O comércio e o poder

Marco Polo's Route On Silk Road To China

Vivemos num tempo de novas rotas da seda. Mas também de regresso às fronteiras geográficas e étnicas do passado. Talvez estejamos defronte da herança da filosofia chinesa e dos seus pesos e contra-pesos. Encontramos o significado das coisas, em igual medida, dos dois lados, buscando-se o equilíbrio. O yin e o yang são forças que se opõem mas são complementares. Uma não pode viver sem a outra. Essa é a ordem normal da natureza. Talvez por isso se tenta o regresso novamente às ligações entre o Mediterrâneo, a Índia e a China. Marco Polo nunca foi esquecido. Veneza, Génova ou Lisboa, cada uma a seu tempo, nunca renegaram esta ligação. Sempre houve uma ligação. Se recuperarmos a história, veremos que entre os séculos VI e V antes de Cristo, guerras e alterações sociais foram a fonte de novas ideias políticas em Atenas, em Roma e no estado chinês de Lu. A democracia ateniense, a república romana ou o confucionismo chinês ganharam músculo nesses tempos de mutação. Nos séculos seguintes havia muitos pontos de contacto entre o ascendente Império Romano, o reino selêucida nascido das conquistas orientais de Alexandre e as dinastias Qin e Han na China. Tudo isso contribuiu para a criação das rotas comerciais que hoje conhecemos como Rota da Seda.

Nesses tempos, ligações políticas foram feitas. Embaixadores chineses chegaram a Roma em 130 antes de Cristo (embora os romanos tivessem demorado cerca de 300 anos para retribuir a cortesia). As ideias e as pessoas fluíram através da Ásia central para os dois extremos e para dois impérios que não se olhavam directamente: o chinês e o romano. Não deixa de ser curioso comparar alguns dados: o Império Romano construiu 48 mil milhas de estradas enquanto a China Han construiu 22 mil. Quando o Império Romano caiu sem muito estrondo no século V depois de Cristo, a China começava a tornar-se a maior potência global, algo que foi acontecendo até ao advento da Revolução Industrial. Muitas vezes foram as religiões a fechar portas e janelas para que povos diferentes deixassem de trocar olhares. Basta recordar que quando o estudo dos hieróglifos egípcios foi abandonado na Alexandria cristã por ser considerada uma pratica herege, o conhecimento dessa linguagem foi perdida durante 14 séculos.

Muito do movimento das ideias foi feito à boleia do comércio. Religiões como o islamismo, o budismo ou o cristianismo expandiram-se assim. Curiosamente o centro de gravidade asiático, a China, durante muitos séculos teve uma atitude de receio face ao comércio que encontrou eco nos seus vizinhos. Durante séculos o comércio marítimo entrou em conflito com os impérios agrícolas da Ásia. Mas nem isso impediu que o comércio tivesse uma forte influência na criação de monumentos como os de Angkor Wat. Mas nas fronteiras chinesas o comércio era fortemente controlado e os comerciantes tinham as portas fechadas para entrar no círculo de poder político (na Índia, também receosa do poder dos comerciantes, eram uma casta inferior, por exemplo).

Não deixa de ser curioso que antes da chegada dos portugueses (com o seu sonho comercial assente no poderio naval e trazendo à boleia a fé religiosa) às suas costas, as expedições marítimas do almirante Zheng He mostraram o potencial da dinastia Ming. Mas elas não revelavam qualquer mudança estratégica na política anti-mercantil dos Ming. Pelo contrário, as expedições destinavam-se a afirmar a preocupação imperial de monopolizar todo o comércio externo e deixá-lo fora de mãos privadas chinesas. Só mais tarde, com a intensificação do comércio marítimo liderado pelos portugueses, o poder chinês relaxou a sua posição e deu folga aos mercadores chineses para negociar directamente com estrangeiros. O comércio acabou por vencer. E hoje é a espinha dorsal da Rota da Seda politica que vai crescendo. Nos velhos e novos caminhos do comércio entre as margens do Mediterrâneo e a Ásia.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. Autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”, escreve neste espaço uma vez por mês.

 

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s