Tempo de passagem

1-copacabana

 

2016

Ano bissexto, caprichoso e complexo. Ano de forte tensão internacional. Elevada incidência da ameaça do terrorismo global e das guerras na Síria, no Iémen e no Sudão do Sul, para além do conflito israelo-palestiniano, agora com novos episódios da resolução da ONU sobre os “territórios ocupados”. Ano de falecimento de grandes figuras da Cultura (Prince, David Bowie, Umberto Eco, Ettore Scola, Leonardo Cohen, Ferreira Gullar, George Micheal), da Ciência (João Lobo Antunes) e da Política (Fidel Castro). Ano da destituição de Dilma Rousseff no Brasil e o golpe parlamentar em pleno regime presidencialista que faz catapultar Michel Temer; assim como a eleição de Donald Trump como o 45º presidente dos Estados Unidos, rompendo o “establishment” americano e redimensionando as relações internacionais. Ao muito de aziago que este ano a fechar nos deixa, ficou alguma réstia de esperança. Ano da eleição de António  Guterres a secretário-geral da ONU  (cujo mandato começou oficialmente a 1 de Janeiro) e o renovar de esperanças em relação ao incremento da paz, segurança, respeito, direitos humanos, tolerância e solidariedade. Ano histórico para a CPLP que completou 20 anos não só por causa de Guterres, mas por causa dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, por Cristiano Ronaldo ter acumulado pela quarta vez o epíteto de melhor jogador do mundo, por Portugal conquistar no futebol o Euro 2016, pelo português, este ano cogitado como futura língua da ONU, sendo já  língua de trabalho nalgumas organizações da ONU, como a UNESCO, e é oficial em outras organizações internacionais, como a SADC, CEDEAO, União Africana, Mercosul e União Europeia. E ano da aplicação do “histórico” Acordo de Paris, assinado em Dezembro de 2015, a abrir novas perspetivas para o afrontamento às mudanças climáticas e ao aquecimento global.

 

 

Mário Soares

 

Por estes dias, os meus pensamentos, geralmente profusos e dispersos, incidem na pessoa de Mário Soares, quem já foi Primeiro-Ministro e Presidente de Portugal. E, antes disso, um dos fundadores do Partido Socialista Português, uma das figuras mais proeminentes da Democracia em Portugal e personalidade central da descolonização e, em consequência, das independências das antigas colónias. Tudo o que seja nossa história contemporânea tem a marca indelével de Mário Soares, homem que, mercê de suas fortes convicções, não se permite à indiferença e à “desmemória”. Em coma profundo e todos quantos o admiram a susto, faz-se um olhar panorâmico. Permito-me demorar num ponto: grandeza de espírito. Manda a justiça reconhecer que a Fundação Mário Soares (FMS) salvaguardou o Arquivo Amílcar Cabral e promoveu dele e sobre ele uma vasta documentação, alguma outrora em risco. Amílcar Cabral não é só gigantesca, mas transcendente, referência para a nossa geração que o encara em activa pós-memória e de alguma forma nas antípodas da amnésia. Por conseguinte, tudo que advenha de Cabral, quanto mais não seja pelo afã da crítica genética, interessa-nos sobremaneira. Tal espólio, que é verdadeira relíquia, está patente à consulta pública, é um extraordinário exemplo de grandeza pessoal e sentido de responsabilidade social, cultural, histórica e científica. Obrigado, Mário Soares.

 

 

 

2017

 

Venha-nos um ano mais tranquilo. Com alguma trégua. Com intermitência de humanidade. Às tantas, aprende-se a não querer muito. O pouco e o mínimo já são de bom tamanho. Outras tantas, deseja-se tão somente que os pólos não se derretam, nem se detonem bombas em plena rua. O estar vivo já é um grande lucro. Um superávit. O respirar ainda algum oxigénio que é pura dádiva de Deus. Venha-nos um ano sarado. Nem digo sublimado ou compadecido com a graça divina e, se não for pedir demais, com a graça balsâmica. Sarado no olhar demorado, em verdade todo ele recheado de ternura e sem pagar portagens a quem por sina amamos. No ponto de alguma fusão, alhures, a vir, qual ave de arribação, um tempo melhor.

 

Filinto Elísio, Poeta e cronista cabo-verdeano. Escreve neste espaço uma vez por mês.

 

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