O Sopro de Pak Tai: Rocha, Espinha e a vasta Tartária

 

FOTO Pak Tai desta semana (11).jpg

Não há quinhão do continente asiático que não tenha uma ligação qualquer, por mais ténue que seja, ao território de Macau. É também o caso da Mongólia Interior, uma das regiões menos visitadas da China, embora aí possamos encontrar bonitos lagos (Ulansuhai Nur é particularmente belo), aldeias acolhedoras e um centro histórico, na capital Hohot, que me surpreendeu pela positiva, já para não falar da simpatia dos seus habitantes, que pede meças com as relíquias arquitectónicas que ainda restam e atestam o seu passado imperial.

Quando se fala na história da Expansão Portuguesa, invariavelmente se imaginam naus enfrentando vagas alterosas atiçadas por borrascas ou totalmente estagnadas nas calmarias da região equatorial. Mas o certo é que não raras vezes os navegadores abandonaram as embarcações para se aventurarem terra adentro. Esses destemidos pioneiros, no caso asiático maioritariamente religiosos jesuítas, inauguraram uma nova era: a era da observação científica. Não obstante, as enciclopédias da actualidade ignoram-nos por completo. E por que será? Provavelmente por desconhecimento dos factos e/ou mero desprezo por uma nação e um povo aos quais nunca foi reconhecido o seu real valor no palco da História.

Félix da Rocha, missionário preparado em Macau “nos mistérios das muitas chinas”, foi um dos pioneiros da região actualmente conhecida como Mongólia Interior. Nascido em Lisboa a 31 de Agosto de 1713, optou pela missão da China após oito anos de estudos – quatro de filosofia e quatro de teologia. Entrou no Continente em 1735, após ter frequentado o seminário de Macau, tendo ingressado posteriormente na corte de Pequim, em 1738, onde foi astrónomo. Cedo caiu nas boas graças do imperador que via nele um homem de muita ciência e virtude. Em 1753 é nomeado, pelo imperador Qialong, assessor do Tribunal das Matemáticas e passou a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim. Em 1755, como recompensa por ter, com a ajuda do padre Pedro Espinha, mapeado as regiões do Turquestão e da Tartária, habitadas pelos elutos e torgutes, o imperador nomeia-o mandarim de segunda ordem.

Na Hohot de hoje, num desafio à tirania do tempo, há ainda quem carde algodão em plena rua e quem venda fresquíssimas maçãs vermelhas nas ruelas dos bairros interiores onde grupos de crianças improvisam balizas em portões de pátios fechados, e ocultam mesas de bilhar instaladas em frente às minúsculas padarias dos Hui, chineses muçulmanos, mestres no sector da panificação. A modernização não se compadeceu do passado histórico, embora em todo este processo nem tudo se perdeu. Os habitantes de Hohot parecem sentir imenso orgulho nas profissões que exercem e demonstram-no, recebendo o forasteiro de bom grado, sempre dispostos a posar para a fotografia. Ele é latoeiros, fabricantes de chaves, sapateiros, carpinteiros (responsáveis pelas bonitas janelas, alpendres e ombreiras que abundam no casario de um ou dois pisos), construtores de gaiolas…

Exemplo de comunhão de credos, Hohot reune num só bairro, templos budistas, taoístas, mesquitas e até uma igreja católica, vestígio último da passagem dos jesuítas formados em Macau. Mas a estrela local é o templo Xilitou Zhao, terreno priveligiado de manifestação de um Buda vivo, o décimo primeiro. De estilo chinês, com ténues influências tibetanas, a actual estrutura de Xilitou Zhao, remonta ao século XIX, pois a original ardeu centenas de anos antes, à semelhança, de resto, do que aconteceu com muitos dos edifícios religioso.

O padre Félix da Rocha regressaria, com Espinha, desafiando perigos sem conta, a esta inóspita região para terminar o seu trabalho: observar a latitude, deduzir a longitude, as curvas orográficas e as distâncias. No total foram determinadas quarenta e três posições geográficas. Foram os dois primeiros europeus a percorrer tais paragens, desde que nela andara, século e meio antes, Bento de Góis na demanda do Cataio.

Por duas ocasiões, em 20 de Agosto de 1774 e em Março de 1777, Félix da Rocha seria enviado ao pequeno Tibete, Tibete Oriental, recentemente anexado ao império chinês, com o objectivo de traçar o mapa de toda aquela região.

Os mapas de Félix da Rocha e de Pedro Espinha serviriam de base aos estudos e mapas sobre a Ásia Central, hoje mundialmente conhecidos, efectuados por Klaproth, Ritter e Alexander von Humboldt. Que, como sempre acontece nestas coisas, ficaram com todos os louros, relegando para o esquecimento os pioneiros portugueses.

Em 1770, o jesuíta Cibot escrevia, a propósito, o seguinte: “Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais”.

No ano de 1750, em carta enviada a D. Policarpo de Sousa, bispo de Pequim – que aportara a Macau, vindo de Portugal, em 1726 –, Félix da Rocha desabafava: “Eu sou o da Vice Província o mais velho na missão dos que se acham em Pequim, porque todos os padres que aqui achei, excepto sua Exa., já lá vão para outra vida e nenhum desde que cá estou, tem servido mais por neves, frios, perigos e consumições do que eu, mas como tudo é por Deus, só dele terei o prémio, como espero na Sua Divina Bondade...”

O padre Rocha ocupou o cargo de procurador da missão portuguesa em Pequim, e de vice provincial em 1754–1757 e de 1762 a 1766, e a sua intervenção foi preponderante para que os prisioneiros portugueses em Nanquim – padres Araújo, Viegas, Pires, Dinis Ferreira e José da Silva – fossem libertados e pudessem regressar a Macau.

Félix da Rocha morreu em Pequim, a 22 de Maio de 1781.

 

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigação da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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