quantos daqueles exímios em virtude que não conseguem esconder, no seu viver quotidiano, ‘o esplendor.. e… o odor de santidade’ de suas vidas ?

 

Na verdade,  há  momentos  privilegiados,  que são capazes de nos levar  a uma profunda transformação da nossa existência, dos nossos comportamentos e até das nossas características ditas temperamentais ou pessoais. Surgem situações na história das nossas vidas que são um verdadeiro ‘turning point’ na orientação do nosso estar neste mundo. Deparamo-nos  com experiências que,  finalmente,  provocam em nós uma verdadeira  «transfiguração» do nosso ‘ser e existir’. Mas, onde está a causa originária que torna possível que todos esses momentos, todas essas situações ou todas essas experiências de conseguirem  «a transfiguração» ou a transformação radical de uma pessoa ?

Voltemos à cena original, no cimo do monte. Num texto paralelo ao do texto deste Domingo, o de São Lucas,  Jesus é apresentado  a falar com dois homens. São eles Moisés e Elias, que, «tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se».  Aqui está a raiz daquela força regeneradora que é capaz de realizar «a transfiguração» de todo o homem ou mulher, sobretudo, de todos aqueles que acreditam no Senhor  Jesus : a Cruz, onde se encarna a Morte e a Ressurreição do Filho de Deus, Jesus Cristo.  Toda a Cruz, levada em nome de Jesus Cristo, apesar de nos fazer passar,  temporariamente,  pelo Sofrimento e pela e Morte – física, moral , espiritual – conduzir-nos-á sempre à «glória» da «Transfiguração»  e da      «Ressurreição ».  Aqui, mais uma vez,  recordo aquela frase do Senhor, tão conhecida, mas tão pouco compreendida e muito menos praticada : «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua Cruz, dia após dia, e siga-Me.»

Para terminar,  a Palavra de Deus  transporta-nos à experiência íntima de Deus, que é, indubitavelmente, o fim último de toda a experiência de «transfiguração» : «Este  é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu enlevo. Escutai-o »

Nós somos, por natureza, seres em contínua transformação. Somos, intrinsecamente, chamados à perfeição.  Somos, divinamente,  motivados a crescer como seres criados ‘à imagem e semelhança de Deus.’ Porém, não parece ser essa a conclusão que se tira ou a impressão com que se fica, quando entramos em muitos ambientes da nossa sociedade de Macau.

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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