Contra a maré

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Em campanha eleitoral, assim, se apresenta  a situação em qualquer país, grande ou pequeno,  do nosso mundo,  na hora de escolher os seus governantes: exaltam-se  os ânimos, crispam-se as palavras, surgem ameaças entre a multidão. Todos e cada um, entre os candidatos,  afirma vigorosamente o seu  ponto de vista, o seu ‘programa’, a sua visão política de ‘salvação  nacional’. Perante tal situação que presenciámos não há ainda muito tempo e que continuará estar muito presente, neste ano de 2017,  ler o Evangelho deste Sexto Domingo do Ano Litúrgico deixa-nos quase perplexos, para não dizer confusos. O Senhor proclama: «Não matarás. Não cometerás adultério. Não faltarás ao que tiveres jurado.»

É que, face a situações,  moralmente,  muito graves, como aquelas que o texto evangélico nos descreve, e que, igualmente, serão incluídas, mais ou menos explicitamente, em qualquer ‘programa’ de Governo, Jesus Cristo como que responde de uma maneira desconcercante.  Ele convida-nos a ir, antes de mais,  à raiz do problema. Não ficar só em soluções do imediato, ditas pragmáticas e de acordo com a lei. Há que ir mais longe. É no íntimo do coração humano onde se alojam as inclinações que levam,  homem ou  mulher, a  praticar o mal. Ele mesmo dirá noutra altura: «O  que sai do homem é que o torna impuro, porque do interior dos homens é que saem as más intenções: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».  Resposta  perspicaz e exigente !

Mas acredita o homem e a mulher do século 21 que têm dentro de si ‘a razão de ser’ de si mesmos e ‘a razão de ser’ da sua própria existência? Estão eles, homem e mulher, conscientes do que é a ‘natureza humana’ na sua verdade e profundidade ou  do que significa ‘ser humano’, ‘ser homem’, ‘ser mulher’?  E que tem,  intrinsecamente,  em si a  capacidade na sua consciência de discernir o que é ‘o bem e o mal’?

Todos estes assuntos tão fundamentais, quão essenciais sobre a nossa Humanidade tornam-se cada vez mais, diria, uma ‘questão civilizacional’  Iniciamos o Terceiro Milénio com uma ‘crise do ser’. O mundo e ‘a sociedade do ter’ está a estoirar por todo o lado. O ‘sistema económico-financeiro’, sôfrego do ‘ter pelo ter’ transformou-se numa ‘imoralidade institucionalizada’ para explorar ‘os pobre entre os mais pobres’. Vejamos a podridão do ‘sistema bancário’ Tanta corrupção!  Quanta roubalheira! São já os próprios investigadores e peritos sérios das ciências económicas e financeiras que, com vergonha, denunciam o mal.

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Diria que Jesus Cristo, Mestre e Senhor, perante esta ‘crise de ser’ e ‘crise de valores’ da Sociedade de hoje, como que nos chama a ter a coragem de remar ‘contra a maré’. Há que encetar um percurso novo e diferente, mesmo que seja ‘estreito’, ‘um caminho interior’, capaz de nos levar a redescobrir a  verdade, a bondade e a beleza original de ‘ser homem’ e de ‘ser mulher’ e construir  um Mundo de paz, justiça e solidariedade.

Por  isso a necessidade urgente de voltar  ao ‘coração’ e à ‘pedagogia do coração’ como o Senhor Jesus nos ensina no texto de São Mateus, com três exemplos: «Não matarás. Eu, porém digo-vos: Todo aquele que se virar contra o seu irmão será submetido a julgamento.»

             «Não cometerás adultério. Eu, porém digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos, já cometeu adultério com ela no coração.»

            «»Não faltarás ao que tiveres jurado. Eu, porém digo-vos que não jureis em caso algum. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim. Não,  não’. O que passa disto vem do Maligno.»

As leis e os tribunais aumentam, mas será que cresce a segurança e o bem estar entre a população? Perguntem aos habitantes das grandes capitais dos países, chamados desenvolvidos, depois das oito da noite. As instituições e organizações sociais, filantrópicas e caritativas  proliferam. Mas  não há gente a morrer de fome e sede pelo mundo fora? As empresas multinacionais expandem-se na proporção dos multimilionários que aparecem  nos rankings mundiais. Porém, quem é que está a destruir a natureza a passos gigantescos e catastróficos,  se não as companhias mineiras e das madeiras? Qual é a origem das transformações e desequilíbrios climatéricos do nosso planeta?  Por fim, e essas associações e movimentos em que a globalização continua a  ser uma via maquiavelicamente  engadora para explorar os mais fracos?

O nosso fazer, o nosso pensar  e o nosso sentir precisam de ir mais fundo e para mais além do mundo do ‘ter’ e do ‘possuir coisas e bens’. Precisam de tocar o nosso ‘ser’ que em nós procura transcender-se, e experimentar aquele ‘ espírito divino’ que em nós habita desde a nossa concepção como seres humanos.

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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