A Era Donald Trump

 

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O ano de 2016 terminou com a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O resultado tomou os observadores, os media e os departamentos de relações externos dos estados de surpresa. Trump triunfou, afinal, contra a lógica de alternância das elites democrata e republicana do Congresso e do Senado, contra o respectivo programa político e o cortejo de conveniências e cumplicidades que constitui o tecido político em Washington. Enganei-me, também, porque tomando Trump como um candidato anti-sistema e contra-ciclo esperei que o eleitorado tivesse o ‘bom senso’, na altura de depositar o seu voto nas urnas.

Mas o eleitor teve bom senso. Mas o seu. Quis-se ver livre de um sistema de que está cansado e que lhe retirou todos os ingredientes do que se chama o American Dream: a qualidade impar de vida dada pela costa belíssima do Pacifico, as pradarias do centro dos Estados Unidos, a route 66, as pequenas cidades adormecidas do interior e aquela mescla emblemática de raças, credos, cores de pele e tatoos que simbolizam o ‘melting pot’ da grande nação americana. Eles continuam lá mas os americanos cansaram-se de políticos aldrabões e de retórica fácil, de paradas, de comícios com os habituais de Nashville ou de Hollywood, com as certezas ‘politicamente correctas’ da CNN, do New York Times e do Washington Post. Começaram a perder empregos, viram os seus pequenos negócios encerrarem perante a competição desenfreada de chineses, indianos e outros concorrentes improváveis que passaram a aprovisionar as prateleiras dos supermercados e dos retalhistas on-line.  E disseram basta: vamos arriscar no ‘trouble-maker’ que nos promete aquilo que queremos.

Trump está a dias de ser investido como Presidente dos Estados Unidos e o mundo está suspenso sobre o que vai acontecer agora. Como será Trump como presidente da maior potência do planeta? Um tipo trauliteiro e desbocado como vimos nos debates presidenciais? Uma réplica de um Ronald Reagan defensor do mercado livre, da taxação mínima das empresas e das actividades económicas, um profundo anti-comunista? Um isolacionista, nacionalista, à moda dos anos 1920 e 1930, preocupado com a política interna, com a decrepitude do equipamento e da capacitação operacional das forças armadas, com o recuo da vantagem geoestratégica do arsenal nuclear dos Estados Unidos? Um político ciente da identidade norte-americana e nostálgico da ‘America Great Again’? Não sabemos.

Ao tempo em que o artigo é escrito, Trump conduz o processo de selecção do topo da sua administração, tendo anunciado dezoito nomes[1] que dão indicações que quis combinar uma visão muito própria da função presidencial com a satisfação das posições do lobby republicano nas duas câmaras do Congresso. Perante os impropérios da imprensa liberal que se tem afincado em desqualificar as escolhas do presidente eleito, Trump parece querer dirigir o seu governo como um CEO de uma grande empresa multinacional. Traçando as orientações estratégicas, desenhando a política de alianças mas deixando a gestão do dia-a-dia ao Vice-Presidente Mike Pierce, um católico conservador que foi governador do Indiana, e à direcção republicana do Senado e da Câmara de Representantes. O sistema político americano é contudo complexo e embora o presidente seja o titular teórico do poder executivo, tem de negociar apoios naquelas duas câmaras para as políticas que se propõe implementar. Sobre isso, o Congresso tem uma arma letal: a avaliação e a disponibilização de verbas do orçamento federal.  “No money no vice’, diz-se na gíria.

Veremos nas próximas semanas como o Senado avalia os nomes propostos por Trump sendo certo que a maioria conservadora lhe é favorável. Ainda assim, na audição a que serão sujeitos irá perceber-se o traquejo que os candidatos apresentam para as funções que vêm indicados. Estou curioso quanto à audição do General James Mattis para o departamento de defesa, um militar que se incompatibilizou com Obama no segundo mandato, mas que tem um profundo conhecimento do terreno do Médio Oriente e da situação interna nas Forças Armadas, de Rex Tillerson, o bilionário CEO da Exxon-Mobil, que dirigirá o Departamento de Estado e que constituiu uma curiosa opção estratégica (contra nomes mais fortes como Romney, Giuliani, Bolton ou Petraeus) e do General John Kelly que dirigirá o departamento de Segurança Interna (Homeland Security) responsável pela implementação das políticas de combate ao terrorismo e pelo controlo da imigração.

Será ainda cedo para arriscar em previsões mas a administração de Trump terá um pendor mais político que a de George W. Bush e menos económica que a de Reagan. Resolvidos os imbróglios do Afeganistão e do Iraque, Trump irá concentrar-se, no plano externo, no combate ao DAESH e à ameaça islâmica o qual constituiu um fracasso da administração Obama. O DAESH é uma consequência da rápida retirada americana do palco do Médio Oriente e da errada estratégia de Obama para a Síria.  Ignorando-se os termos exactos da nova política externa norte-americana julgo poder-lhe identificar sete ideias-força, para além do compromisso de combate anti-terrorista: a) nacionalismo económico e isolacionismo estratégico; b) congelamento da política de alianças no Médio Oriente e paragem de aventuras militares; c) revisão e/ou denúncia de compromissos advindos de tratados internacionais (Acordo de Paris sobre o Clima e o Tratado TNPN; d) aliança táctica com a Rússia (um novo Acordo de Yalta) de partilha de zonas de influência; e) desmantelamento do ACP (Acordo de Comércio Transpacífico) e revisão de parcerias económicas na Ásia Central e do Sul; f) afinação da relação bilateral com a China com reconhecimento da sua supremacia regional em troca de concessões comerciais e económicas; g) libertação de compromissos de defesa no palco europeu e desinvestimento na NATO.

Deixarei para outras crónicas o desenvolvimento destas ideias-força mas estou em crer que iremos assistir a um profundo revisionismo da política externa dos Estados Unidos para a Região Ásia-Pacífico. Trump não parece interessado em aprofundar as alianças de 70 anos com algumas das potências asiáticas que têm impedido o avanço do abraço tentacular da China sobre toda a RAP. O que deixará aliados históricos como o Japão, a Coreia do Sul, a Indonésia, Taiwan, a Austrália e a Nova Zelândia e novos aliados, como o Vietname, numa posição delicada em termos de defesa e segurança externa. Das duas, uma: ou esses países, perante o desancoramento estratégico americano, concertam uma plataforma de defesa mútua, combinada com uma relação calculista com a China ou assistiremos ao disparar da corrida armamentista e ao rearmamento nuclear de países que até aqui têm beneficiado do escudo de defesa norte-americano.  Outra condicionante importante é saber se a China terá, nesse cenário, tentações hegemónicas e expansionistas.

A construção acelerada de infraestruturas portuárias e aeronáuticas em vários ilhotes e promontórios semi-emergidos do Mar da China Oriental parece indicar a disposição chinesa de ali colocar pequenos contingentes militares bem como usá-los como plataformas de mísseis estratégicos de médio e longo alcance que visarão os países vizinhos e mesmo a costa ocidental dos Estados Unidos. Xi Jinping aprecia a postura autoritária de Vladimir Putin e não criticou a anexação russa da Crimeia. Terá esse facto outra leitura? Não o sabemos.

Como  dizia Robert Kagan, num depoimento no congresso norte-americano, iremos assistir ao regresso a uma era de rivalidades entre grandes potências.  Não sei porquê lembrou-me a descrição do mundo feito pelo filósofo inglês Thomas Hobbes num livro incontornável de 1651, o Leviatã.

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras.

 

[1] Washington Post, ‘Donald Trump has decided who will fill 18 of 21 Cabinet-level positions that require Senate confirmation. Actualizado a 6 de Janeiro. In https://www.washingtonpost.com/graphics/politics/trump-administration-appointee-tracker/

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