O Sopro de Pak Tai:Molho Santul 88

 

foto-pak-tai-13

Como se sabe há várias Chinas. Dentro da China, fora dela; nos diversos sistemas, e nas circumvizinhanças deles. Pouco se sabe, contudo, acerca dessa outra China, de características únicas, a “China” do Bornéu malaio, seja em Sabah, ex-colónia britânica, ou em Sarawak, ex-latifúndio de James Brooke, mais conhecido como “o rajá branco”, podendo nós incluir na remessa o próprio Brunei-Darassalam, reminiscência do poderoso sultanato do Bornéu visitado pelas desgastadas tripulações da “Victória” e da “Trinidad” – as naus sobreviventes da frota de Magalhães – em busca de caminho menos atribulado de regresso a casa, sendo a última pilotada pelo lendário João Lopes Carvalho, mais conhecido como “o Carvalhinho”. Ali foram recebidos com pompa e circunstância, transportados no dorso de elefantes até ao palácio do poderoso Bolkiah (o “rajá Siripada” da crónica de Pigaffeta), antepassado do actual sultão, que na época era senhor de toda a zona costeira do Bornéu e de vastas áreas do arquipélago filipino, porto de Manila incluído.

E se falo de uma “China” dentro do actual Brunei-Daussalam, é porque, se exceptuarmos a fortuna descomunal de Hassanal Bolkiah – conhecido pelas suas excentricidades, a mais notória uma colecção de carros de luxo que (murmurejam os rumores) ascende aos sete mil exemplares – é dos chineses grande parte da riqueza gerada nessa realidade geo-política muito sui-generis do Grande Bornéu.

Ao percorrer as estradas de Sabah e Sarawak a omnipresença dos caracteres chineses quase nos faz esquecer que estamos num país muçulmano. Em certos locais, o bahasa malaio apenas dá a cara nas placas de trânsito, nas tabuletas das instituições estatais e pouco mais. Quanto ao Islão, definitivamente, mantém-se aqui muito discreto, sendo o chinês, por tradição, de confissão taoísta-budista – provam-no a presença de templos de um intenso vermelho, em gritante contraste com o verde vivo da paisagem – ou então cristã e de diversa índole. Cristãos também (o animismo é residual) os orang asli, i.e., os povos nativos: daiques, iban e orang-ulu e demais antigos caçadores de cabeças, ou não, pois nesse capítulo há muita ideia feita e algum delírio. Mas, adiante.

Resultado de três vagas de imigração, os chineses estão no Bornéu há centenas de anos. A mais recente, por sinal, a menos significativa e constituída por falantes de mandarim, remonta a década de 1990 e não passa de um esquema de obtenção de segunda residência para gente endinheirada; assim como uma espécie de imigração-visto-gold.

Lembremos antes os pioneiros, instalados na Malaca pré-Albuquerque, sultanto com excelentes relações com os dignatários do Filho Celestial, tendo alguns deles desembarcado aquando da passagem da frota de Zheng He. Encontram-se hoje enraizados na tradição malaia, embora continuem a ser discriminados e a não merecer o estatuto de “bumiputera”, ou seja, “filhos da terra”, o que leva muitos deles a rumarem definitivamente a outras paragens. São conhecidos como “peranakan” ou “baba-nyonya. “Baba”, os homens; “nyonya”, as mulheres. Curiosamente, o termo “nyonya” foram-no buscar à nossa “dona” ou “senhora”, assim como adoptaram as rendas e bordados que decoram as cabaias das senhoras.

A segunda vaga imigratória remonta ao século XIX e teve origem nos portos controlados pelos estrangeiros – as ditas concessões das zonas costeiras de Fujian e Cantão. Incentivados pelos colonos inglesas e o sultanato local, com promessas de boas perspectivas de trabalho nas minas de estanho e plantações de borracha, bem como a possibilidade de iniciaram produções agrícolas por conta própria, foram muitos os que partiram, também de Macau, alguns, quiçá, em idênticas condições aos cules despachados para os portos da América do Sul e das Antilhas. E, assim, foi arrebanhado considerável contingente. Essa imigração, bem à vista – praticamente todo o sector produtivo do Bornéu encontra-se nas mãos dos chineses – prolongaria-se-ia até a terceira década do século XX.

Foi nessa vaga que chegaram a Kuching os antepassados de Melissa, a menina toda expedita que me despacha para uma mesa vaga do restaurante Santul 88, e, de caneta afiada sedenta da encomenda que tarda a chegar, num inglês a roçar o hong-kongolês, informa-me que não tem peixe grelhado mas que o pode preparar  “ao modo tailandês”. Depois, conversa puxa conversa, “ah! é de Macau? De que zona?” A Melissa também é de Macau: “Vivo na Taipa. Vim passar o ano novo com a minha família, e aproveito para ajudar”.  Um dos ramos da família do pai está em Sarawak há diversas gerações mas nunca perdeu o elo de ligação com os parentes que permaneceram em Macau.

Ao ver-me supreendido pela ausência de preços no cardápio, Melissa aconselha-me a não me preocupar “pois o preço final será razoável”, tendo, porém, em conta que no Ano Novo Lunar os preços sobem um pouco: “Sabe que em Macau é assim também, não sabe?”

O Bantul 88, plantado num mangal, mero barraco encavalitado em esteios de madeira e com finas películas de plástico e servir de panos de mesa e, em simultâneo, de caixote de lixo, lembra-me uns do género que teimosamente resistem em Coloane. O duplo oito, tal como nas casas de penhores, é para convocar a sorte. Que venha ela.

Sem que o tenha previsto, janto na noite do Ano do Galo num restaurante de chineses de Macau erguido nas margens do rio Sarawak, tal como os restantes do delta, infestado de crocodilos. Só é pena que o peixe “preparado à tailandesa” venha para a mesa bem frito – “deep fried” com todos os “és” – e mergulhado num enjoativo molho de ketchup. Só se salvam os fetos comestíveis salteados. Bem condimentados, é certo, mas nada que se aproxime da excelência e requinte de prato similar, mas de confecção butanesa.

Retenho a primeira lição do ano: no Bornéu, desgraçadamente, o dito “molho tailandês” não passa dessa coisa detestável que dá por nome de ketchup. Presumo que com algum tipo de picante, vá lá.

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras. Excepcionalmente, “O Sopro de Pak Tai” é esta semana publicado um dia mais tarde.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s