Difícil de acreditar

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Neste próximo Domingo celebramos o Domingo das «Bem-aventuranças». O seu Evangelho é,  provavelmente,  um dos textos mais conhecidos entre quantos fazem parte da comunidade cristã e não só constitui mesmo o texto mais significativo para todos  aqueles que desejam, de modo muito pessoal,  seguir a Jesus Cristo, Senhor e Mestre. É um ‘caminho’ que conduz à perfeição. Mas é, diga-se a verdade,  um ‘caminho estreito’, tal como a ‘porta estreita’ de que fala Jesus quando se expressa perante aqueles que desejam ser seus ‘discípulos’. As palavras do Senhor são igualmente sinal de esperança para todos os que sofrem.

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Meditando sobre as 9 «Bem-aventuranças» do Evangelho de S. Mateus  (note-se que em S. Lucas, o número é mais reduzido), verifica-se que, em termos simples, a «Bem-aventurança»  parece ser formada de três partes: a aflição, social ou pessoal e íntima, a afirmação da felicidade e as transformações consequentes.

Cada uma das  «Bem-aventuranças» apresenta  sempre uma situação de aflição e de profunda dor. Umas  num forte contexto social: «os que choram», «os que têm fome e  sede de justiça», «os que promovem a paz», «os que sofrem  perseguição», «quando vos insultarem,  vos perseguirem  e, mentindo,  disserem todo o mal contra vós». Outras são expressão mais de uma exigência interior e íntima: «os pobres em espírito», «os humildes», «os misericordiosos», « os puros de coração».

Perante determinadas realidades sociais de degradação, subserviência, exploração, violência, perseguição ou guerra, muito difícil é a um homem ou uma mulher  manterem-se firmes  e fiéis aos seus grandes ideais  de humanidade ou de fé e não entrarem pela via da destruição, do desespero e da morte. De igual maneira, em certas circunstâncias é terrivelmente doloroso  a uma pessoa  ser  radicalmente honesta e sincera, humilde,  compreensiva e misericordiosa, transparente e simples de coração e  ainda procurar sempre a paz e não cair na tentação do lucro, da influência e do poder.

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É difícil de acreditar que se pode enfrentar as nove espécies de  situações ‘miseráveis’  da existência humana sem sucumbir à fraqueza e à dor. Humanamente falando,  tudo mais parece pura fantasia e utopia. Contudo, é  claríssimo o ensinamento de Jesus Cristo, Filho de Deus e nosso Salvador, ao afirmar categoricamente: «Bem-aventurados sereis».  

Mas Ele, o Senhor , explica-nos com a Sua vida. Ele próprio, na extrema fragilidade da Sua natureza humana e em «angústia mortal», no alto da Cruz, encarnou, no seu próprio ‘corpo nascido de mulher’ como nós,  todo esse mistério do sofrimento humano. Pela Sua Ressurreição, Ele venceu os males da miséria humana, os efeitos destruidores do pecado da humanidade, a força das garras da morte e o poder enganadoramente infalível do mal. Daí, a certeza e a consolação do convite de Jesus Cristo a todos nós, sujeitos à fraqueza e ao pecado: «Toma a Cruz de cada dia e segue-me». Heróis, santos e mártires de grandes causas todos os povos ,  todas as culturas e todas as civilizações estão recheadas. Lembremos Gandi, Luther King, Nelson Mandela, Edith Stein, Maxilian Kolbe, João XXIII. E porque não recordar também aquelas jovens que, apesar de violentadas, torturadas e massacradas, levantam as suas vozes a proclamar a dignidade e a beleza íntimas da mulher?

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Mais difícil é ainda acreditar  nos resultados consequentes da vivência dessas situações terríveis que a vida nos pode trazer, seguindo a pregação do Senhor Jesus. Não são fantasia,  mas estão para além de toda a nossa imaginação. Eis os frutos, segundo as palavras de Jesus.

Primeiro de tudo, perante o sofrimento e a dor que, neste mundo, possamos passar,  nada escapa aos olhos misericordiosos de Deus. Por três vezes, o Mestre remata com uma promessa inquestionável, ao dizer àqueles que passam pelo’vale da escuridão, das lágrimas e da angústia’: « É ( vosso ) o Reino dos Céus… Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

Mas,  neste mundo tão cheio de fraquezas e maldades, o Senhor contrapõe essa situação com a presença daqueles homens e daquelas mulheres capazes «de levar a Cruz de cada dia» e possuidores de «um espírito novo e um coração novo» e com a coragem de formar uma «nova terra.»

Eles terão a consciência de serem « filhos de Deus», com a certeza  também de que «verão a Deus», no seu dia a dia e na complexidade das circunstâncias da vida moderna e «possuirão a terra.»

Na sua actuação, nos seus problemas ou nos momentos críticos, «serão consolados». Nas suas aspirações de igualdade, justiça e do melhor para todos «serão saciados» e satisfeitos. Por fim, nos grandes tumultos e convulsões sociais serão homens e mulheres que «alcançarão misericórdia» e promoverão, sempre e por todos os meios disponíveis e legítimos  «a paz».

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve nestes espaço às sextas-feiras.

 

 

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