O Sopro de Pak Tai: Memória oriental em Guararapes

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Ao chegar ao terminal rodoviário do Recife, de manhã bem cedo, lá estão, o primo Fernando e a prima Ana, como se nunca tivessem regressado a casa desde que os deixei, neste preciso local, já lá vai uma década. O Fernando, pai da Ana, um entusiasta pela história, certamente já não se recorda o que então me dissera, pois volta a dizê-lo, um facto atrás do outro, um número após outro, tal é a paixão que nutre pela sua terra.

“Aqui nasceu o Brasil”, está escrito nalgumas placas desta zona da cidade, como que a corroborar a dedicação e empenho deste meu primo em segundo grau.

Os pernambucanos orgulham-se da derrota que infligiram aos holandeses, em 1648, na famosa batalha de Guararapes (que faz lembrar o feito de Aljubarrota), num local assinalado hoje por um miradouro e uma maqueta onde o episódio é retratado num cenário em miniatura. Este é um excelente posto de observação para quem, como eu, gosta de ver levantar e aterrar os aviões.

 

Expulso o invasor holandês, as ordens religiosas regressaram em força, prontas a restaurar os antigos conventos e mosteiros e, claro, a erguer mais e mais igrejas. A que me suscita mais interesse, surgiu de uma iniciativa dos franciscanos que a dedicaram a Santo António, mesmo ao lado de um convento que já exista em 1606.

A principal preocupação de Fernando passa a ser levar-me a esse local. O dia está magnífico, mas na mente do comum dos brasileiros paira, como sempre, o receio das ruas vazias.

– É sábado, papai – alerta Ana – é melhor irem lá durante a semana. Agora é perigoso. Está cheio de vagabundo. Ainda são assaltados.

Pese o exagero, Ana tem alguma razão. Passear no Recife com uma máquina fotográfica profissional a tiracolo, mesmo em pleno dia, é estar a pedi-las. Mesmo assim, dirigimo-nos para o nosso destino. À entrada sentam-se inúmeros mendigos, aguardando esmola.

– Não se sabe de onde vêm nem para onde vão, mas estão cá sempre na época de Natal ou da Páscoa – comenta o primo Fernando.

 

Uma vez no interior do templo, travamos conhecimento com o frei Salvador Macedo de Oliveira, que está na Ordem há cinquenta e quatro anos.

– Pode fotografar à vontade – convida o simpático frade, aproveitando para me chamar a atenção para o avançado estado de degradação dos azulejos do claustro.

– O salitre está a destruí-los – comenta.

Não precisava de o dizer, o facto salta à vista. Há até secções onde esses azulejos, fabricados em Portugal no reinado de D. João VI, já caíram. Quando lhe pergunto se há algum projecto de restauro previsto pelo IPHAN ou por alguma entidade portuguesa, frei Salvador desabafa:

– Até agora ainda não vi nenhum português chegar aqui, não.

 

No convento de Santo António vivem doze frades, entre brasileiros e alemães. Um deles conversa com Fernando enquanto eu me entretenho a fotografar. De tempos a tempos, o franzino frade, irrequieto e sempre sorridente, dá-me algumas indicações. Conduz-me por um corredor até uma das portas de saída do convento.

– Debaixo das pedras deste corredor foram enterrados muitos frades portugueses, assassinados durante um ataque holandês – diz.

Reparo que a porta, de cor verde, tem barras de ferro, para a tornar mais resistente. Pelos vistos, de nada valeu.

O conjunto de azulejos no interior retrata cenas da criação do mundo e está em muito melhor estado que o do claustro. Todo o mobiliário da sacristia é feito em madeira de jacarandá. Frei Salvador destaca a pia baptismal, um cadeirão de estilo D. João V e um bonito e compacto armário com dezenas de pequenas gavetas.

– Era aqui que os frades guardavam os seus pertences – comenta.

Indica ainda uma pesadíssima mesa colocada no meio da sacristia a que chamam “mesa de bolacha”, devido à forma torneada da madeira na sua base.

Minutos depois, sob as arcadas do claustro, vejo-o receber um donativo de uma senhora ainda jovem.

– É a mulher do prefeito – segreda-me ao ouvido o primo Fernando.

 

É tempo agora de visitar a capela do convento. Os azulejos nas paredes laterais representam a vida de Santo António e os ladrilhos pequeninos no tecto abobadado foram colocados pelos holandeses.

– Descobriram isso recentemente – informa frei Salvador, que, antes que partamos, faz questão de lançar um apelo em frente da minha máquina de vídeo. Lembra ao “nosso querido Portugal, nossa mãe, que veio de lá para cá, descobrindo esta terra maravilhosa de Santa Cruz” a sua obrigação “para salvar toda a história do azulejo do Brasil que pertence totalmente a Portugal”, concluindo, em jeito de bênção, que “há que procurar o mais rápido possível soluções de restauro e de vida, ámen”.

 

A Igreja da Ordem Terceira fica colada ao convento de Santo António, o Imperador, mas a sua administração é feita separadamente.

– As Ordens Segunda e Terceira estão sob a nossa protecção espiritual – atira o frade, à laia de despedida.

 

A decoração interior, da autoria de António Santiago, é unanimemente considerada pelos especialistas da história da arte «a mais importante obra de talha do espaço português». Nas paredes laterais podem ser apreciados vistosos retábulos. A pintura é, aliás, a componente predominante, e uma vez mais deparo com temas alusivos ao Oriente, desta feita alguns quadros que contam a história dos franciscanos martirizados no Japão, e o retrato de um povoação chinesa que pode ser identificada com Macau, embora isso não possa ser confirmado.

– Consta que no tempo áureo do açúcar vieram até cá artistas orientais para fazer estas pinturas nas igrejas – diz-me em voz baixa o primo Fernando, também ele um aficionado pela História.

 

Antes que o dia termine há que regressar a Joabatão de Guararapes, “o local onde a identidade brasileira se afirmou pela primeira vez”, e onde nos espera uma refeição quente preparada pela prima Lúcia, a mulher do Fernando.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

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