As cidades de Marco Polo

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As fronteiras sempre separaram homens e culturas. Ao contrário dos portos, onde as águas traziam e levavam navios, saberes e línguas diferentes, produtos desconhecidos e amores sonhados. Talvez por isso tenho um grande fascínio pelos grandes nómadas que ultrapassaram rios e montanhas, oceanos e desertos, florestas e desfiladeiros, em busca de um qualquer sonho. Marco Polo é um desses homens que tentaram vislumbrar o que se escondia por detrás da linha do horizonte. Queria agarrar o desconhecido sem nunca esquecer as raízes da sua vida. Talvez por isso nas “Cidades Invisíveis”, esse fantástico romance de Italo Calvino, à volta de um sonho, Marco Polo sempre que descreve uma cidade evoca algo que o faz lembrar Veneza.

Há quem ainda duvide da presença de Marco Polo na China entre 1275 e 1292, trabalhando como agente do regente mongol Kublai Khan. Mas que é isso contra o peso do mito, da simbologia que o tornou o mensageiro entre o Ocidente e o Oriente? Nada. As suas viagens, transcritas em livro, são o primeiro olhar de um ocidental que disse ter vivido na China.

Pensemos no tempo em que Marco Polo esteve na China. Foi antes dos Descobrimentos. Marco Polo surge como um pioneiro na história da aventura, da viagem e da exploração europeia da Ásia. Algo que foi e não foi ao mesmo tempo. A sua peripécia foi a de um mercador veneziano que procurava abrir novas rotas e novos centros para os seus interesses comerciais. No seculo XIII, quando decorrem os acontecimentos relatados, Veneza era uma cidade-estado, cujo porto no Adriático fazia dela uma potência marítima, comercial e militar voltada para o Oriente. A velha existência da Rota da Seda tentava os comerciantes venezianos a ampliar a sua atenção nessa direcção, tanto mais que a quarta cruzada – entre 1202 e 1204 – em que participou Veneza, tinha terminado com a sangrenta tomada de Constantinopla, ponte para o Oriente.

Em Constantinopla tinham negócios os mercadores Nicólas e Mateo Polo, pai e tio de Marco que, partindo em 1269, fizeram a primeira viagem até ao centro da Ásia e até à China, permitindo-lhes entrar em contacto com o lendário Kublai Khan (1215-1294), neto de Gengis Khan, a quem faltavam 10 anos para ser o imperador dos chineses e dominar a quase totalidade do continente. Kublai queria conhecer os latinos – não só os de Veneza – e fazer comércio com eles. Voltando a Veneza, os Polo iniciaram uma segunda viagem e levam consigo Marco, que tem apenas 17 anos. Estamos em 1271. Marco permanecerá na China e na Ásia mais de 20 anos. O grande protagonista do livro de Marco é Kublai Khan e o resto das aventuras têm a ver com as missões que o imperador destina a Marco. Este torna-se uma espécie de embaixador, mensageiro, inspector e investigador de Kublai. Marco conta o que vê e o que vive. Sobre aspectos geográficos, históricos, políticos, bélicos, culturais, religiosos, sempre com Kublai e o seu império no centro. Kublai não queria que Polo regressasse a Veneza, mas este não resiste às saudades. O livro sairia em 1298, depois de Marco o ter ditado a Rustichello de Pisa, durante a guerra ente Génova e Veneza, onde foi feito prisioneiro. Morreria em 1324 com 69 anos, mercador e membro do grande conselho da cidade. A geografia do comércio, que tanto fascinou os portugueses antes da hegemonia da lógica da fé, estava espelhada no sonho de Marco Polo.

Não deixa de ser curioso como um dos períodos maiores do Orientalismo – quando o fascínio pela China despontou – tenha sido o século XVI. Quando o comerciante e soldado Pereira foi capturado, dando-nos o primeiro olhar desde Marco Polo sobre o interior do poder chinês. Os cruzamentos entre Veneza e Lisboa não terminam aí. A ascensão do império português acaba por motivar o declínio comercial (e financeiro) de Veneza e de outras cidades-estado italianas. Uma nova rota marítima substitui as velhas linhas de conexão entre Ocidente e Oriente. Mas o comércio da Rota da Seda não acaba. Adapta-se, como sempre aconteceu ao longo dos séculos. Onde novos Marcos Polos ou Pereiras foram em busca do seu sonho.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor dos romances “O Segredo do Hidroavião” e “As Jóias de Goa”. Escreve neste espaço uma vez por mês.

 

 

 

 

 

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