O sândalo e a língua do nosso entendimento

FOTO pak tai desta semana (12)

 

  Um jovem da Peace Corps, essa guarda avançada dos interesses norte-americanos mundo fora disfarçada de organização não-governamental, argumentava – numa conversa que teve lugar na Dili Guest House, propriedade do timorense João da Costa, que também era taxista – que não havia razão para que o português fosse adoptado no território, uma vez que quase nenhum timorense dominava a língua. Não foi preciso responder-lhe. Um breve diálogo meu (em português) com o senhor João, com a sua mulher bastante mais nova, com o filho adolescente e a filha de sete anos, foi o suficiente para o desarmar. Mas o rapaz trazia a lição bem estudada, à semelhança de tantos outros, vítimas, conscientes ou não, de uma venenosa campanha orquestrada pelos média australianos tendo em vista desacreditar a língua de Camões. Essa é uma ameaça que vem de longe. Já em Maio de 2002, por ocasião das celebrações do aniversário da independência um artigo de opinião no jornal Age retratava Timor como “um Estado falhado” que herdara “o pior do fascismo português, do autoritarismo indonésio e do pós colonialismo marxista moçambicano”. Em Dezembro desse ano, na sequência dos motins na capital, a imprensa australiana voltava à carga, denotando uma redobrada ignorância acerca do sistema político e da sociedade timorense, com uma série de artigos que seriam reproduzidos nas páginas em inglês do jornal local Suara Timor Lorosae, contribuindo assim para a difusão de equívocos em todo o país. E o terreno era fértil, pois a ausência de efectivos meios de comunicação e de um sistema de transportes decente – que a ONU falhou em implementar –  propiciava a isso mesmo.

Aproveitando o embalo da conversa na pensão do senhor João, elenquei alguns factos históricos, começando por lembrar o rapazinho ianque que o período histórico de Timor começa precisamente com a chegada dos portugueses, em 1515, sendo então introduzida a escrita – do português, claro está – naquela que era até então uma sociedade animista de tradição oral.

Além do sândalo, o mel e a cera eram outros produtos locais bastante apetecíveis, trocados por objectos em algodão e metal, facas, espadas e machados. A ilha passaria a ser regularmente visitada por navios lusos, embora durante várias décadas não fosse considerada como um mercado abastecedor de Malaca. O panorama alterar-se-á após a segunda metade do século XVI, com a fundação de Macau. A China, via Macau, passa então a ser o principal consumidor de madeira de sândalo. Curiosamente, todo esse trato decorreu sem que houvesse qualquer estabelecimento estável de portugueses na ilha que, após a queda de Malaca (1641), começa cada vez mais a gravitar em torno da órbita da Cidade do Nome de Deus.

No Livro de Monções da Índia estão compilados uma série de documentos que nos elucidam acerca dessa íntima relação. Num decreto de 3 de Maio de 1672, o vice-rei Luís de Mendonça Furtado e Albuquerque “nomeia António Barbosa Lobo para capitão-general da cidade de Macau” lembrando que todo o procedimento “deve ter em conta o perigo holandês” e a importância das “viagens para Manila, Timor e ilhas associadas”. Numa missiva datada de 12 de Setembro desse mesmo ano, enviada ao vice-rei da Índia, o Príncipe Regente Dom Pedro menciona os “navios de André Pereira Reis indo para Macau”, mostrando satisfação com a nomeação do “mestre de campo Manuel de Melo como Capitão Geral das ilhas de Timor e Solor”.  Enviada a 10 de Dezembro de 1695, uma carta do vice-rei da Índia ao rei de Portugal explica “por que razão não se devem entregar as viagens a Solor e Timor aos residentes de Macau”, e numa outra, datada de 15 de Dezembro de 1698, coloca a possibilidade de “deixar o comércio de Macau, Timor e Solor” para a Coroa Portuguesa, que assim teria exclusividade nesse trato.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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