Ser sal, ser luz

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Aqui temos o texto do Evangelho do Quinto Domingo do Ano Litúrgico que  desafia a todos,  homens e mulheres ‘de boa vontade’, e,  muito particularmente,  aqueles que se dizem cristãos e, entre estes, muito especificamente, os que se denominam ou se certificam como católicos. Todos são chamados a «Ser sal» ou a   «Ser luz» como consequência dos valores em que acreditam, expressem eles os valores  inerentes à natureza humana, à humanidade que é a nossa ou os valores intimamente ligados à fé em Deus Criador.

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«Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?», proclama o Senhor a nosso respeito. O «sal» quando é bom tem força, tem sabor e, usado na comida, dá gosto e torna-a apetitosa. Aplicando a imagem do  «sal » a nós próprios, é como que um apelo a sermos homens e mulheres com ‘força interior’, com personalidade, com carácter.  Ou ainda –  dum  modo mais pessoal –  ser quem sou, assumir as minhas próprias características que me distinguem dos outros, ser consciente da minha própria identidade.

Torna-se aflitivo, na sociedade actual, assistir, com evidência clamorosa, à facilidade com que  as  pessoas mudam de ideias e atitude ou se deixam influenciar. Mais parecem cata-ventos,  noras de água, borboletas, saltitando de flor em flor. Não têm consistência de pensamento, a lógica falta-lhes, atrozmente, e para não ter que dizer, finalmente, que, em muitos, se manifesta uma ausência completa de sentido crítico. Onde está a firmeza e a honra da nossa personalidade? A riqueza única do nosso ser?

Na nossa sociedade portuguesa – e não só – vejamos essas obsessões pelas telenovelas,  o delírio das claques futebolísticas, a compulsividade, quase neurótica, no uso das redes sociais. É a superficialidade institucionalizada. Nesta mesma perspectiva, olhemos ainda, com muita pena,  para os homens e mulheres que vivem no mundo da política! Quantos sem sabor, nem carne nem peixe, sem garra e, claro, uma nulidade ao serviço dos outros e na construção do seu país.

Mas que dizer do nosso pequeno Macau?  Temos nós  cá responsáveis de uma só ‘face ?  Dignos tanto no privado, como no público? ´Pessoas de grande coerência seja em tempo de  sucesso seja no de adversidade ou de crise?  O futuro da ‘Cidade do Nome de Deus’ de Macau e que, hoje, se tornou Região Admistrativa Especial de Macau precisa de ‘filhos da terra’, firmes na raiz, maleáveis nos seus movimentos e belos  e finos no seu ser como o’ bambú’.

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«Vós sois a luz do mundo», continua a afirmar o texto evangélico. Esta constitui, a meu ver, uma outra característica essencial e típica do homem ou da mulher, cristão ou não cristão, segundo o ensinamentodo de Jesus Cristo. Todo aquele que vive na verdade do seu próprio ser torna-se, induditavelmente,  uma «luz» para e diante dos outros, como o próprio Mestre explica, com grande simplicidade: «Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa.»

Ser «luz» implica na realidade da pessoa uma harmonia íntima e profunda da  inteligência, da afectividade e da vontade. Os pensamentos devem apresentar-se claros e distintos, os sentimentos ordenados e equilibrados e, por fim, os movimentos e inclinações para acção, levados por fins a favor do bem de todos, na verdade, no amor e na beleza e perfeição. Numa mundividência, esta caminhada  terminará sempre com a aspiração da criatura de chegar a Deus e à perfeição: «Sede perfeitos como Deus Pai é perfeito».

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Ao chegar a estas últimas linhas, dou, mais uma vez, uma olhadela ao Evangelho de Domingo e, com um misto de surpresa e consolação,  deparo-me com uma conclusão deveras inesperada,  mas tão ajustada ao que acabamos de escrever no parágrafo anterior: «Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus.»

Toda a boa acção humana, seja de crente ou não, tem sempre ‘um toque de Deus’.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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