O Sopro de Pak Tai:Da Prata e das Pérolas

 

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Ponto comum entre Colónia de Sacramento e Macau – ambas cidades resultantes da teimosia, espírito de aventura e perseverança dos portugueses – é o título de Património da Humanidade que ambas ostentam. Porém, a atribuição de classificações de prestígio internacional tem as suas inconveniências e nem todos gostam de viver em locais assim designados, pois há privilégios que se perdem, hábitos que têm de ser alterados. Isto, apesar de não me parecer que exista um critério definido, por parte da UNESCO, sobre o que deve ou não deve ter uma cidade, que requisito deve ou não deve obedecer para poder ostentar o título, como quem usa uma condecoração.

Recentemente inaugurado, o restaurante de comida francesa La Gallette tem já motivos de queixa. Não os expressa o dono bretão (mais preocupado com o ponto da farinha dos crepes), antes a Daniela Gomes Merladett, “artista plástica, empregada de mesa e mãe solteira”, que aproveita o espaço para expor as suas telas. Esta uruguaia de ascendência portuguesa não hesita em classificar de “fundamentalistas” todos os que pensam que o título de Património da Humanidade constitui motivo para controlar e limitar a iniciativa privada. E dá exemplos: “Tínhamos umas canalizações podres que empestavam o ar e nem imaginas o que tivemos de passar para conseguir autorização para colocar tubagem nova. Isso de títulos da UNESCO é uma coisa muito bonita, desde que não interfira com o bem-estar das pessoas e o direito que têm à sua individualidade”. A propósito, aponta para a pequena abertura na parede que liga a cozinha à sala de jantar, e acrescenta: “Por termos feito aquilo, fomos obrigados a pagar uma multa muito pesada”.

Se por um lado se reprime, por outro deixa-se em ruína muito do património classificado. Num deambular sem rumo definido (a dimensão de Colónia permite luxos destes) confronto-me com vários edifícios à espera de restauro e financiamento. Nas paredes degradadas vêem-se placas com um «Se Vende» acompanhado de um apelido e um contacto telefónico. Alguns desses apelidos são portugueses: Freitas, Mata, Amaral. Este último parece dominar o ramo imobiliário local. Há habitações disponíveis em óptimas condições que certamente acabarão como propriedade de europeus que aqui escolheram viver, à semelhança do que acontece em Arzila e noutras praças-fortes de origem portuguesa na costa marroquina. E ainda bem. Haja quem trave o irremediável e deprimente processo de desmoronamento.

O estado ruinoso de certos edifícios, alguns de grande porte, autênticos sobrados coloniais, é mais evidente junto a um passadiço de madeira situado a uns cinquenta metros do café onde trabalha Daniela. Este ancoradouro alinha, quase em paralelo, com o que sobra da muralha do baluarte Del Carmen, uns metros a oeste, ocupando o local exacto onde acostavam as embarcações nos tempos áureos do comércio e contrabando, quando as potências europeias se digladiavam para dar a melhor dentada na “maçã da discórdia”, pois assim era designada Colónia de Sacramento. Hoje, o madeiro renovado limita-se a suportar o andar pausado dos sonhadores, dos velhos e dos amantes. Para além disso, resguarda um ou outro barco de recreio, apesar de ter sido substituído por um moderno embarcadouro de cimento, muito mais longo, a meia centena de metros a sul, e que parece estar sob a alçada do Clube de Pesca local.

Implantado no relvado que o pedaço de muralha ainda em razoável estado de conservação sustem, está uma torre de tijoleira com mais de trinta metros de altura. Projectada, no início do século XX, com o intuito de expelir para bem longe os desagradáveis fumos de uma fábrica de cola e sabão – que era ao mesmo tempo lavadouro de lãs e curtumes, e que nunca chegou a funcionar – esta torre tem hoje, a única função de marco de referência da cidade. Dir-se-ia um farol de barro, a fazer lembrar os minaretes das peculiares mesquitas das cidades uigures no oásis do Turquestão chinês. Torre e armazém, propriedade de investidores argentinos, foram vendidos ao estado uruguaio que fez dele um Centro Cultural onde expõem agora artistas locais e estrangeiros.

Há nesta cidade uma propensão para o desenho e para a aguarela, que se traduz na grande quantidade de pequenas galerias que vemos ao virar da esquina e nos muitos artesãos de rua, alguns acompanhados por toda família, que aqui passam os verões. Há quem prolongue a estada pelo ano inteiro, como é o caso da brasileira Nanne, que habitualmente estende a sua banca com colares, braceletes e pendentes de missanga à sombra providencial de uma figueira-de-bengala no Paseo de San Miguel, junto ao baluarte com mesmo nome:  “Prefiro viver aqui, pois é muito mais seguro do que em qualquer parte do Brasil”, confessa.

A segurança é uma dos grandes trunfos de Colónia de Sacramento, em particular, e de todo o Uruguai, provavelmente o país com a mais baixa taxa de criminalidade da América do Sul. As pessoas são pacíficas e existe uma força especial –  a polícia turística – que dissuade possíveis meliantes e tranquiliza os visitantes menos afoitos. E também neste aspecto, o da segurança, convergem as suas cidades: a da foz do rio da Prata e a da foz do rio das Pérolas.

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

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