Chegou o galo, que saiam os muros

 

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Entra-se no metro, cheio como sempre, e entre a multidão há lenços vermelhos à volta de muitos pescoços. Ouvem-se as conversas e fica-se a saber que a avenida Almirante Reis tem o trânsito cortado entre os Anjos e o Martim Moniz. “É por causa da festa dos chineses”, diz uma senhora, aborrecida por ter tido de trocar o autocarro pelo transporte subterrâneo. Já à superfície, a “festa dos chineses” está cheia de portugueses, e de gente do Bangladesh, do Paquistão, de Moçambique, de muitos outros sítios. E de chineses, pois claro, afinal o que se celebra é a chegada do novo ano lunar, este ano sob a égide do Galo. Celebra-se com uma semana de antecedência, talvez para permitir que os chineses que possam fazê-lo regressem à sua terra natal para a tradicional visita familiar. Em Lisboa, já se tornou um hábito e ninguém reclama pela antecipação da data. No Martim Moniz, um palco rodeado de barraquinhas organizadas por várias associações culturais e cívicas da comunidade chinesa de Lisboa aguarda a chegada do desfile que ainda vem a meio da Almirante Reis. Há crianças vestidas de galo, e nem todas são chinesas, e há centenas de pessoas celebrando uma festa que começa a ser da cidade e já não apenas de uma comunidade. A Dança do Dragão reúne as atenções de quem se arruma nos passeios e vai vendo passar os alunos das várias escolas que, em Lisboa, ensinam mandarim, as associações culturais, os grupos organizados no seio da comunidade chinesa que partilham, deste modo, um pouco da sua herança cultural. Como em todas as grandes festas, transformadas em fenómeno de agenda cultural depois de terem sido espaço reservado a quem as conhecia e sentia como suas, o negócio marca presença e são muitas as marcas e os serviços que aproveitam para se divulgar. Há folhetos de escolas de línguas, anúncios de restaurantes que servem dim sum e cachecóis azuis omnipresentes com o logotipo do Haitong Bank, patrocinador principal da festa, com direito a discurso ao lado das autoridades e dos representantes da comunidade chinesa. E entre animais do zodíaco chinês e várias danças do leão, um rancho folclórico vindo da Figueira da Foz.

No palco, um desfile de canções e danças chinesas, aqui e ali partilhado com um fado ou um medley de músicas tradicionais portuguesas. E uma amostra da Ópera de Sichuan e do seu espectacular número da mudança de rosto, a deixar sem fala a audiência do largo do Martim Moniz. As celebrações do Ano Novo Chinês passaram a fazer parte do ano lisboeta. Se há uns anos só dávamos pela mudança do ano lunar pela presença de envelopes vermelhos e panchões a fingir nos supermercados da Rua da Palma, agora as lanternas vermelhas começam a anunciar a data com dias de antecedência e já é certo que uma parte da cidade pára para receber o ano que começa em grande. A senhora aborrecida com a ausência de autocarros na Almirante Reis pode não ter pensado nisto, mas a festa que anualmente chega ao Martim Moniz é um momento de esperança entre os dias pesados que vamos vivendo. Talvez a celebração de um novo ano lunar só seja verdadeiramente importante para quem segue esse calendário, e pode ser que tanto vermelho nas ruas não seja auspicioso para quem não reconheça na cor semelhante poder, mas vermos uma cidade parar para acolher uma festa que, até agora, não era sua é um modo de acreditar que alguma coisa boa há-de sobreviver a ordens de fecho de fronteiras, vistos negados, refugiados morrendo às portas da Europa ou de qualquer outro lugar que um dia pareceu porto de abrigo. Talvez, também, os discursos políticos que antecederam a matiné musical no Martim Moniz tenham sido apenas discursos de circunstância, mas soube bem ouvir o representante da Assembleia da República Portuguesa (Jorge Lacão, neste caso) lembrar que acolher quem vem de fora é um gesto essencial num mundo que se quer habitável, e que muros não são a melhor forma de estarmos nesse mundo, ou o representante da comunidade chinesa dizer que se sente bem em Lisboa. Sim, sabemos que há mais do que amizade nestes encontros institucionais, e nem era preciso ouvir o senhor do banco chinês para o perceber, mas há algo mais. Tem de haver, ou não teríamos tantos lisboetas de tantas nacionalidades, credos e tons de pele a celebrar uma festa como a do Ano Novo Chinês. Pode ser uma esperança ingénua, mas alguma temos de ter ou não sairemos ilesos dos próximos quatro anos.

 

Sara Figueiredo Costa, Cronista e editora do suplemento literário “Parágrafo”. Escreve neste espaço uma vez por mês.

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