Amar os Inimigos

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Em  tempos como os nossos, nos quais se apregoa tanto a individualidade de cada um e, entre as nações, se afirma, vigorosamente, a autonomia e soberania de cada país, não nos surpreende, por um lado, o quão fácil é aparecerem disputas territoriais entre povos vizinhos e, por outro, a nível pessoal, o quão frequente se torna presenciar cenas de agressividade ou  de outros comportamentos excessivos por alguém se sentir ofendido ou ofendida nos seus direitos, na sua dignidade. Com pena e tristeza e, provavelmente, dominados por um sentimento de impotência, contemplamos essa realidade. Porém,, mais perplexos ficamos, quando o Evangelho deste Sétimo Domingo do Ano Litúrgico, nas palavras do Senhor,  nos chama ainda a : «Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem». Quase exclamamos como aqueles que ouviam S. Paulo a proclamar «Cristo Crucificado». Isto não passa de uma « Loucura… Insensatez».

A via da «Misericórdia», do «Perdão» e do «Perdoar aos nossos inimigos» é algo que transcende  a nossa  inclinação instintiva,  ultrapassa a reacção  imediata da nossa «carne», que o próprio Jesus Cristo descreve como: «Olho por olho e dente por dente». Ela vai ainda muito mais  além do dito ‘socialmente correcto’: «Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo». E aí, o Senhor torna-se muito claro e não deixa dúvidas : «Se amardes aqueles que vos amam,  que recompensa  tereis ? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o  fazem também os pagãos»?

O convite de Cristo quando diz «Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem» coloca-nos a um outro nível «para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus». Portanto, Ele transporta-nos a uma experiência de vida para além do natural e instintivo; para além do moral e social; lança-nos, enfim,  no mundo da vivência espiritual e no horizonte divino. Assim, podemos compreender as últimas palavras do Mestre neste texto: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito.»           

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Pôr em prática o que o Senhor Jesus nos ensina ao pregar «Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem» é uma exigência radical da vida cristã e, particularmente, de todo aquele ou de toda aquela que deseja caminhar nas sendas da santidade.

Por mais incrível ou até por mais contraditório que nos possa parecer, a compreensão mais íntima deste apelo de Jesus de «amar os inimigos» poderá ter uma dimensão pedagógica de valor incalculável.  Isso, mais uma vez, graças ao melhor conhecimento da inter-relação entre o humano e o divino: a graça de Deus trabalha, normalmente, em íntima união com a natureza humana.

Aprendemos, cada vez mais e com mais certeza científica, que a pessoa humana projecta-se a si mesma, tantas vezes inconscientemente e sem cair na conta,  nas pessoas com quem se encontra ou vive;  em determinados momentos, com condicionantes muito características às quais ela é mais sensível e em circunstâncias muito particulares e bem definidas. Projecta aquilo que foi o seu passado,  a sua  história de infância, adolescência e juventude. Projecta dores e alegrias. Projecta angústias que, com frequência, são dores profundas e penetrantes que jazem e dormem ainda num coração inocente.

Tomemos a realidade do «Inimigo» como todo aquele que nos quer fazer ou, verdadeiramente, nos faz mal, magoa e fere. É um facto objectivo. É inegável. É uma verdade indesmentível.  Sim, todo o meu  ‘ser’  me afirma a sua existência. Todas as minhas capacidades de ‘ser humano’  mo comprovam, sem dúvida alguma. Contudo, num caminho de maior  «perfeição» e diante do nosso «Pai celeste»,  não poderá o dito «inimigo» ou tal ‘situação crítica’, tão cheia de maldade, ser um desafio muito concreto, fino e específico à minha maneira actual de viver, onde ainda há muito espaço para poder  melhorar?

Direi, antes de mais, melhorar de comportamento, no caminho da virtude, por exemplo, ser paciente, ser bondoso, ser amigo de todos, sem distinção, ser forte e firme, ser íntegro, ser corajoso e audaz, e, acima de tudo, ser humilde.

 

Mas, indo mais fundo. Com o conhecimento que agora temos do fenómeno da ‘projecção’, descobrimos que, muito mais daquilo que reconhecemos e, honestamente, aceitamos, tantos daqueles «Inimigos» que nos aparecem, no dia a dia, vêm das profundidades das nossas próprias ‘angústias’,  oriundas do nosso passado. Sejamos claros! Não se nega a existência objectiva de «Inimigos », de pessoas más, maldosas que nos querem mal, que nos perseguem, que nos querem destruir … Só quero dizer que, muito mais do que podemos imaginar e aceitar, esses momentos em que experimentamos «os Inimigos » revelam também aqueles outros acontecimentos da nossa infância ou adolescência ou juventude que não estão ainda integrados e que aí, no íntimo do coração,  permanecem como fogo de vulcão que quer explodir.

Aqui está o segredo do «Amai os vossos inimigos». Aquelas pessoas ou situações que eu apelido de «os Inimigos» podem, de maneira surpreendente,  tornar-se ‘companheiros’ e ‘amigos’ no caminho da minha «perfeição». Eles denunciam e  indicam-me os lugares, os pontos onde estou, pela dor do passado, preso, bloqueado e  limitado no desenvolvimento harmónico da minha personalidade e da minha vida.

Afinal aquelas pessoas que eu denomino de «os Inimigos », sem saber,  tornam-se para mim ‘companheiros’ e ‘amigos’ no meu caminho de «perfeição». Então, poderei, felizmente,como o Senhor Jesus me pede, viver o Seu mandamento:       «Amai os vossos inimigos».

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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