Ouvir a voz …

 

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O Evangelho deste Terceiro Domingo do Ano Litúrgico apresenta-nos o começo da vida pública de Jesus: «Deixou  Nazaré e foi habitar em Cafarnaúm, terra à beira-mar.». Pela conjugação dos diversos momentos da actuação inicial do Senhor, encontramos como que um caminho ou uma pedagogia capaz de nos levar a saber ouvir a voz de Deus no íntimo do nosso ser, no mais recôndito de nós mesmos, no mais profundo do nosso coração.

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Primeiro, no texto evangélico, citando Isaías, o grande profeta do Antigo Testamento, Jesus é, antes de mais,  revelado como a «Luz»  e a Salvação de toda a humanidade. Esta, em seguida e por sua vez, é descrita como  « povo que vivia nas trevas, aqueles que habitavam  na  sombria região da morte». Assim, todos nós para ir ao encontro de Deus e escutar a Sua voz, «suave como a brisa da tarde», temos de ter uma consciência mínima da nossa fragilidade, dos nossos defeitos e das nossas  imperfeições. Mais se pode ainda afirmar,  sem a humildade de aceitar aquilo que somos, principalmente, na nossa fraqueza, não há maneira de chegar a Deus.

Dá pena ver, na nossa sociedade actual,  em certos sectores,  homens e mulheres cairem no endeusamento da razão ou da racionalidade ou no orgulho insensato e paranóico do poder da criatividade humana, crendo que tudo podem fazer ou ainda enveredarem  por outro lado e embriagarem-se,  sem moralidade, numa vida de consumo compulsivo, de prazer e de divertimento. Não conseguimos entrar em contacto com Deus e “ouvir a Sua voz” sem percorrer o caminho da simplicidade de vida e da humildade das atitudes, sobretudo, do coração. Altivos ou convencidos, peneirentos ou vaidosos, teimosos, invejosos, rancorosos, truculentos, egoístas, mexeriqueiros, narcisistas … dificilmente se abrem, com sinceridade, a Deus.

 

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«Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus». São as palavras de Cristo, num segundo momento. Elas indicam também  o passo seguinte a ser dado neste nosso  caminho ao encontro com Deus, isto é,  a necessidade de conversão do nosso coração e da mudança das nossas atitudes.  Ao ter conhecimento “das feridas e dos erros”, na nossa vida, como diria  Madre Teresa de Calcutá, impõe-se, sem subterfúgios, converter, com grande transparência e objectividade,  o nosso coração e transformar, radicalmente , os nossos hábitos, costumes e atitudes.

Percorrendo o mundo, cruzando continentes e conhecendo países quase sem conta, e escutando homens mulheres de diferentes povos, raças e culturas, é minha convicção e convicção profunda, de que a humanidade  está com a necessidade urgente e gritante de entrar dentro de si mesma, no âmago quase insondável do seu coração.  Mas, terrivel  realidade! A sociedade moderna,  homens e mulheres do nosso tempo, não sabem entrar no mais “intimo do seu ser. Não são capazes de penetrar, calma e corajosamente, nas moradas mais secretas da sua ‘angústia existêncial’. Mas mais doloroso ainda é constatar que não sabem ou não querem “sentar-se aos pés de Jesus”, como fez aquela Maria, irmã de Marta e Lázaro. Continuamos a viver sob a tirania da racionalidade e da tecnocracia e iludimo-nos amargamente no hedonismo e consumismo, tantas e tantas vezes, moralmente degradante.

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Com Jesus, o Mestre, somos conduzidos, por fim, ao terceiro passo desse “caminho interior” que é precisamente  atingir essa capacidade de “ouvir a voz” de Deus em  nós. O texto de São Mateus termina, de facto, com o diálogo de Jesus com os seus primeiros discípulos, todos eles pescadores : «Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Disse-lhes Jesus: “Vinde e segui-Me”. Eles deixaram logo as redes e seguiram-no. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago e seu irmão João … Jesus chamou-os, e eles,  deixando o barco e o pai, seguiram-no.»

Friso aqui a possilidade de todo o homem ou de toda a mulher de sentir em si a presença de Deus e de escutar “a Sua voz”, desde que se ponha nas devidas condições : reconhecer a verdade de si mesmo como frágil,  pobre e pecador, aceitar, com humildade, essa mesma situação e,  com  força de vontade, converter e transformar o seu coração e mudar corajosamente os seus comportamentos e atitudes.

 

Olhemos os governantes políticos que estão a aparecer na geo-política mundial. Vejamos também as “inclinações de voto” e as “opções” do dito cujo “povo” e das ditas “massas populares”. Onde vamos ?

Bem precisamos de uma “Revolução Humanista”.

Não está o Papa Francisco, a ser, surpreendentemente, o grande Líder ?

 

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve nestes espaço às sextas-feiras.

 

 

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