Crise da democracia e pensamento conservador

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Um dos sinais da degradação da vida política em democracia é a falta de verdade na palavra dos políticos. Usa-se a retórica para convencer os eleitores a votar em determinado candidato ou partido e depois rapidamente se esquece o que não é conveniente ou oportuno fazendo exactamente o contrário.

Esta viragem é usualmente qualificada como adaptação dos programas políticos à realidade da governação, o que visto de per si não é negativo uma vez que revela o aspecto prático de ajustamento das teorias às exigências da vida governativa. Preocupante é quando esse prometer uma coisa e fazer o contrário passa a regra por tacticismo e calculismo. Desacredita-se por essa via a democracia e as instituições democráticas que deveriam ser, na feliz definição de Abraham Lincoln, o governo do Povo, pelo Povo e para o Povo. Criam-se ‘ex vi’ as condições para a emergência de políticos populistas que vendem ideias de ruptura com o status quo,  e apostam em mudanças significativas numa lógica de ‘nós e os outros’.

Um erro comum de análise reside em dizer-se que as pessoas foram enganadas e não sabiam o que faziam quando votaram no político x ou y que a opinião ‘mainstream’ considera de execrável, ‘fascista’ ou racista. É confrangedor, senão demagógico, dizer-se que os eleitores são estúpidos porque não seguem a linha de opinião dominante que a intelectualidade, os media e as redes sociais consideram a única possível.

Essa guindagem da opinião dos eleitores para candidatos que se acharia não há muito tempo improváveis, significa apenas que as pessoas estão cansadas de políticos tradicionais que prometem uma coisa e fazem outra, que se aproveitam das funções de representação para enriquecer, beneficiar as suas fundações ou acumular mordomias e privilégios. E optam por políticos atípicos que lhe dizem o que querem ouvir, sem “maquillage “ou rímel. Daqui emergem fenómenos políticos como Donald Trump, Marine Le Pen ou Rodrigo Duterte.

Porque é que isto acontece? A razão reside, por um lado, na preguiça dos que se julgariam mais capazes para darem uma opinião abalizada mas seguem o impulso mais imediatista, o lugar mais comum em detrimento de uma análise responsável. Todos os eventos políticos são apenas compreensíveis de acordo com as circunstâncias e o processo histórico. Não há nada que aconteça por acaso ou passe a gíria ‘caia do céu aos trambolhões’. Todos os eventos têm as suas causas e explicações, mesmo que discordemos delas.

Desde o fim da Guerra-Fria – ou mais precisamente desde o fim do mandato de Ronald Reagan – instalou-se na opinião escrita e televisionada a convicção que os países só podem ser governados legitimamente à esquerda, com base numa ideologia liberal, amiga dos direitos fundamentais, defensora de um Estado fortemente redistributivo, adversa da economia de mercado e da acumulação da riqueza e protectora de sindicatos e de minorias sejam elas os grupos de emigrantes negros, paquistaneses ou árabes ou os coloridos grupos LGBT. Esta ideia passou a ter grande impacto na comunicação social e na linha editorial das redacções, triando a emissão de notícias e catalogando os agentes políticos de acordo com rótulos destinados a enaltecer uns e a demonizar outros.

Mas a realidade da vida é mais complexa que os partidários da “grande engenharia social” admitem. As pessoas continuam a formar as suas opiniões de acordo com as suas prioridades e desejos de felicidade familiar e comunitária, veiculando-as para o voto. No seio das pequenas comunidades e fora dos grandes centros urbanos acumulam-se intranquilidades e medos com a invasão de estrangeiros que têm hábitos de vida diferentes dos das comunidades autóctones, que falam outras línguas, que praticam outras religiões e costumes, que têm um tratamento diferenciado para com as mulheres e que abalam a maneira de viver dessas sociedades. Beneficiando de programas e apoios sociais criados por políticas de esquerda, esses grupos minoritários passaram a ser vistos por largos sectores da população como privilegiados e uma ameaça à coesão e sobrevivência dessas comunidades. O seu contributo por impostos para o conjunto da sociedade é mínimo, senão inexistente.

Ignorar a complexidade destes fenómenos que alimentam o racismo, a xenofobia mas também a complacência tola com o folclore multiculturalista tem sido a posição preponderante na comunicação especializada. Mas ao contrário do que se diz, existe um forte pensamento conservador na tradição europeia e que remonta a autores como Edmund Burke, Joseph de Maistre, Leo Strauss, Alan Bloom ou Michael Oakeshot. Pensamento que defende uma postura de prudência quanto à tentativa de separarmos a politica hodierna das raízes históricas das sociedades ou de mudarmos as tradições e as instituições herdadas só pelo prazer de mudar. Trata-se de uma corrente de opinião igualmente legítima que defende a fidelidade à tradição, à comunidade, às hierarquias sociais e à existência de classes sociais diferenciadas como expressão de uma sociedade sã. Uma corrente que coloca a ênfase na responsabilidade pessoal, na economia de mercado, no direito e na ordem, em políticas benevolentes com os mais desfavorecidos. Uma ideologia que diz mais valer manter o que existe e ir corrigindo, pouco a pouco, do que apostar em mudanças radicais e súbitas que põem em risco os ténues equilíbrios existentes em democracia.

Desconhecê-lo significa desconhecer de todo porque os eleitores escolhem políticos aparentemente improváveis.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.

 

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